Essa é a Copa do Mundo dos “jogadores com o coração no bico da chuteira”

Nesse torneio não tem jogo fácil Foto: EBC

A quarta-feira (1º) foi mais um dia frio em Porto Alegre, a marca do inverno gaúcho. Criei coragem e sai de perto do fogão a lenha, onde me aquecia com o calor da queima das toras, para buscar no supermercado víveres e vinho. Entrei no carro, liguei motor e o rádio começou a funcionar. Estava sendo transmitido o jogo Inglaterra e República Democrática do Congo (RDC), pela Copa da Fifa 2026. O ganhador passaria para a fase de oitavas de final e o perdedor voltaria para casa. Até então, não estava acompanhando a partida, mas zapeando pelos noticiários das TVs a cabo em busca de informações sobre o caso da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, 44 anos, “lavando roupa suja” em público com um dos seus quatro enteados, o senador Flávio Bolsonaro, (PL-RJ), 45 anos, principal adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que busca a reeleição. A “roupa suja” a que me refiro é um vídeo altamente profissional de 26 minutos publicado por Michelle, em que afirma que Flávio a tem tratado de maneira humilhante – há fartura de material disponível sobre o caso na internet.

Como estava acompanhando a história do vídeo, fui surpreendido ao ouvir o locutor anunciar o final do primeiro tempo e o resultado parcial da partida: a Seleção do Congo estava ganhando por 1 a 0. Comentei comigo mesmo, em tom de brincadeira: “Alguém tem que avisar o técnico do Congo (o francês Sébastien Desabre, 49 anos) que foram os ingleses que inventaram as regras do futebol, em 1863”. Nos primeiros minutos do jogo, Brian Cipenga, 28 anos, havia marcado para o Congo e o depois o goleiro Lionel Mpasi, 31 anos, simplesmente “fechou a gol” com defesas espetaculares. Desci do carro no supermercado e pelos corredores notei as pessoas falando sobre a partida. Na fila do pão, um senhor, a quem não conhecia, começou a comentar sobre o jogo comigo. Disse estar encantado com o time do Congo, especialmente com as defesas do goleiro. Falei que a Inglaterra não era mais um time invencível. Os congoleses controlaram a partida até os 30 minutos do segundo tempo. Tudo mudou quando o técnico da Inglaterra, o alemão Thomas Tuchel, 52 anos, mexeu no time e na estratégia de jogo, o que resultou em dois gols ingleses, ambos marcados pelo atacante Harry Kane, 32 anos. O Congo não consegui reagir e perdeu por 2 a 1. Voltou para casa, enquanto a Inglaterra enfrentará o México no próximo domingo (5), na Cidade do México, pelas oitavas de final. Não se repetiu o caso da Alemanha, que na segunda-feira (29) perdeu nos pênaltis (4 a 3) para o Paraguai e foi eliminada. Eufórico com a vitória, o presidente paraguaio, Santiago Peña, 47 anos, declarou feriado nacional. Na quarta-feira (1º) também aconteceu o jogo entre Bélgica e Senegal. Até os 41 minutos do segundo tempo Senegal vencia com folga por 2 a 0. Então, em apenas dois minutos, os belgas empataram e levaram a decisão para a prorrogação de 30 minutos. Há cinco minutos do final, o árbitro de vídeo (VAR) recomendou ao juiz da partida a checagem de um possível pênalti contra Senegal. Após sete minutos de análise do lance, o pênalti foi assinalado e a Bélgica converteu e ganhou por 3 a 2. Senegal voltou para casa e os belgas seguem no torneio, enfrentando, na segunda-feira (6), o anfitrião Estados Unidos. Os detalhes dos outros jogos da fase de dezesseis avos estão à disposição na ampla e variada cobertura online que a imprensa está fazendo.

Citei as partidas Congo versus Inglaterra e Bélgica contra Senegal para trazer à nossa conversa algumas questões que estão acontecendo na Copa da Fifa 2026 que merecem ser melhor explicadas aos leitores. A simpatia dos torcedores pelas seleções de países sem tradição no futebol não é de hoje. Sempre existiu. O que está acontecendo atualmente é que essa simpatia está se manifestando com maior intensidade. Por quê? Há muitos motivos que explicam esse comportamento. Um deles, o mais citado, afirma que se trata da tradicional torcida pela “zebra”, pelo mais fraco. Não concordo com esse motivo. Estou acompanhando os jogos e lendo tudo que tem sido publicado sobre a Copa. O diferencial desse torneio para os outros é a dedicação dos atletas de todas as seleções na disputa pela bola. O que acontecendo é aquilo que os antigos locutores esportivos gritavam no microfone durante a narração das partidas: “Os jogadores colocaram o coração no bico da chuteira”. Essa história começou com a Seleção de Cabo Verde, um país que fica em um arquipélago vulcânico nas proximidades da costa noroeste da África. Com 550 mil habitantes, sua população equivale à de um bairro da cidade de São Paulo. Graças às defesas fantásticas feitas pelo seu goleiro, Josimar Dias, 40 anos, conhecido como Vozinha, por ter sido criado pela avó, Cabo Verde empatou em 0 a 0 contra a poderosa Espanha (campeã em 2010) e depois em 2 a 2 com o Uruguai (bicampeão em 1930 e 1950). E com mais um empate (0 a 0 contra a Arábia Saudita) se classificou para o mata-mata na sua Copa de estreia e transformou Vozinha numa celebridade planetária. Seu número de seguidores no Instagram pulou de 50 mil, antes da Copa, para 18 milhões e continua crescendo. Também cito a Seleção do Haiti, um país com 11 milhões de habitantes no Caribe, dominado por organizações criminosas armadas até os dentes e cheio de problemas sociais. Haiti perdeu as suas três partidas, inclusive para o Brasil, mas os jogadores haitianos tiveram a sua dedicação reconhecida e respeitada pelos adversários e pelos torcedores. Na quinta-feira (2), a Espanha, aquela que empatou com Cabo Verde, venceu a Áustria por 3 a 0. O jogo foi um espetáculo de como se joga futebol. A Áustria volta para casa e os espanhóis seguem sendo apontados como um dos favoritos para ganhar o Mundial. Na segunda-feira (22), quando jogaram Noruega e Costa do Marfim, partida que definiu o adversário do Brasil nas oitavas de final, eu torci para os noruegueses (que venceram por 2 a 1). Porque eles nunca perderam para o Brasil. Portanto, são um desafio para a Canarinho. E o desafio é um poderoso combustível para a dedicação do atleta.

Para concluir a nossa conversa. Circulam nos noticiários todos os tipos de análises sobre o jogo decisivo do Brasil contra a Noruega, no domingo (5). Como já disse e vou repetir, sou um velho repórter estradeiro com 50 anos de lida, especializado em conflitos agrários, migrações e crime organizado nas fronteiras. Não entendo patavinas de futebol. Mas entendo de jornalismo e de estratégias. Gosto da dedicação dos jogadores brasileiros e das estratégias do técnico, o italiano Carlo Ancelotti, 67 anos. Era contra a sua contratação. Mas, como disse, não sei nada de futebol. Só sei que, seja qual for o resultado de Brasil e Noruega, em 2030 tem Copa do Mundo de novo.

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