Centrão e “bolsonaristas raiz” disputam espaço na chapa de Flávio

Quem irá administrar as disputas entre os apoiadores de Bolsonaro? Foto: Reprodução

Há uma história que a imprensa precisa explicar melhor para os seus leitores. Em 2018, a eleição de Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, para a Presidência da República deu visibilidade para um grupo de pessoas que, entre outros valores, defendiam os militares que se envolveram no golpe de estado de 1964, elaboravam teses de conspiração e eram contra as vacinas. A imprensa os apelidou de “bolsonaristas raiz”. Eles representaram uma fatia importante dos votos que elegeram Bolsonaro. O ex-presidente hoje cumpre pena 27 anos de prisão por ter encabeçado uma organização que tentou dar um golpe de estado – matérias na internet. Impedido de concorrer, indicou seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44 anos, para substituí-lo na corrida eleitoral, enfrentando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que tentará a reeleição. Flávio adotou a estratégia de ser um “Bolsonaro bonzinho, respeitador das instituições e das vacinas”, seguindo as orientações dos senadores e deputados do Centrão, o bloco de partidos que atuam no Congresso e é conhecido pelo seu pragmatismo e por sempre participar do governo, independentemente de quem está sentado na cadeira de presidente da República. Durante o governo Bolsonaro (2019 – 2022), o Centrão e os ”bolsonaristas raiz” competiram por cargos e pela atenção do presidente. A disputa foi ressuscitada pela consolidação da candidatura de Flávio, que atualmente está empatado com Lula nas pesquisas de intenção de voto. Vamos falar sobre o assunto.

A estratégia do “Bolsonaro bonzinho” de Flávio abriu um flanco para que outros candidatos, como o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), 61 anos, tentem atrair o voto dos “bolsonaristas raiz”. Zema está fazendo uma campanha agressiva, atacando o sistema político-econômico e os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), a quem chama de “intocáveis”. Se o ex-governador vai tirar votos de Flávio, o tempo dirá. O fato é que está tentando. Essa situação está preocupando outro filho do ex-presidente, o ex-deputado federal por São Paulo Eduardo Bolsonaro, 41 anos. Ele tem advertido o irmão Flávio que é necessário se manter fiel às ideias do pai para não perder o voto dos “bolsonaristas raiz”, que considera importante em uma eleição polarizada como a atual, em que cada voto conta. Eduardo autoexilou-se nos Estados Unidos e foi o responsável pela indicação do seu irmão para substituir o pai nas eleições. Usou como argumento o fato de que o prestígio político do ex-presidente é um patrimônio da família. Até a indicação de Flávio, o favorito para ser o candidato do bolsonarismo à Presidência da República era um nome apoiado pelo Centrão, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), 50 anos, ex-ministro e afilhado político do ex-presidente. Tarcísio vai concorrer à reeleição para o governo paulista. Para contextualizar o leitor, vamos lembrar como começou a rixa entre os “bolsonaristas raiz” e o Centrão. No início da sua campanha a presidente em 2018 eram escassas as possibilidades da eleição de Bolsonaro. Houve então um desentendimento entre o Centrão e o general reformado Augusto Heleno, 78 anos, que era um dos pilares da campanha de Bolsonaro. Disse o general, em um discurso: “Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”, fazendo uma adaptação do sucesso dos anos 80 do grupo Exporta Samba: “Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”. Por um somatório de motivos, todos disponíveis na internet, Bolsonaro ganhou a eleição. E assumiu o governo apostando que não precisaria dos votos do Centrão para aprovar os seus projetos no Congresso. Conseguiria apoio dos parlamentares das 46 comissões temáticas, como a ruralista (30 na Câmara dos Deputados e 16 no Senado). A estratégia não funcionou. Aliado a esse fato, no meio do mandato do ex-presidente mais de 190 pedidos do seu impeachment haviam sido protocolados na Câmara. Pressionado pela situação, o ex-presidente abriu o governo para a participação do Centrão.

Os políticos do Centrão logo ocuparam os principais cargos. E empurram os “bolsonaristas raiz”, a quem apelidaram de “ideológicos”, para a periferia do governo. Terminada a contextualização, vamos avançar na nossa conversa. Havia outra bronca no governo Bolsonaro. Um grupo de grande empresários e militares (ativa, reserva e reformados) apostou que conseguiria transformar o presidente em uma espécie de “rainha da Inglaterra”, uma figura decorativa. Eles tentaram, mas se deram mal e foram todos demitidos e humilhados pelo ex-presidente. Só para se ter uma ideia, Bolsonaro demitiu mais de 10 generais. Transformou o seu governo em uma montanha-russa de emoções. Todos os dias tinha uma novidade que virava manchete. Uma parte dessa história é contada nas 1,3 mil páginas do relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado sobre a Covid-19, a CPI da Covid. Os senadores encontraram as digitais do governo federal nas mortes causadas pelo vírus. Bolsonaro concorreu à reeleição e foi derrotado por Lula. E se abraçou com os “bolsonaristas raiz”. E deu no deu. Claro, durante a campanha eleitoral a trajetória do ex-presidente será explorada. Há imagens, documentos, processos e sentenças que contam essa história. Ao aderir à estratégia do “Bolsonaro bonzinho”, Flávio quer ficar longe dessa encrenca. Conseguirá? Os experientes políticos do Centrão acreditam que conseguiram se descolar desses episódios. Fica a pergunta: o que eles farão com os “bolsonaristas raiz”? São muitos para esconder embaixo do tapete.

Tenho escrito que Bolsonaro não é um gênio da política. Muito pelo contrário, tem uma carreira discreta de três décadas no chamado “baixo clero” da Câmara dos Deputados, como são conhecidos os parlamentares que não se destacam pelos seus projetos. Mas o ex-presidente é um hábil sobrevivente na disputa política. Consegue se antecipar aos lances dos seus adversários. Até agora, a parceria dele com o filho Eduardo, nos Estados Unidos, conseguiu manter o seu prestígio político com a família. À sua maneira, Bolsonaro sempre soube administrar os conflitos entre os seus aliados. E não foram poucos.

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