Lições que aprendi como repórter no Natal de 1985 no acampamento da Fazenda Annoni

Agricultura familiar é um exemplo de sucesso da reforma agrária Foto: Reprodução

No final do mês de outubro assisti às comemorações dos 40 anos da ocupação da Fazenda Annoni por 1,5 mil famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A Annoni é uma gleba de 9,3 mil hectares às margens de uma estrada que liga as cidades de Passo Fundo e Ronda Alta, no norte do Rio Grande do Sul. Na madrugada de uma terça-feira, 29 de outubro de 1985, os sem-terra chegaram em dezenas de caminhões, ônibus e outros meios de transporte, cortaram o arame da cerca da Annoni e montaram acampamento. Eu estava lá na hora, e não foi por obra do acaso, como expliquei no post A imprensa sabe que a luta pela reforma agrária influenciará as eleições de 2026?, publicado em 28 de outubro. Havia apostado em uma informação de que a ocupação aconteceria naquela madrugada. E aconteceu. Nas décadas de 80 e 90, acompanhei a maioria dos conflitos agrários que ocorreram pelos rincões do Brasil e do Paraguai.

A Annoni não foi o meu batismo de fogo neste tipo de cobertura. Mas as lições que lá aprendi me acompanham até hoje nas lidas de repórter. Vamos falar sobre o assunto. Na década de 80, temas envolvendo a reforma agrária eram capa de jornal. Não podia ser diferente. Em 1964, as Forças Armadas, aliadas com a extrema direita e apoiadas pelos Estados Unidos, deram um golpe de estado e derrubaram o presidente da República, o gaúcho de São Borja João Goulart, o Jango, do antigo PTB. Os militares e seus aliados ficaram no poder até 1985, quando o Brasil iniciou um processo de redemocratização que culminou com a publicação de uma nova Constituição, em 1988. Na época, a cada conflito político ou social, circulava pelas redações o boato: “os militares vão voltar”. Por conta disso, episódios como a ocupação da Annoni eram pauta obrigatória, acompanhados por jornalistas de todos os cantos do país e até do exterior. Eu passava mais tempo na Annoni do que na redação do jornal. Em uma dessas ocasiões, entrei em um barraco onde estava uma jovem senhora, mãe de quatro filhos. E começamos a conversar sobre presentes de Natal para as crianças. Eu nasci em uma família pobre no interior gaúcho e lembrei-me que era tradição no Natal os pais fazerem bonecas de trapos velhos de roupa, caminhões de restos de madeira e outros brinquedos. Pensei que era essa história que iria ouvir da mãe de quatro crianças. Não foi. O que ouvi, me surpreendeu. Ela contou que colocava debaixo da cama das crianças pequenas pedras. E na hora de presenteá-las, contava uma história sobre cada pedra, que assim resumo. A pedra seria o que a criança imaginasse que fosse. Claro, ouvi esse relato há 40 anos e não me lembro de todos os detalhes. Mas nunca esqueci a história das pedras.

Depois dessa conversa, comecei a observar e descobri a importância que tinha, para as crianças acampadas, os contadores de história. Ao anoitecer, ao redor de um fogo de chão, se reuniam para ouvi-los. Em 2024, eu e o repórter fotográfico Emílio Pedroso rodamos pelos quatro cantos do Rio Grande do Sul fazendo entrevistas e pesquisas para o livro A história perdida das benzedeiras gaúchas, publicado em 2025. Na ocasião, encontramos a benzedeira Vivaldina de Moraes, 83 anos, no assentamento A Palmeira, em Hulha Negra, na fronteira sul com o Uruguai, onde vivem famílias beneficiadas pelos programas de reforma agrária do governo federal. Ela foi acampada na Annoni, onde, além de benzer as crianças, também contava histórias. Perto da casa de dona Vivaldina mora a benzedeira Ivanir Ivete da Silva, 60 anos, conhecida como Iva. Em 1978, ela tinha 13 anos e fazia parte de um contingente de 3 mil agricultores que eram intrusos na reserva indígena caingangue Nonoai, uma área de 17 mil hectares em Nonoai, município agrícola no norte gaúcho. O cacique da tribo, Nelson Xangrê (1946 – 2020), liderou uma revolta contra a presença dos colonos na reserva e colocou fogo nas escolas onde estudavam os filhos dos agricultores. Uma delas era a de Iva: “Acordei de madrugada, olhei pela janela e vi a escola pegando fogo. Não entendi o que estava acontecendo”, recordou Iva. Ao clarear do dia, grupos de índios armados com velhas espingardas e porretes passavam de casa em casa dos agricultores dando um recado curto: “Vão embora ou serão mortos”. As famílias esconderam as crianças no mato e se entrincheiraram para se defender. Por curiosidade, Iva e um grupo de crianças foram até uma das escolas incendiadas. Lá, encontraram uma imagem de Nossa Senhora da Saúde inteira no meio dos escombros. Para Iva e seus amigos, “foi milagre” o que salvou a imagem. Houve um acordo entre os agricultores e os chefes indígenas. Os colonos saíram da reserva e montaram 30 acampamentos de sem-terra. Um deles foi chamado de Encruzilhada Natalino, que teve como um dos articuladores o padre Arnildo Fritzen, 83 anos. Natalino começou em 1979 e quando terminou, em 1983, havia se tornado um marco da reforma agrária no Brasil. Ali nasceu o MST.

Iva virou benzedeira de crianças e entrou no movimento. Até hoje conserva a imagem de Nossa Senhora da Saúde. Padre Arnildo tornou-se uma referência na luta pela reforma agrária. Em outubro de 1985, a meia dúzia de quilômetros da Natalino, aconteceu a ocupação da Annoni. Contei essa história para lembrar que em vários cantos do mundo a reforma agrária trouxe progresso. Por que não aconteceria no Brasil? Aconteceu, e a maioria as famílias assentadas pelos programas federais de reforma agrária nos dias atuais integra a chamada “agricultura familiar”, que produz uma significativa parte dos alimentos que supre a mesa dos brasileiros.

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