
Qual é a diferença entre a cobertura que a imprensa fazia das eleições no tempo das barulhentas máquinas de escrever, a era analógica do jornal de papel, e a dos dias atuais, a era do jornal digital, em que as matérias são escritas em terminais silenciosos conectados à internet e dotados de inteligência artificial (IA)? Separando essas duas eras existe uma infinidade de diferenças técnicas. Mas os pilares do jornalismo continuam sendo os mesmos. Por 2026 ser um ano de eleições, com destaque para a presidencial, vamos falar sobre o assunto.
Vou tratar do assunto com base no meu testemunho. Trabalhei em redação de 1979 a 2014. Portanto, cobri campanhas eleitorais tanta na era analógica e quanto na digital. Atualmente, sigo na lide de repórter, andando pelas estradas em busca de histórias para contar. E para encontrar boas história é preciso estar 24 horas por dia atento, ou “com as antenas ligadas”, como se dizia nas mesas de jornalistas nos botecos na década de 70. As redações dos grandes jornais da era analógica usavam a tecnologia de ponta da época. Lembro-me que no final da década de 80 houve uma tentativa de trocar as máquinas de escrever manuais, que era mais esmurradas pelos repórteres do que o rosto de um boxeador, por elétricas. Não deu certo por vários motivos, um deles porque era um equipamento que exigia mais cuidados no manuseio. Na máquina manual, não apenas se espancava as teclas com energia, mas também se podia, por exemplo, colocá-la “em pé” (virada na vertical) para fazer espaço na mesa ou prender o cigarro acesso entre as teclas para arrumar o texto com uma caneta diretamente na lauda, entre outras praticidades. O problema era acompanhar os candidatos nas viagens de campanha. Nos hotéis, geralmente era preciso “bater” a matéria à noite, muitas vezes de madrugada. E o barulho das teclas acordava e irritava os hóspedes. Desenvolvi uma técnica para abafar o som do teclado. Colocava a máquina em cima de travesseiros, o que diminuía o ruído. Na era analógica, as matérias traziam mais conteúdos de bastidores do que nos dias atuais. Por quê? Em primeiro lugar, os jornais tinham dinheiro para custear as viagens dos repórteres em busca dos bastidores das notícias. O bastidor sempre dá um molho especial à reportagem. Mais ainda: havia muitos repórteres nas redações. O que tornava a carga de trabalho menor e dava mais tempo para a apuração das informações. Dentro dessa realidade, os colunistas políticos da época tinham tempo para “tomar um cafezinho” com as fontes e esmiuçar as entranhas dos acontecimentos. A cobertura das eleições na era analógica também oferecia ao jornalista a oportunidade de mostrar aos moradores das grandes cidades como era a vida das pessoas nos longínquos sertões do Brasil. Na era das redações digitais, o dinheiro é escasso para custear as despesas da apuração das matérias. E o contingente de repórteres é reduzido e insuficiente para dar conta de uma carga de trabalho imensa, que consiste em abastecer com textos, imagens e áudios as diversas plataformas de comunicação da empresa. E o salário da categoria é um dos menores da história.
Nos dias atuais, as coberturas jornalísticas são praticamente online. A marca registrada do jornal digital é a grande quantidade de equipamentos de última geração à disposição dos repórteres, o que facilitam o acesso instantâneo às fontes ao redor do mundo. Outra marca registrada são as pesquisas eleitorais, que são detalhadas e com um grau razoável de precisão. A leitura da pesquisa oferece informações preciosas que ajudam o repórter a entender a arquitetura dos acontecimentos. Aqui quero chamar a atenção para o seguinte. A rearticulação da extrema direita ao redor do mundo vem mudando o perfil da disputa política. Para entendermos como essas mudanças vêm acontecendo é necessário o trabalho de campo. A velha e eficiente “investigação jornalística”, que exige o cruzamento de informações, a exaustiva checagem dos fatos e muita sola de sapato gasta na busca de respostas. Esse tipo de apuração custa caro e exige um contingente respeitável de repórteres. Como faltam recursos para esse trabalho, as redações estão expostas às “fábricas de fake news”, que são articuladas, ágeis e muito eficientes na distribuição de mentiras. Claro que a escassez de recursos também prejudica o trabalho dos comentaristas políticos. Afirmo o seguinte: tendo em vista o atual quadro de carência de pessoal nas redações, tem crescido a participação de matérias fornecidas pelas assessorias de imprensa. Evidentemente, a assessoria de imprensa dá a versão dos fatos do seu cliente. Há uma enormidade de pesquisas mostrando que o público vem migrando na busca de informações dos jornais para as redes sociais. Tenho dito nas palestras que faço para estudantes de jornalismo e outros públicos que não sou defensor do “apocalipse do jornalismo”. Acredito que encontraremos uma maneira de continuarmos relevantes para os nossos leitores. Lembro que durante o regime militar (1964 – 1985) a censura à imprensa foi brutal. E os jornalistas se organizaram e montaram a “imprensa alternativa”, que publicou jornais como o Pasquim (Rio de Janeiro) e o Coojornal (Porto Alegre), além de livros e revistas. Na época, fazer um jornal custava uma fortuna porque tinta, papel e óleo diesel usado pelos caminhões na distribuição da publicação eram importados. Atualmente, os custos são infinitamente menores. Não são mais necessários prédio, máquinas e veículos, por exemplo. O que falta? Falta nós repórteres nos darmos conta da difícil realidade que estamos enfrentando. E começarmos a reagir. Já existem muitos blogs, jornais digitais e programas de rádio e TV funcionando com sucesso. É um bom começo.
Para arrematar a nossa conversa. Para sobrevivermos aos novos tempos é necessário fazer uma revisão no currículo das faculdades de jornalismo. Não sou especialista no assunto. Mas precisamos aprender a administrar os nossos negócios. Hoje, tal conhecimento é indispensável. Também precisamos intensificar as conversas entre nós sobre a realidade que nos cerca. Como mostra o Ranking Mundial da Imprensa, disponibilizado na internet pela organização Repórteres Sem Fronteira, as coisas estão mais complicadas do que pensamos.