
Na história política do Rio Grande do Sul há muito mais interesses comuns do que divergentes nos berços onde nasceram o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT). O PDT é herdeiro do antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), fundado em 1945 pelo ex-presidente da República Getúlio Vargas (1822 – 1954) e extinto em 1965 pelos militares que um ano antes deram o golpe de estado (1964 – 1985). A defesa da soberania nacional era a principal bandeira política dos trabalhistas. Lembrei-me da história da bandeira da soberania em junho de 2025, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos, aplicou um “tarifaço” aos produtos exportados por vários países para o mercado consumidor americano, em especial o Brasil, que recebeu a maior taxação, de 50%. Na ocasião, Trump colocou como condição para negociar a redução da tarifa a concessão de anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que era então acusado e posteriormente foi condenado a 27 anos de prisão por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado – matérias na internet. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, reagiu afirmando que “a soberania nacional é inegociável”. No fim, Trump e Lula acabaram se acertando.
Trump segue agindo como se tivesse sido eleito presidente do mundo e não apenas dos Estados Unidos, envolvendo-se em atritos com vários países, inclusive aliados. Atualmente, alinhado ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, 76 anos, trava uma guerra contra o Irã que, entre outras consequências, provocou o aumento dos preços dos combustíveis ao redor do planeta. Lula concorre à reeleição e uma das suas bandeiras de campanha é a soberania nacional. O seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL – RS), 44 anos, filho do ex-presidente, e a sua família seguem alinhadas aos interesses econômicos e políticos americanos – há matérias nos jornais. Esse é o quadro. Frente a essa realidade, não fiquei surpreso quando Lula e a direção nacional do PT pediram que o ex-deputado Edegar Pretto (PT), 54 anos, desistisse da sua candidatura a governador e apoiasse a ex-deputada Juliana Brizola, do PDT. Ela é neta do ex-governador gaúcho Leonel Brizola (1922 – 2004). Na década de 50 e 60, Brizola foi um dos ícones da defesa dos interesses nacionais e da democracia. Em 1961, Brizola entrincheirou-se no Palácio Piratina, sede do governo gaúcho, e dali organizou e liderou a Campanha da Legalidade, um movimento civil e militar que exigiu a posse do vice-presidente João Goulart (1919 – 1976), o Jango, gaúcho de São Borja, após a renúncia do então presidente Jânio Quadros (1917 – 1992), em 25 de agosto, apenas sete meses depois de assumir, alegando que “forças terríveis” o impediam de governar. Militares golpistas aliados com a extrema direita não aceitavam a posse do vice. A Legalidade venceu e Jango assumiu o governo. As raízes do trabalhismo são muito profundas no Rio Grande do Sul e no que eu chamo de “Brasil de Bombachas”, as fronteiras agrícolas povoadas por agricultores gaúchos e seus descendentes, que se estendem do oeste de Santa Catarina até os estados do Centro-Oeste. São como brasas adormecidas cobertas pelas cinzas. Se forem assopradas, elas se acendem. Essa é a aposta de Lula em Juliana Brizola. Munição não falta. As loucuras de Trump causaram desemprego nas indústrias de calçados do Vale dos Sinos (Novo Hamburgo e arredores) e na moveleira (Bento Gonçalves e redondezas). Nas mais recentes pesquisas, Juliana obteve 21% das intenções de votos contra 24% do seu principal opositor, o deputado Luciano Zucco (PL – RS), 52 anos.
Claro! Lula conta com o trabalho de Pretto para eleger Juliana. Não vou entrar na discussão diária dessa história por entender que é assunto para os noticiários do dia a dia. Estou remexendo o caso e apontando coisas que considero que precisamos ficarmos atentos. Conheci Pretto no início da década de 80. Tenho acompanhado a sua carreira política. É uma pessoa que joga para o time. Conheci e entrevistei muitas vezes o pai dele, Adão Pretto (1945 – 2009), um gaiteiro de “mão cheia”. Na época, era presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Miraguaí, pequena cidade agrícola no norte gaúcho. Em 1980, filiou-se ao PDT e posteriormente, em 1985, migrou para o PT, elegendo-se deputado estadual e federal. Escutei muito a gaita do Adão nos acampamentos de sem-terra. Foi em um desses acampamentos, na Fazenda Annoni, uma gleba de 9 mil hectares à beira da estrada que liga Passo Fundo a Ronda Alta, ocupada em 1986 por 1,5 mil famílias de sem-terra, que ouvi, em uma noite fria, ao redor do fogo de chão, a história de um tal João Machado dos Santos (1924 – 2010), o João Sem Terra, um intrépido líder camponês da época do Brizola. Ele pertencia ao Movimento dos Agricultores Sem Terra (Master), organização fundada em 1960 em Encruzilhada do Sul, cidade na Serra do Sudeste, onde a água congela no inverno. Logo após o golpe militar, em 1964, o Master foi colocado na clandestinidade pela ditadura e João Sem Terra foi preso e torturado muitas vezes. Desapareceu e a família o julgou morto. Nos anos 80, surgiu o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que substituiu o Master. Contei a história no livro A Saga do João Sem Terra, publicado em 1989 pela Editora Vozes. Tempos depois da publicação do livro recebi uma ligação de uma pessoa que se identificou como João Sem Terra. Desliguei o telefone pensando se tratar de um trote. Não era. Ele vivia no interior de Goiás usando outro nome e tinha receio de ser preso pelos militares caso fosse descoberto. Custou a acreditar que o regime militar tinha terminado. Voltou para a sua família.
A candidatura de Juliana Brizola e Edegar Pretto tem uma longa e difícil estrada a percorrer. Quem vencer a eleição, vai ser no detalhe. Zucco montou uma boa estrutura no interior do Estado e na Região Metropolitana de Porto Alegre. Os candidatos vão contar uma história para os eleitores. A melhor delas vai eleger o futuro governador do Rio Grande do Sul.