
Usando uma expressão popular. É do jogo da disputa política a “bola nas costas” que o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, levou do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), 42 anos, apontado como responsável pela articulação que derrotou, na quarta-feira (29), no Plenário do Senado, por 42 votos a 34 e uma abstenção, a indicação do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, 53 anos, para o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). É a primeira vez desde 1894 que os senadores rejeitam uma indicação do presidente da República para o STF. No dia seguinte, quinta-feira (30), Lula foi derrotado pela segunda vez quando o Congresso (Senado, por 49 votos a 24, e Câmara, por 318 a 144) derrubou o seu veto ao Projeto de Lei da Dosimetria (PL 2162/23), que diminui as penas dos envolvidos na tentativa de golpe de estado que se iniciou no final de 2022 e teve o seu apogeu em 8 de janeiro de 2023. Na ocasião, bolsonaristas que estavam acampados na frente de unidades militares quebraram tudo que encontraram no Palácio do Planalto, no STF e no Congresso, em Brasília (DF). Mais de 1,5 mil pessoas envolvidas na tentativa de golpe foram julgadas e condenadas pela Primeira Turma do STF. Os principais beneficiados com a dosimetria são o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que cumpre pena de 27 anos por vários crimes, entre eles de ser o líder da organização criminosa que tentou dar o golpe de estado, e 37 dos seus ex-ministros e funcionários de alto escalão que estão presos.
A derrubada dos vetos de Lula já estava prevista. Ganhou uma imensa repercussão por ter sido a segunda derrota do presidente em 24 horas. Lembro-me que chamou a minha atenção quando Alcolumbre marcou a votação da sabatina de Messias para 29 de abril e a dos vetos à dosimetria para o dia seguinte. Falaremos sobre as datas mais adiante. Agora, vou advertir o seguinte. Não vou cansar a beleza do leitor especulando sobre o assunto. Como também não vou repetir os caminhos percorridos e as alianças feitas pelo presidente do Senado para derrubar a indicação de Messias e consagrar a sua vitória no caso da dosimetria. Toda essa história está sendo revelada online pela imprensa diária, que está fazendo uma cobertura bem completa. A todo instante os colegas jornalistas encontram uma novidade para contar. Como a foto publicada na capa dos grandes jornais mostrando Alcolumbre sentado na sua cadeira de presidente do Senado abraçando a cintura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44 anos. Filho mais velho do ex-presidente Bolsonaro, Flávio foi indicado pelo pai para disputar as eleições presidenciais de outubro. O caminho que resolvi percorrer para falar sobre as duas derrotas de Lula foi buscar detalhes que passaram despercebidos pelos atentos olhos dos envolvidos na cobertura jornalística. Detalhes que podem indicar que a “bola nas costas” que Alcolumbre deu em Lula pode se transformar num “tiro que saiu pela culatra” para os bolsonaristas. Comecemos pelo caso de Messias. Ele é evangélico da Igreja Batista e durante a sua apresentação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, onde foi aprovado por 16 votos a 11, falou várias vezes sobre a sua fé. E logo depois da derrota no Plenário ele disse: “É preciso aceitar o resultado. Não considero isso um fim. A vida é assim. Tem dias de vitórias e dias de derrota. Não é simples alguém da minha trajetória passar por algo assim”. Acrescentou um “bola pra frente” e agradeceu aos que oraram por ele. Havia muitos pastores e crentes no Senado assistindo à sabatina de Messias. Vou lembrar o seguinte. Em 2021, o então presidente Bolsonaro indicou para o STF um ministro a quem chamou de “terrivelmente evangélico”, André Mendonça, 53 anos, da Igreja Presbiteriana de Pinheiros. Alcolumbre também complicou a vida de Mendonça segurando a sua indicação por mais de 50 dias – matérias na internet. Talvez seja esse um dos motivos que levaram o ministro a se perfilar ao lado de Messias na luta pela sua indicação. Depois da derrota, ele publicou nas suas redes sociais: “Messias é um homem de caráter, íntegro e que preenche os requisitos constitucionais para ser Ministro do STF. E amigo verdadeiro não está presente nas festas; está presente nos momentos difíceis”. O detalhe aqui é palavra “festa”. Ela me lembrou que Mendonça é o relator, no STF, do escândalo do Banco Master. O banqueiro e dono do Master, Daniel Vorcaro, 42 anos, que cumpre prisão preventiva, deu um prejuízo de mais de R$ 50 bilhões nos seus clientes e no sistema bancário. O caso ainda está sendo investigado pela Polícia Federal (PF) e o que já se sabe é da participação de pessoas do “andar de cima” em festas, viagens em jatinhos, degustação de bebidas e charutos e outros eventos custeados pelo banqueiro – há uma fartura de reportagens na internet.
A pergunta aqui é a seguinte. O que nós jornalistas ainda não sabemos sobre o caso Master pode ter contribuído para a derrota de Messias, que se fosse aprovado seria um aliado de Mendonça no STF? Outro detalhe que me chamou a atenção aconteceu durante as comemorações dos bolsonaristas pela rejeição da indicação de Messias. O senador Flávio e o seu círculo pessoal de parlamentares fizeram questão de sublinhar que não tinham nada contra Messias. E que ele havia sido derrubado por ser “amigo do Lula”. Essa preocupação tem a ver com as eleições presidenciais de 2022, quando Bolsonaro recebeu 51% dos votos dos evangélicos e Lula, 27%. Lembro que os pastores evangélicos são uma peça importante no bolsonarismo. Como vão explicar para os seus crentes que Messias, um evangélico, respeitado e defendido pelo ministro Mendonça, foi humilhado pelos parlamentares bolsonaristas? Ele não é “desviado”, é um praticante e um ativo membro da comunidade evangélica. O senador Flávio sabe que na campanha eleitoral será cobrado e terá que dar explicações para os evangélicos. É uma eleição polarizada, há empate técnico nas pesquisas entre Lula, que concorre à reeleição, e Flávio. Portanto, cada voto conta. Voltando a nossa conversa sobre o motivo pelo qual Alcolumbre marcou a votação do veto da dosimetria para o dia seguinte à sabatina de Messias. Foi só por questões de agenda? Temos que correr atrás dessa resposta. Há outro detalhe que merece ser esmiuçado no caso da dosimetria. Tecnicamente, ela não tem nada a ver com a anistia ampla, geral e irrestrita reivindicada pelos bolsonaristas. Trata da aplicação de penalidades. Mas no campo da disputa política a derrubada do veto é um importante passo para, caso Flávio seja eleito, encaminhar ao Congresso um projeto de anistia. E aqui eu lembro o seguinte. Segundo pesquisas, 54% da opinião pública é contra a anistia. No caso da dosimetria, os bolsonaristas vão ter que explicar para os eleitores que não são bolsonaristas raiz, que são os que decidirão a eleição, a derrubada dos vetos. Terão que convencê-los que a anistia não é apenas um degrau rumo à manutenção do ciclo de golpes de estado no Brasil. Lembro que o senador Flávio vem investindo pesado na venda da imagem de que é um “Bolsonaro respeitador das instituições e das vacinas”.
Colocando um ponto final na nossa conversa. Existem muitos pequenos detalhes nas falas dos entrevistados que merecem a nossa atenção. Tenho dito. As eleições presidenciais serão vencidas no detalhe. Ganhará quem contar uma história com início, meio e fim. Não é uma tarefa fácil. Porque será preciso explicar para o eleitor os acordos que foram costurados entre quatro paredes nos casos ruidosos como a rejeição de Messias e a derrubada dos vetos da dosimetria.