Guerra no Irã, Lula, Flávio e a disputa pelas manchetes dos jornais

O que deveriam ser duas “guerras-relâmpago” se tornaram “atoleiros” Foto: Reprodução

Em 28 de fevereiro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos, aliado com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, 76 anos, iniciou uma guerra contra o Irã. Era para ter sido uma “guerra-relâmpago”, devido ao poderio da máquina bélica americana, que se somou ao grande conhecimento que os serviços de inteligência de Israel têm sobre como as coisas funcionam no Irã entre os aiatolás e a Guarda Revolucionária. Apesar do cessar-fogo momentâneo, no próximo fim de semana o conflito fechará dois meses sem previsão de terminar​. Até aqui, a guerra já contabiliza mais de 3,5 mil mortos, a maioria civis iranianos, centenas de feridos e bilhões de dólares em prejuízos com a destruição de prédios e da infraestrutura petrolífera dos países da região. E se transformou em um atoleiro para Trump. A exemplo do aconteceu com seu amigo e colega, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, 73 anos, que em 24 de fevereiro de 2022, no que chamou de “operação militar especial”, invadiu a Ucrânia com a intenção de anexá-la. O poderio militar russo se perfila entre os três maiores do mundo, muitas vezes superior ao ucraniano. Mas o que também deveria ser uma “guerra-relâmpago” vai para o seu sexto ano sem prazo para terminar. Já foram mortos e feridos 600 mil ucranianos e 1,2 milhão de russos. Durante a sua campanha para presidente, em 2024, Trump prometeu acabar com a guerra da Ucrânia com um telefonema.

Claro, os atoleiros em que essas duas guerras se transformaram se devem a dezenas de motivos diferentes. Mas, relendo muitas das matérias que publicanos, encontrei um motivo comum aos dois conflitos. Vamos falar sobre ele. Trata-se da maneira como a história foi contada para a opinião pública. No caso da Ucrânia, o presidente do país, Volodymyr Zelenskyy, 48 anos, além de político, é comediante, ator, roteirista, produtor e diretor de cinema, e usou todo o seu conhecimento em comunicação para mostrar ao mundo um Putin sanguinário, ex-funcionário da KGB, o famigerado serviço de inteligência e espionagem russo, cujo sonho é restabelecer o poder da antiga União Soviética (URSS), o país formado pela reunião de 15 repúblicas socialistas que se dissolveu com o final da Guerra Fria (1947 – 1991) – matérias na internet. Portanto, as ambições territoriais de Putin não iriam parar na Ucrânia. Zelenskyy persuadiu os 32 países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que inclui os Estados Unidos, a apoiá-lo com armas e dinheiro. E o apoio da OTAN tem sido fundamental para a Ucrânia ter virado um atoleiro para Putin. Sobre o atoleiro do Irã, Trump justificou a sua aliança com o primeiro-ministro de Israel usando o argumento de que o regime dos aiatolás estava enriquecendo urânio para fabricar uma bomba atômica. Contou a história com tal convicção que conseguiu convencer parte importante da opinião pública. O presidente americano trabalhou muitos anos em televisão e domina a arte da comunicação. Segundo o ex-presidente americano Joe Biden (democrata), 81 anos, Trump é “um mentiroso profissional”. Nas primeiras semanas da guerra com o Irã, a versão do presidente americano começou a desmoronar, como publiquei em 20 de março no post Até onde Trump pretende ir com a guerra no Irã? Repito parte do texto. “Um fato surpreendente aconteceu na terça-feira (17/03). A demissão de Joseph Kent, 45 anos, que ocupava o cargo de diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo do governo Trump. Saiu atirando: ‘Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã. O Irã não representava nenhuma ameaça iminente a nossa nação, e é evidente que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby americano”. Acrescentou que “no início do mandato de Trump altos funcionários do governo israelense e a mídia americana lançaram uma campanha para desmoralizar a principal bandeira do presidente, o ‘América em primeiro lugar’, e preparar o campo para a invasão do Irã”.

Trump é um homem de comunicação. Mas não é páreo para o experiente político em relações internacionais que é o primeiro-ministro de Israel. A história que colou na opinião pública é que Netanyahu convenceu o presidente americano que a guerra contra o Irã seria resolvida rapidamente. Não foi. Usando tecnologia de baixo custo, os iranianos revidaram atacando 36 bases militares americanas na região e instalações petrolíferas de países aliados dos Estados Unidos. E usando a geografia a seu favor: nos primeiros dias da guerra, o Irã bloqueou o Estreito de Ormuz, um estrangulamento do mar que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, por onde passa diariamente 20% da produção mundial de petróleo. Só passavam navios iranianos com o petróleo para os seus clientes. Para pressionar, a Marinha dos Estados Unidos fechou a passagem para esses navios: agora, ninguém entra ou sai dos portos iranianos. Já foram feitos e desfeitos vários acordos entre americanos e iranianos para a liberação do estreito. As negociações estão acontecendo no Paquistão e são coordenadas pelo primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, 74 anos. Até aqui, todas fracassaram – há farto material sobre o assunto nos jornais. Enquanto isso, os preços do petróleo continuam oscilando conforme o humor dos negociadores. Fato é o seguinte. Israel e Irã vivem em uma guerra permanente. A presença dos americanos espalhou o conflito ao redor do planeta, porque mexeu com os preços dos combustíveis. E colocou o assunto como a principal manchete dos noticiários. Só para se ter uma ideia. Sendo 2026 um importante ano no calendário eleitoral brasileiro, a cinco meses da realização do primeiro turno as eleições deveriam ser o assunto principal dos jornais. Mas não são. A campanha política está perdendo espaços nobres para a guerra no Irã. Caso persista o conflito, acabará influenciando as eleições, especialmente para a Presidência da República, que tem o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, concorrendo à reeleição, tendo como principal adversário o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que cumpre pena de 27 anos de prisão por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado. Flávio e a sua família são aliados políticos de Trump e defendem o alinhamento ideológico do Brasil com os Estados Unidos. Lula defende a soberania nacional.

Para fechar a nossa conversa. Não tem como escrever uma história sem falar na guerra do Irã porque ela mexe com todo mundo. Claro, se um país for produtor de petróleo e ter tecnologias alternativas para baratear o custo da energia, como é o caso do Brasil, consegue navegar com mais tranquilidade nessa situação. Mas não tem como escapar dos danos causados pela alta do custo do petróleo, uma commodity cujo preço é determinado pela lei da oferta e da demanda. O bloqueio do Estreito de Ormuz diminui a oferta de petróleo no mundo. É simples assim, como se diz nas mesas de jornalistas nos botecos.

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