Trump arrasta a economia mundial para o “atoleiro da guerra do Irã”

As ameaças do presidente americano não assustaram os aiatolás Foto: EBC

Subiu no telhado, como diz o povo para explicar de forma sutil que algo deu errado, o acordo entre Estados Unidos e Irã para um cessar-fogo de duas semanas na guerra iniciada em 28 de fevereiro, quando os americanos e seu aliado Israel lançaram ataques contra alvos no território iraniano. O acordo previa a reabertura, na manhã de quarta-feira (8), do Estreito de Ormuz, bloqueado pelo Irã nos primeiros dias da guerra. Ormuz, um estrangulamento de mar que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, é uma rota marítima estratégica para a economia mundial porque por ali passa diariamente 20% do petróleo consumido no planeta. Imediatamente após o anúncio da reabertura, a cotação do barril caiu de 120 para menos de 100 dólares e houve reações favoráveis nos mercados financeiros. Mas a alegria durou pouco. Israel seguiu bombardeando posições no Líbano, onde vivem integrantes do Hezbollah, movimento radical islâmico financiado pelo Irã. Em represália, os iranianos fecharam Ormuz novamente, alegando que o fim dos bombardeios ao território libanês faz parte do acordo de cessar-fogo. Apenas quatro petroleiros haviam cruzado o estreito. Em tempos de paz, o tráfego costuma chegar a 120 navios por dia. Americanos e israelenses responderam que o Líbano estava fora do acordo. No fim de semana, negociadores americanos e iranianos se reúnem no Paquistão para decidir o destino do cessar-fogo, que foi viabilizado pelas autoridades paquistanesas. Enquanto isso, mesmo com a queda da cotação do petróleo, os preços dos combustíveis não param de subir nas bombas de abastecimento ao redor do mundo.

A exemplo de conflitos anteriores no Oriente Médio, o atual também desperta grande interesse da comunidade internacional porque a região concentra alguns dos maiores produtores mundiais de petróleo. Cada um desses conflitos mexeu com os preços dos combustíveis, algumas vezes com força suficiente para desorganizar toda a economia mundial. Qual é a diferença desta guerra para as outras que aconteceram por lá? Vamos começar puxando o fio dessa meada. Ele aparece no raiar do dia 7 de outubro de 2023. Naquele sábado, vindos da Faixa de Gaza, território da Palestina de 365 quilômetros quadrados onde vivem 2,4 milhões de pessoas, 3 mil combatentes do Hamas, um movimento radical islâmico financiado pelo Irã, invadiram Israel, mataram 1,2 mil pessoas e fizeram 250 reféns. A maioria dos países concordou com o direito de Israel de reagir ao ataque. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, 76 anos, comparou o episódio ao 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. Na ocasião, 19 terroristas suicidas ligados à Al-Qaeda, de Osama bin Landen (1957 – 2011), sequestraram quatro aviões comerciais e os jogaram contra prédios, entre eles as Torres Gêmeas, em Nova York, matando 3 mil pessoas. A respeito dessa comparação, o então presidente americano Joe Biden (democrata), 83 anos, advertiu Netanyahu para ter cuidado com os “excessos” na retaliação ao Hamas. Biden referia-se aos erros cometidos pelos Estados Unidos na perseguição aos culpados pelo 11 de setembro, envolvendo-se em guerras que se tornaram atoleiros sem fim, como no Iraque e no Afeganistão. Pelo visto, Netanyahu ignorou a advertência.

O atual presidente americano, Donald Trump (republicano), 79 anos, tomou posse em 20 de janeiro de 2025 e, a exemplo do que tinha feito no seu primeiro mandato (2017 – 2021), tratou de correr atrás de um palco para brilhar nas manchetes internacionais. E Netanyahu tinha o palco procurado por Trump, A caçada ao Hamas na Faixa de Gaza custou, nos primeiros dois anos de guerra, 67 mil palestinos mortos, a maioria civis. Do lado israelense, foram 1.665 mortos, além da questão dos reféns, que corroíam a já carcomida imagem pública de Netanyahu. Em um primeiro instante, Trump vendeu a ideia de transformar Gaza em uma espécie de Riviera francesa, um spa de luxo para turistas. O destino dos palestinos seria migrar para países vizinhos. A ideia foi abandonada. Em outubro passado, ele anunciou o fim da guerra de dois anos entre Israel e Hamas com um acordo de cessar-fogo que incluía a troca de reféns israelenses por prisioneiros palestinos. Além do desarmamento do Hamas e a reconstrução de Gaza. Meses depois, militantes do Hamas e soldados israelenses continuam trocando tiros e a população civil se transformou um “problema humanitário”. Em 2026, no final de fevereiro, Netanyahu convidou Trump “para brilhar novamente nas manchetes”. Desta vez, atacando o Irã. A respeito do assunto publiquei, em 20 de março, o post Até onde Trump pretende ir com a guerra no Irã? Vou repetir parte do texto. “Um fato surpreendente aconteceu na terça-feira (17/03). A demissão de Joseph Kent, 45 anos, que ocupava o cargo de diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo do governo Trump. Saiu atirando: ‘Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã. O Irã não representava nenhuma ameaça iminente a nossa nação, e é evidente que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby americano”. Acrescentou que no início do mandato de Trump altos funcionários do governo israelense e a mídia americana lançaram uma campanha para desmoralizar a principal bandeira do presidente, o ‘América em primeiro lugar’, e preparar o campo para a invasão do Irã”.

Para finalizar a nossa conversa. Israel tinha o direito de revidar os ataques do Hamas. A pergunta que ficou e ainda não foi respondida é: por que Israel, tendo um dos serviços de inteligência mais bem equipados, organizados e competentes do mundo, permitiu que os ataques acontecessem? Uma das respostas é que eles foram organizados pela inteligência do Irã. Mesmo assim, a lógica é que fossem detectados pelos israelenses. Na terça-feira (7), eu era um dos estavam na frente da televisão catando notícias sobre o cumprimento da promessa de Trump. “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada”, havia anunciado horas antes o presidente americano. Minutos antes do fim do prazo dado ao Irã para reabrir o Estreito de Ormuz, ele desistiu do ataque porque houve o acordo de cessar-fogo. Trump é muito bom no uso das palavras, mas não é páreo para o primeiro-ministro de Israel, um político hábil nos assuntos internacionais. E não parece ter a habilidade dos aiatolás iranianos para usar as situações a seu favor.

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