A imprensa, os preços dos combustíveis e Trump no “atoleiro” da guerra do Irã

Irã acusa EUA de propor negociações enquanto planejam invadir o país Foto: EBC

Não podia ser diferente. Ao redor do planeta, os preços dos combustíveis não param de subir desde o final de fevereiro, quando foram disparados os primeiros mísseis por Estados Unidos e Israel contra o Irã. O conflito começou em 28 de fevereiro e já matou mais de 1,9 mil pessoas, principalmente civis no Irã, feriu 24 mil e causou bilhões de dólares de prejuízo com a destruição da infraestrutura nas cidades e nos campos petrolíferos. No último sábado (28), a guerra completou um mês e a rigor não tem data para terminar. Enquanto isso, as populações vão se adaptando à sua maneira para superar o caos que se instalou com a disparada dos preços nas bombas dos postos de combustíveis. Na busca por informações, andei por aí prestando atenção aos comentários das pessoas e vasculhei os noticiários para saber o que está acontecendo pelo mundo afora. Uma das frases que ouvi: “Estava pensando em trocar o carro por um elétrico ou híbrido. Não estou pensando mais, vou trocar”. Assim sintetizei uma conversa que ouvi entre dois executivos que abasteciam o carro em um posto na BR-386, uma rodovia que se estende por 500 quilômetros ligando Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre, a Iraí, cidade às margens do Rio Uruguai, na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina. Telefonei para algumas revendas de veículos e o que ouvi é que não existe uma “corrida em busca de carros elétricos”. Há o interesse de sempre pelos elétricos e híbridos, que é descrito pelos vendedores como “crescente”.

O que notei nos noticiários nacionais foi um aumento no número de entrevistados citando os avanços tecnológicos dos veículos elétricos e híbridos. E também, incluindo a imprensa internacional, falando bem das características dos combustíveis consumidos no Brasil: gasolina com uma mistura de 30% de etanol anidro (o popular álcool) e diesel (B15) com 15% de biodiesel (produzido a partir de óleos vegetais ou gordura animal). Mais: os motores dos carros brasileiros são flex, tecnologia desenvolvida no país que permite o seu funcionamento tanto com gasolina quanto com etanol ou ainda com uma mistura dos dois. Também é mencionado que o pré-sal, a gigantesca jazida de petróleo e gás descoberta em 2006 na costa brasileira, a 7 mil metros abaixo do nível do mar, entre Espírito Santo e Santa Catarina, responde sozinho por 78% das necessidades do país e coloca o Brasil como importante “ator energético” mundial. O fato é o seguinte. Apesar de todo esse quadro favorável, incluindo o subsídio do governo federal ao diesel, os preços dos combustíveis não param de subir. Há mil explicações para isso, a maioria delas é uma intricada equação de mercado. Para separar a “sacanagem” dos dados técnicos dessa equação, na sexta-feira (27) uma força-tarefa batizada de Operação Vem Diesel, formada por Polícia Federal (PF), Secretaria Nacional do Consumidor, órgão do Ministério da Justiça e Segurança Pública, e Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), fiscalizou postos de abastecimento em 11 estados. Já vi esse filme antes. A operação da PF assusta os especuladores, mas não resolve a situação. O governo sabe disso, e esse foi um dos motivos por que escolheu agir nesses 11 estados, entre eles Rio Grande do Sul e Mato Grosso. Por quê? Simples. Eles formam o coração do agronegócio brasileiro. E até o meio do ano acontecem as colheitas das safras de soja, milho e outros cereais cujo escoamento demanda uma boa parte da frota nacional de caminhões. Como se diz nos rincões do Brasil: “não existe língua mais afiada que a do caminhoneiro esperando na fila para descarregar”. O preço atual do diesel está nas máximas históricas graças à guerra no Irã. Nos bons tempos, chegava a custar até 40% mais barato que a gasolina. Em 2022, houve uma escassez da produção, que somada às dificuldades causadas pela guerra entre Rússia e Ucrânia e a retirada do subsídio pelo governo fizeram o preço do diesel ultrapassar o da gasolina. Antes da guerra no Irã, o diesel custava, em média, 10% mais barato que a gasolina. Atualmente, voltou a ficar mais caro e a diferença continua crescendo.

Resumindo a história. A questão não é se o país é autossuficiente ou não em petróleo. Claro que ajuda ser autossuficiente, assim como ajuda ter uma matriz energética diversificada. Mas não resolve o problema, porque o petróleo é uma commodity cujas cotações são definidas nos mercados internacionais e valem para todos os cantos do planeta. Antes do conflito no Irã, o barril do petróleo brent custava, em média, 70 dólares. Na segunda-feira (30), o preço oscilou perto da faixa dos 120 dólares, o maior valor em quatro anos. E continuará oscilando enquanto os mísseis estiveram cruzando os céus do Oriente Médio. Porque a guerra, além de colocar a estrutura petrolífera do Golfo Pérsico em risco, também fechou uma das principais rotas de transporte, através do Estreito de Ormuz, retirando do mercado cerca de 20% da produção mundial diária de petróleo. A situação atingiu em cheio a popularidade do presidente americano, Donald Trump (republicano), 79 anos, que caiu para o nível mais baixo desde o início do seu governo (cerca de 30%) No sábado (28), americanos fizeram 3,1 mil manifestações em lugares diferentes dos Estados Unidos contra a guerra no Irã e a política de expulsão de imigrantes. Também houve manifestações contra Trump em cidades europeias como Londres, Paris, Berlim e Roma. O seu aliado, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, 76 anos, precisa de uma guerra para se manter no poder. Ele conseguiu uma coisa inédita. A opinião pública americana, que em sua maioria sempre foi simpática a Israel, atualmente questiona as intenções de Netanyahu. Por seu lado, o aiatolá Mojtaba Khamenei, 56 anos, autoridade máxima do Irã, segue com a “faca no pescoço” dos mercados internacionais de combustíveis, mantendo fechada a passagem do petróleo por Ormuz. Ele sabe que a gritaria ao redor do mundo contra a alta dos preços do petróleo é a arma mais poderosa que tem contra Trump e Netanyahu.

Esta não é primeira nem será a última guerra que acontece naquela região. Em uma delas, no início dos anos 90, fui escalado pela redação do jornal para ouvir a opinião da população de Porto Alegre (RS) sobre o conflito. Lembro-me que abri a matéria mais ou menos desse jeito: “A primeira vítima da guerra é o tanque dos carros no Brasil”. Trump se elegeu vendendo um “balaio de sonhos” para os americanos, entre eles que seus soldados não participariam mais de nenhuma guerra. Esse é dos motivos pelo qual ele tenta resolver o conflito com o Irã com mísseis. Se conseguir, entrará para a história como o primeiro presidente a vencer uma guerra sem usar a infantaria, as tropas que lutam a corpo a corpo nos campos de batalha. Atualmente, Trump e os aiatolás estão envolvidos em uma guerra de versões. O presidente americano diz que está negociando com os líderes iranianos. Estes dizem que Trump, enquanto afirma estar negociando, concentra soldados na região para invadir o Irã. Enquanto isso, os preços dos combustíveis seguem subindo nas bombas ao redor do mundo. Trump parece que ainda não se deu conta que o primeiro-ministro de Israel o colocou em uma “fria”. E está caminhando a passos largos rumo ao “atoleiro” que promete se tornar a guerra contra o Irã.

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