Por que as candidaturas de Zema e Caiado não decolaram nas pesquisas?

Os bastidores dos Bolsonaro vão influenciar as eleições Foto: Reprodução

A imprensa está devendo uma explicação para os leitores. Por que não decolaram nas pesquisas de intenção de votos as candidaturas a presidente da República dos ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD), 76 anos, de Goiás, e Romeu Zema (Novo), 61 anos, de Minas Gerais? Entender os motivos pelos quais os dois candidatos estão patinando é importante para saber parte dos acontecimentos que estão movimentando os bastidores da família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 71 anos, que é uma peça importantíssima da disputa das eleições de outubro. Vamos falar sobre o assunto.

Caiado e Zema eram importantes aliados do então presidente Bolsonaro, que governou o país de 2019 a 2022, quando concorreu à reeleição e foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos. A disputa entre Lula e Bolsonaro foi tremendamente polarizada e foi ali que nasceu a ideia de uma candidatura de “terceira via”. Além de Bolsonaro e Lula, outros noves candidatos disputaram a Presidência da República, mas o projeto de uma terceira via não prosperou. Muito pelo contrário. Houve o aprofundamento da radicalização no final de 2022, quando Bolsonaro e seus seguidores começaram a articular um golpe de estado para impedir que Lula assumisse o governo. A tentativa de golpe ficou simbolizada no episódio de 8 de janeiro de 2023. Na ocasião, bolsonaristas que estavam acampados na frente de unidades militares marcharam em direção à Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF), onde invadiram e quebraram tudo que encontraram pela frente no Palácio do Planalto, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Congresso. Mais de mil pessoas foram presas, julgadas e condenadas, entre elas Bolsonaro, sentenciado a 27 anos de prisão. Para as eleições de 2026, ele indicou o seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, como seu substituto na corrida presidencial contra Lula, que tentará a reeleição. Como em 2022, a disputa está novamente polarizada, desta vez entre Lula e Flávio. Foi nesse tenso cenário que nasceram as candidaturas de Caiado e Zema. Elas não foram gestadas com o objetivo de serem a tão sonhada terceira via, que continua sendo buscada especialmente pelos parlamentares do Centrão, como é chamado o bloco informal de partidos que atua no Congresso trocando apoio político e votos por verbas e cargos no governo, independentemente de quem for o presidente. As duas candidaturas nasceram com o objetivo inicial de serem satélites de Flávio. Quando foram lançadas, escrevi o post A luta de Caiado para não ser um “puxadinho” de Flávio nas eleições presidenciais. Um olhar na última pesquisa divulgada sobre intenção de votos para presidente, feita pela Meio/Ideia e publicada na quarta-feira (8), mostra que ambos os candidatos sequer conseguiram ser “puxadinhos” do senador.

A pesquisa da Meio/Ideia mostra Lula, no primeiro turno, com 40,4% das intenções de voto e, no segundo, com 45%. Flávio tem 32% e 40%, respectivamente. Caiado aparece com 4% no primeiro turno e 37,6%, no segundo, enquanto Zema tem 2,5% e 37%. Há mais um ponto importante. Até o mês de maio, Lula e Flávio estava praticamente empatados. O site The Intercept Brasil publicou uma reportagem, com áudio, do senador pedindo que o então dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, pagasse as parcelas atrasadas de uma contribuição de R$ 136 milhões que ele faria para custear a realização do filme Dark Horse (O Azarão), que conta os bastidores da campanha que elegeu Jair Bolsonaro presidente em 2018. A Polícia Federal (PF) não sabe o número de parcelas em que os R$ 136 milhões foram divididos. Mas sabe que em 2025 Vorcaro depositou o valor de R$ 61 milhões e depois interrompeu o pagamento. O ex-dono do Master cumpre prisão preventiva por operações fraudulentas que causaram um prejuízo de R$ 50 bilhões aos seus clientes e ao sistema bancário nacional. O envolvimento do senador no episódio custou-lhe a perda de quase 10 pontos percentuais nas pesquisas de intenção de votos. Segundo os especialistas, esses votos não migraram para Caiado e Zema. Por quê? Para responder a essa pergunta é preciso falar sobre os dois candidatos. Por serem os conflitos agrários uma das minhas especializações, eu conheço Caiado desde a década de 80, quando ele era presidente da União Democrática Ruralista (UDR) – matérias disponíveis na internet. Logo que lançou a sua candidatura, escrevi que ele tinha contatos importantes no “andar de cima” do agronegócio que podiam apoiá-lo e lhe dar suporte. Sei que andou conversando com gente importante do setor. Mas o apoio não se concretizou. Zema, eu nunca entrevistei. Mas li tudo o que se publicou a seu respeito. Ele investiu contra o STF tentando mobilizar os bolsonaristas. Também não deu resultado.

Para concluir a nossa conversa. Zema e Caiado não vão desistir de suas candidaturas. Vão seguir na luta. Mas sem desafiar a família Bolsonaro, em especial o ex-presidente. Podem até trocar desaforos com o senador Flávio. Mas jamais com o pai dele. Por quê? Simples, me respondeu um colega calejado em assuntos de política. “Wagner, se a candidatura do Flávio derreter, Caiado e Zema podem ser uma opção para a família Bolsonaro. Caso Flávio consiga navegar e chegar competitivo às eleições, os dois participam do próximo governo. Não interessa o percentual de votos que tenham, mas estarem disponíveis na hora que for preciso. Eles são uma espécie de bote salva-vidas da família Bolsonaro”. Alerto o leitor: o que eu escrevi não é o quadro definitivo. Porque estamos vivendo uma disputa política muito acirrada, em que as coisas mudam da noite para o dia.

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