
Como 2026 está passando rápido! Já no próximo fim de semana vamos votar no primeiro turno das eleições! Ouvi esse comentário entre duas jovens no supermercado. Estou aproveitando o gancho para lembrar aos jovens, em especial os repórteres que fazem a cobertura do dia a dia nas redações, alguns detalhes de como chegamos até aqui, uma situação de normalidade política. Vou assim resumir o início da nossa conversa. Ainda existe no Brasil a memória do que foi a ditadura militar. Apoiada pela extrema direita brasileira e pelo governo dos Estados Unidos, uma parte importante dos oficiais das Forças Armadas se envolveu em um golpe militar e instalou uma ditadura que governou o país com mão de ferro de 1964 a 1985. A ditadura deixou uma longa lista de presos políticos mortos, torturados e desaparecidos, além de uma desordem econômica que resultou numa hiperinflação que se prolongou até meados dos anos 90. Na época, havia o que nós jornalistas chamávamos de “política da caserna”, em que meia dúzia de oficiais de alto escalão se reuniam e escolhiam quem seria o próximo presidente. A imprensa pouco ou nada publicava sobre a “política de caserna”. A censura estava em pleno vigor e não brincava em serviço. A ditadura acabou oficialmente em 1988, com a publicação de uma nova Constituição que redemocratizou o país, acabou com a censura à imprensa e garantiu direitos aos cidadãos.
Essa é a décima eleição direta para presidente do Brasil desde então. O atual ano eleitoral começou em 8 de janeiro de 2023. Jair Bolsonaro (PL), 71 anos, havia concorrido à reeleição em 2022 e fora derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos. Naquele domingo, uma multidão de seus seguidores que estavam acampados na frente de unidades militares, reivindicando um golpe de estado para impedir a posse do presidente eleito, saiu em marcha dos acampamentos e avançou em direção à Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF). Lá, invadiu e quebrou tudo que encontrou pela frente no Palácio do Planalto, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Congresso Nacional. Mais de 1,3 mil pessoas foram presas e julgadas pelo episódio na Primeira Turma do STF. Entre elas, o ex-presidente e 40 integrantes do seu círculo pessoal de poder. Atualmente, Bolsonaro cumpre pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de estado. Todo o caso foi resolvido dentro da lei, com o julgamento dos acusados transmitido ao vivo pela TV Justiça, a televisão pública do STF, tal foi o interesse da população, que acompanhou as sessões da Primeira Turma como se estivesse assistindo a uma novela. Por estar preso e ter sido considerado inelegível até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ex-presidente indicou o filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, para substituí-lo na disputa com Lula, que concorre à reeleição. Lula e Flávio estão tecnicamente empatados nas pesquisas de intenção de voto. A campanha teve e ainda vai ter momentos de tensão. Um deles pode ser por conta de um novo fato relacionado ao “Caso Vorcaro, do Banco Master”. O dono do banco, Daniel Vorcaro, 41 anos, cometeu uma fraude financeira que custou R$ 52 bilhões de prejuízo aos clientes e ao sistema bancário. Foi preso e o Master, liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central. Flávio Bolsonaro entrou no escândalo em maio, com a publicação de uma reportagem pelo site The Intercept Brasil que revelou conversas telefônicas entre ele e Vorcaro nas quais o senador cobra parcelas atrasadas de um valor total de R$ 134 milhões que o ex-banqueiro faria para financiar o filme Dark Horse, o Azarão, sobre os bastidores da campanha presidencial que elegeu Bolsonaro em 2018. Vorcaro depositou sete parcelas, no valor de R$ 65 milhões, e então suspendeu os depósitos restantes – história disponível na imprensa.
Por conta da reportagem do The Intercept Brasil, Flávio chegou a perder 10% das intenções de votos. Mas se recuperou. O “Caso Vorcaro, do Banco Master” também foi o estopim de uma crise entre os ministros do STF André Mendonça, 53 anos, e Alexandre de Moraes, 57 anos. Os dois bateram boca durante uma sessão do tribunal – o caso está nos jornais. No início dessas duas histórias, os comentaristas políticos faziam cálculos dos danos que trariam para as eleições. Não trouxe dano nenhum. Pesquisas mostraram que a população soube separar as coisas. O “Caso Vorcaro, do Banco Master” é um caso de polícia e os envolvidos serão processados e julgados. A poucos dias das eleições, Lula e Flávio já estão envolvidos em outras disputas políticas. Uma delas é o caso das bets – as plataformas digitais de apostas. Feito o relato, agora vou aproveitar e “vender o meu peixe” para as novas gerações de repórteres e aos meus jovens leitores. Lembro a eles que a Constituição de 1988, que redemocratizou o Brasil, não foi um presente. Muito pelo contrário. Muitos morreram, foram torturados e perderam seus empregos para que voltássemos a ser uma democracia. Em 1964, o ano do golpe militar, o Brasil era um país rural. Hoje é urbano, industrializado e perfila-se entre as 10 maiores economias do mundo. Mesmo assim, em 2023 foi tentado um golpe de estado. Os golpistas não tiveram sucesso porque existe a liberdade de imprensa, que é tão fundamental para a democracia como o ar que respiramos, dizem os cientistas políticos. É um comentário político importante. Por quê? É um fato que os defensores do golpe de estado continuam na ativa e articulando os seus interesses. No Brasil, não são mais barulhentos como eram antes do 8 de janeiro de 2023. Mas seguem fiéis aos seus princípios políticos.
Para arrematar a nossa conversa. Durante a campanha do primeiro turno se discutiu muitos “assuntos de polícia” e pouco de política e de projetos para o futuro do país. Duvido que no segundo turno seja diferente.