
Não vai deter de imediato o avanço dos criminosos o programa Brasil Contra o Crime Organizado, lançado na terça-feira (12) pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos. Mas dá alguns passos importantíssimos na direção da solução do problema. Vamos conversar sobre o assunto. Em primeiro lugar, faz parte do jogo político o programa ter sido lançado no calor da disputa eleitoral. Lula concorre à reeleição em outubro, tendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44 anos, como principal adversário, conforme as pesquisas de intenção de voto. Flávio substitui o seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que está cumprindo uma pena de 27 anos de prisão por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado – matérias na internet. Lembro que, na última década, esse é o décimo plano de segurança pública lançado pelo governo. Esses programas têm lá os seus defeitos, que não são poucos. Mas a simples existência deles é uma demonstração de que existe a preocupação com o problema e é procurada uma solução. Através dos anos, as pesquisas mostram que a segurança pública tem sido a principal preocupação dos brasileiros. Organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, associadas a outras dezenas de pequenas e médias quadrilhas espalhadas pelo intenso território brasileiro, atingiram um grau inédito de capilaridade. Os especialistas em segurança pública recomendam que a solução é a união e a sincronia de trabalho entre os governos federal, estaduais e municipais. É justamente para esse o lado que aponta o programa de Lula contra o crime organizado.
Nos dias atuais, os principais inimigos da união entre os governos não são os pistoleiros do PCC ou das quadrilhas regionais associadas. Atualmente, o pior inimigo é a disputa política, acirrada pelo empate nas pesquisas eleitorais entre Lula e Flávio. As eleições acabam no segundo turno, em 25 de outubro, um domingo. E seja lá quem for eleito, PCC, CV e seus aliados estarão lá, tocando os seus negócios. E também, se tudo der certo, estará lá sendo executado o programa Brasil Contra o Crime Organizado. É previsto um investimento de R$ 11 bilhões, sendo R$ 1 bilhão do Orçamento da União e R$ 10 bilhões via empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A previsão é que esse dinheiro seja usado para a asfixia financeira das organizações criminosas, o fortalecimento da segurança do sistema prisional, a qualificação da investigação policial, o esclarecimento de homicídios e o combate ao tráfico de armas. O destino e os resultados do plano contra o crime organizado saberemos depois das eleições. Não vou especular sobre o assunto. Seria tolice da minha parte. Vou aproveitar a oportunidade para lembrar de um problema que tem sido ignorado pelos analistas de segurança pública, que é a herança deixada nas polícias civil e militar pela ditadura militar (1964 – 1985). Na época, as forças policiais brasileiras foram usadas como “puxadinhos” pelos órgãos da repressão, que torturaram, mataram e deram sumiço em dezenas de presos políticos. A convivência entre os policiais e os agentes da repressão durou muitos anos, mesmo depois da redemocratização do país, que teve o seu marco inicial com a publicação, em 1989, da atual Constituição. Nos anos iniciais da década de 90 ainda havia policiais que usavam o seu tempo para investigar políticos de esquerda, deixando de lado o trabalho da delegacia. Na época, o jurista, promotor e então deputado federal do PT de São Paulo Hélio Bicudo (1922 – 2015) defendia a desmilitarização das polícias militares e a unificação com a civil. Também defendia o fortalecimento das técnicas de investigação. As sugestões de Bicudo não saíram do papel. Vale a pergunta. Atualmente, como estão funcionando as academias dos policiais civis e militares? São raras as vezes que encontramos nos jornais reportagens sobre o assunto, que é da maior relevância. Outro problema. Nas eleições de 2022 foram eleitos 57 deputados estaduais, 44 federais e dois senadores ligados às forças de segurança. Lembro que, na época, houve o início de uma conversa sobre alterar as regras que regulamentam a participação do pessoal da área da segurança na política. A conversa não prosperou?
Há mais um assunto que a imprensa vem deixando passar e que merece atenção. Temos pouco material publicado sobre a hierarquia interna dos integrantes das organizações criminosas. Como são divididos os bilhões faturados pelo PCC entre os seus integrantes. Pelas escassas informações que temos, as chefias ficam com a parte do leão e as migalhas são repartidas entre os pistoleiros. O modelo que as organizações criminosas usaram para se estruturar foram os banqueiros do jogo do bicho. Eles dividiam as cidades por territórios. Os invasores desses territórios eram mortos. Corrompiam policiais e outras autoridades. Fiz muitas matérias sobre o assunto. Entrevistei jovens policiais que relataram terem sido colocados diante de duas opções quando iniciaram suas carreiras: ou aderir à proteção aos bicheiros ou se transferir para outra delegacia. Na quinta-feira (14), a Polícia Federal (PF) cumpriu a sexta fase da Operação Compliance Zero e encontrou conexões entre a fraude do Banco Master e os bicheiros do Rio de Janeiro – matérias na internet. Mais uma lembrança. Na década de 90, a maioria dos grandes jornais tinha na redação repórteres que entendiam dos assuntos policiais. Esses profissionais faziam circular um volume enorme de informações, especialmente sobre quem era quem no mundo do crime. Os grandes jornais optaram por transferir a cobertura policial para publicações especializadas. A decisão deixou a área de segurança pública abandonada à própria sorte. Nos dias atuais, os grandes líderes do crime organizado são ilustres desconhecidos. Os que conhecemos são os líderes espalhafatosos. Olha, não saber quem é quem é uma tragédia para o repórter.
Para fechar a nossa conversa. Os meios de comunicação precisam fazer a sua parte nessa história, que é produzir informações que ajudem os leitores a saber exatamente qual é o tamanho e o perfil do problema da segurança pública no Brasil. Começando por mostrar quem são os novos líderes do crime organizado. Até agora, a imprensa ainda não esclareceu se o ex-dono do Banco Master, Daniel Voncaro, 42 anos, é mesmo o chefe do esquema que deu um prejuízo de R$ 50 bilhões nos clientes e no sistema bancário nacional. Ou se tem alguém acima dele. Acrescento que o desconhecimento sobre os novos chefões do crime organizado favorece o avanço das organizações criminosas.