
Foi um tiro que saiu pela culatra a cartada dada pelo experiente Gilberto Kassab, 65 anos, presidente do Partido Social Democrático (PSD), para acabar com a polarização na disputa presidencial entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44 anos, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos? Sou um velho repórter estradeiro e aprendi em meio século de profissão que em política só se tem certeza de alguma coisa na hora que as urnas são abertas e os votos são contados. O que podemos dizer é que a jogada de Kassab “perdeu tração”. Tratei do assunto no post publicado em fevereiro A cartada de Kassab para acabar com a polarização entre Lula e Flávio. A cartada era a seguinte. Reunir três governadores bem avaliados pelos seus eleitores e indicar o que tivesse melhor desempenho nas pesquisas como candidato do PSD a presidente da República. O acordo era que os outros apoiariam o escolhido.
Os governadores reunidos por Kassab foram Eduardo Leite, 40 anos, do Rio Grande do Sul, Ratinho Júnior, 44 anos, do Paraná, e Ronaldo Caiado, 76 anos, de Goiás. Na segunda-feira (23), Ratinho avisou que estava desistindo de concorrer e que ia cuidar dos seus negócios particulares. Na imprensa, a notícia foi que a desistência aconteceu porque, caso fosse escolhido candidato, ele entraria em atrito com Flávio. O senador assumiu a candidatura no lugar do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que cumpre pena de 27 anos por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado. Outro motivo foi que o senador Sérgio Moro, 53 anos, que lidera as pesquisas de intenções de voto para o governo do Paraná, filiou-se ao PL, com o apoio de Flávio. Ratinho, que enfrenta dificuldades para escolher um sucessor, afirmou que vai cumprir até o fim o seu segundo mandato e defender o seu legado político. Uma semana antes da desistência de Ratinho ouvi dois respeitados colunistas políticos anunciarem que o governador paranaense seria o escolhido para ser o candidato do PSD a presidente. Não revelo os nomes dos colunistas por não considerar relevante. E por saber que isso é do jogo. Mas achei estranha a notícia, porque um dos esteios da jogada de Kassab era manter a disputa entre os três governadores até o limite do prazo, para ocupar espaços nos noticiários. A estratégia vinha dando certo. Então, por que apressar o anúncio? Alguma coisa aconteceu que ainda não chegou aos ouvidos dos jornalistas. O fato é o seguinte: a saída de Ratinho da corrida presidencial deixou Kassab na mão. Na quarta-feira (25), ele anunciou seu afastamento do cargo de secretário de Relações Institucionais do Estado de São Paulo para cuidar da campanha eleitoral dos seus candidatos. Declarou apoio à reeleição do governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos), 50 anos. Tarcísio foi ministro de Bolsonaro e se considera seu afilhado político. E, antes de Bolsonaro nomear o filho Flávio, disputou a indicação do ex-presidente para concorrer em seu lugar contra Lula.
Com a desistência de Ratinho, a imprensa elegeu Caiado como candidato do PSD a presidente. Leite não gostou da história e veio a público dizer que tinha colocado as cartas na mesa. Que o partido deveria deixar claro de que lado está na disputa presidencial. Leite tem uma proposta objetiva: se afastar do bolsonarismo e do PT, assumindo uma posição de centro. Ao contrário de Caiado, que já se comprometeu publicamente com os bolsonaristas. Aqui é o seguinte. A posição de centro do governador gaúcho está muito “solta no ar”. Ele não esclareceu os fundamentos da sua posição. Caiado deixou bem claro o seu alinhamento com Flávio. Mas aqui tem o seguinte. Só um vai se eleger presidente. Caiado espera chegar lá sem enfrentar Flávio? Digo o seguinte. Ele tem uma forte e fiel base eleitoral entre os proprietários de terras. Em 1985, criou a União Democrática Rural (UDR), que organizou os grandes produtores rurais para combater as ocupações de fazendas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Durante toda a década de 80, a luta pela reforma agrária ocupou espaços nobres no noticiário nacional. Esses fazendeiros são parte importante do que, nos dias atuais, chamamos de agronegócio. Sei bem como funcionam as coisas entre os proprietários rurais. Fiz várias reportagens e escrevi livros como O Brasil de Bombachas, uma série de três publicações que contam a história da ocupação das fronteiras agrícolas pelos colonos gaúchos e seus descendentes. No meio rural, ao natural, Caiado vai tirar votos de Flávio. E também recursos econômicos para a campanha vindos do agronegócio.
Para arrematar a nossa conversa. Na próxima semana, Kassab deverá anunciar o candidato do seu partido para concorrer a presidente da República. Por enquanto, é incerto o destino da sua cartada para acabar com a polarização entre Flávio e Lula. O presidente do PSD não é o primeiro que investe contra a polarização. De certo modo, ela sempre existiu no quadro eleitoral brasileiro. Em algumas campanhas, acontece de maneira civilizada. Em outras, faz tanto barulho que assusta. Atualmente, o barulho está assustador. Uma das causas é que a extrema direita se reorganizou e tem chances reais de chegar ao poder. Só teremos uma ideia do que vai acontecer nas eleições de outubro na segunda quinzena de setembro. Lembro que uma significativa parte dos eleitores só escolhe em quem vai votar a caminho da urna. São justamente estes que decidirão quem será o próximo presidente.