
Não vi números de nenhuma pesquisa de opinião. Mas sei que por uma longa lista de variados motivos um grande número de brasileiros era contra a convocação, pelo técnico da Seleção, o italiano Carlos Ancelotti, 66 anos, do atacante Neymar Jr., 34 anos, para fazer parte do grupo de 26 jogadores que irão à Copa do Mundo da Fifa. O torneio acontecerá de 11 de junho a 19 de julho, reunirá, pela primeira vez, 48 seleções, e também de forma inédita terá jogos em três países: Estados Unidos, Canadá e México. O anúncio dos convocados de Ancelotti aconteceu no final da tarde de segunda-feira (12), no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Eu estava entre os que não acreditavam na convocação de Neymar. Mas não tinha notado que, no domingo (11), “os astros se alinharam” em favor do craque, como se dizia nos tempos das barulhentas máquinas de escrever nas redações quando uma sequência de eventos aconteciam favoravelmente a uma pessoa ou em direção a um determinado desfecho para uma situação. Aconteceu um negócio estranho no domingo, na partida entre o time do Neymar, o Santos, e o Coritiba, pelo Campeonato Brasileiro. Aos 19 minutos dos segundo tempo, um dos juízes cometeu um engano e retirou Neymar de campo, que foi substituído por Robinho Jr. Neymar reclamou, gritou, esperneou. E ganhou uma tremenda visibilidade pública nos noticiários nacionais e internacionais justamente na véspera da convocação. Sobre o caso há matérias na internet e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) está investigando o que aconteceu.
Só para constar, o Santos perdeu por 3 a 0. Claro que Neymar aproveitou o equívoco do árbitro para lembrar Ancelotti de convocá-lo. Aliás, nos últimos meses, sempre que teve uma oportunidade, ele lembrou o técnico da Seleção que estava à disposição. O auge da pressão a favor de Neymar aconteceu na segunda-feira, horas antes da leitura da lista dos selecionados. Fãs do jogador fizeram manifestações na frente do Museu do Amanhã, pedindo, com cartazes, a sua convocação. Neymar acabou sendo relacionado. Perguntado pelos jornalistas se ele iria jogar ou ficar no banco, Ancelotti disse que dependeria dos treinos. Aqui é o seguinte: a Seleção Brasileira passará a ocupar cada vez mais os espaços das manchetes de jornais, rádios, TVs e boa parte das redes sociais, empurrando para o canto o noticiário sobre as eleições de outubro, principalmente a disputa pela Presidência da República, em que há uma polarização entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que concorre à reeleição. Flávio substitui o seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que está cumprindo uma sentença de 27 anos de prisão por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado – matérias na internet. Até a semana passada, a candidatura de Flávio andava de “vento em popa”. As coisas mudaram. Segundo matéria publicada no site The Intercept Brasil, o senador ligou para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, 42 anos, do Banco Master, cobrando parcelas atrasadas de uma doação de R$ 134 milhões que ele faria para a produção do filme Dark Horse, o Azarão, que conta a trajetória política recente do ex-presidente Bolsonaro. Vorcaro está preso preventivamente por ser o autor de uma fraude financeira que deu um prejuízo de R$ 50 bilhões a seus clientes e ao sistema bancário nacional. Ele teria repassado apenas R$ 61 milhões para o filme – há muitas matérias disponíveis na internet. A cada dia surge um fato novo comprometendo o senador, como a revelação, pelo portal Metrópole, de sua visita a Vorcaro quando este já cumpria prisão domiciliar. Não é exagero afirmar que a candidatura de Flávio está em sérios apuros. Ou seja, os bolsonaristas estão torcendo para que as manchetes do caso Master sejam substituídas pelos jogos da Copa do Mundo.
A história tem ensinado a nós jornalistas o seguinte. Caso a Seleção tenha sucesso nos seus jogos, o interesse do público crescerá enormemente a cada partida. Até chegar ao ponto em que a maioria da população não se interessará por mais nada que não seja futebol. Portanto, os assuntos relacionados com a disputa eleitoral só voltarão aos espaços nobres dos noticiários na segunda quinzena de julho, quando terminar a Copa. Agora, caso o time fracasse, os brasileiros se desinteressarão pelo Mundial e as eleições voltarão mais cedo para as manchetes dos jornais. É assim que funciona. Lembro o seguinte. Durante a Copa, o caso Master seguirá sendo investigado pela Polícia Federal (PF) e sendo noticiado pela imprensa. Por quê? Todas as instituições estão funcionando no Brasil. É há uma concorrência muito grande entre os meios de comunicação. Nos tempos da ditadura militar (1964 – 1985), o futebol era usado para desviar a atenção da população. Hoje, é só paixão. E o caso Master é um escândalo grande demais para ser varrido para debaixo do tapete. A disputa pela vaga de presidente da República está acirrada. E nada estará decidido até que seja contado o último voto no segundo turno. Qual será a influência nas eleições caso a Seleção ganhe ou perca a Copa? Nos dois casos terá alguma influência. Mas duvido que seja significativa a ponto de mudar o resultado. Não podemos esquecer que o projeto político do ex-presidente Bolsonaro nas eleições presidenciais é consolidar o bolsonarismo como referência de oposição. Agora, o projeto de fazer uma grande bancada no Senado e na Câmara dos Deputados pode ter sido comprometido com o envolvimento de Flávio com o caso Master.
Para finalizar a nossa conversa. Como disse o técnico Carlo Ancelotti, se Neymar vai ficar no banco ou ser titular dependerá da sua performance nos treinos. Enquanto isso, os agentes da PF continuarão avançando nas suas investigações do caso Master e o futuro presidente do Brasil será eleito pelo nosso voto. Simples assim, como dizem os jornalistas nas mesas dos botecos.