
A lida diária da reportagem nos ensina que na política nada é definitivo até que seja contado o último voto na urna. Portanto, é precipitado estimar o tamanho dos estragos, ou benefícios, que trarão para a candidatura a presidente da República do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, o seu envolvimento com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, 42 anos, que está preso preventivamente pelo escândalo do Banco Master, uma fraude financeira que causou um prejuízo de R$ 50 bilhões aos clientes e ao sistema bancário nacional. Flávio substitui, na corrida presidencial, o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que cumpre pena de 27 anos de cadeia por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado. A história vem sendo acompanhada online pelos noticiários diários da imprensa e não “vou chover no molhado”. Vamos conversar sobre o aprofundamento no racha político entre os seguidores do ex-presidente que poderá beneficiar a direita democrática, como foram apelidados pela imprensa os militantes e parlamentares que, por oportunismo, aderiram ao bolsonarismo e agora não conseguem sair de lá.
Mas antes vamos contextualizar a nossa conversa. Segundo matéria publicada no site The Intercept Brasil, bolsonaristas pediram para Vorcaro R$ 134 milhões para financiar, nos Estados Unidos, a produção do filme Dark Horse, o Azarão, que conta a trajetória política recente do ex-presidente Bolsonaro. Na ocasião, o então banqueiro teria dividido o montante em parcelas, cujo número é desconhecido. No primeiro semestre de 2025, ele depositou R$ 61 milhões e então interrompeu o pagamento. Vieram a público as gravações das conversas de Flávio cobrando as parcelas atrasadas – há uma abundância de matérias na internet. O valor da produção do filme foi considerado muito acima da realidade de mercado. A Polícia Federal (PF) segue as pegadas deixadas pelos R$ 61 milhões. A história envolve mais um dos filhos do ex-presidente, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), 41 anos, que se autoexilou nos Estados Unidos. Terminada a contextualização, vamos conversar. Antes das eleições presidenciais que elegeram Bolsonaro, em 2018, havia uma polarização política entre o PT e o PSDB, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Atualmente com 94 anos, FHC presidiu o país por dois mandatos (1995 a 2003). A direita democrática se abrigava no PSDB, no MDB e no Centrão, como é chamado o bloco de partidos que, independentemente de quem for o presidente da República, troca cargos e influência no governo por apoio no Congresso. Entre 2014 a 2021 o Brasil foi sacudido pela Operação Lava Jato, em que a Polícia Federal e Ministério Público Federal (MPF) revelaram um grande esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes. A história da Lava Jato é complexa e cheia de problemas amplamente documentados e disponíveis na internet, em filmes, livros, documentários e muitas reportagens. Nesse ambiente, nas eleições presidenciais de 2018 a candidatura de Bolsonaro, até então um discreto deputado federal pelo Rio de Janeiro, que parecia não ter a mínima chance, “ganhou tração” e ele se elegeu presidente do Brasil. Daí vem a inspiração para o nome do filme, Azarão. A direita democrática viu na situação uma chance de continuar relevante e aderiu de corpo e alma ao bolsonarismo. Quebrou a cara. O presidente eleito não era o “idiota” que todos pensavam. Muito pelo contrário. Enquadrou todos nas suas práticas políticas autoritárias e transformou a direita democrática em um “puxadinho” do bolsonarismo.
O auge do governo Bolsonaro foi em 2019. Na época, as lideranças políticas e os militantes da direita democrática eram simplesmente ignorados pelo círculo pessoal do presidente. Lembro-me de ter conversado longamente com alguns deles. A decadência do governo começou em 26 de fevereiro de 2020. Naquele dia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia de Covid-19, uma severa infecção respiratória, contagiosa e letal, causada por um vírus desconhecido, para a qual não havia remédios nem vacinas. O titular do Ministério da Saúde era o médico Luiz Henrique Mandetta, 61 anos, um político nascido no berço do PMDB. Bateu de frente com o presidente quando tentou seguir as orientações da OMS para o enfrentamento a doença. Bolsonaro era negacionista em relação à letalidade e o poder de contágio do vírus. Mandetta foi demitido em abril de 2020. Foi um período tenso no Brasil. A população vivia trancada dentro de casa, torcendo e rezando para não ser a próxima vítima do vírus. Lembro-me que Bolsonaro fazia tudo que estava ao seu alcance para boicotar as medidas de prevenção da OMS. A tensão passou quando foram desenvolvidos os tratamentos e as vacinas para a Covid. Toda a história é contada nas 1,6 mil páginas do relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado, a CPI da Covid, que atualmente está sendo analisado pela PF a pedido do ministro Flávio Dino, 58 anos, do Supremo Tribunal Federal (STF). Nas eleições presidenciais de 2022, a direita democrática tentou “vender” para a opinião pública a necessidade de uma terceira via para acabar com a polarização política entre Bolsonaro e Lula. Não teve sucesso. O primeiro turno para presidente foi disputado por 10 candidatos. Passaram para o segundo turno Bolsonaro e Lula, que ganhou as eleições. Em 2026, o representante da direita democrática era o governador gaúcho Eduardo Leite, 41 anos, que migrou do PSDB para o PSD para disputar com outros dois postulantes a indicação do partido para concorrer a presidente da República. Perdeu a indicação para o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, 76 anos, que até agora não decolou nas pesquisas. Aqui é o seguinte: o racha entre bolsonaristas começou quando o ex-presidente perdeu as eleições em 2022 e se abraçou com os chamados “bolsonaristas raiz”, um grupo de radicais da extrema direita. Esse grupo sempre cresce nos momentos de crise, como é o atual da candidatura de Flávio. Seu envolvimento com Vorcaro e o escândalo do Banco Master preocupa especialmente os parlamentares que em 2022 se elegeram na carona do prestígio de Bolsonaro e agora concorrem à reeleição. Eles já não contarão com a presença nos palanques do ex-presidente, que está preso. Para complicar, terão que explicar aos eleitores por que Flávio chama Vorcaro de “meu irmão”.
Para finalizar a nossa conversa. Até se tornar pública a história de Dark Horse, o Azarão, o filme de R$ 134 milhões que estava sendo financiado pelo ex-banqueiro Vorcaro, a candidatura do senador Flávio estava voando em “céu de brigadeiro”. Sequer informou aos eleitores o seu plano de governo. Só era conhecida a sua intenção de propor ao Congresso um projeto de anistia ampla, geral e irrestrita para o seu pai e os envolvidos na tentativa de golpe de estado. Perante os eleitores, a sua grande preocupação era fixar a imagem de que era um “Bolsonaro bonzinho, respeitador das instituições e incentivador das vacinas”. É um disfarce que o senador usa para atrair os votos dos eleitores de fora da bolha bolsonarista, que são os votos que vão eleger o próximo presidente? Qual o tamanho do rasgo que o rolo com Vorcaro provocou no disfarce?