
Na sexta-feira (5), as facções Primeiro Comando da Capital (PCC), nascida em São Paulo, e o Comando Vermelho (CV), no Rio de Janeiro, passaram a integrar a lista oficial das Organizações Terroristas Estrangeiras (FTP, na sigla em inglês), do Departamento de Estado dos Estados Unidos, atualmente sob o comando do secretário Marcos Rubio, 55 anos. Na mesma lista constam grupos como a Al-Qaeda, a organização criada pelo saudita Osama Bin Laden (1957 – 2011) que foi responsável pelos ataques de 11 setembro de 2001, quando 19 terroristas suicidas sequestram quatro aviões de passageiros e os jogaram contra alvos como as Torres Gêmeas, em Nova York, e o prédio do Pentágono (Departamento de Defesa), na Virgínia, próximo a Washington (D.C.). Nestes atentados morreram 3 mil pessoas e mais de 6 mil ficaram feridas. O governo do presidente Donald Trump (republicano), 79 anos, já havia incluído na lista de terroristas cartéis internacionais de droga, entre eles o Sinaloa e o Jalisco, do México, e Tren de Aragua, da Venezuela.
Estar nessa lista significa ser vigiado pelo aparato legal, financeiro e de segurança do governo dos Estados Unidos. Lembro que no início de janeiro um comando militar americano invadiu o território da Venezuela e capturou o então presidente do país, Nicolás Maduro, 63 anos, e a sua esposa Cilia Flores, 69 anos, acusados de estarem envolvidos com o tráfico internacional de drogas. Eles estão presos aguardando julgamento em Nova York. Na época, tratei do assunto no post Prisão de Maduro abre espaço para luta pelo poder na Venezuela. Além disso, qualquer banco ou empresa que se envolver em transações comerciais com as organizações incluídas na FTP podem ter sérios problemas com a Justiça americana. O que significará para o Brasil ter duas organizações classificadas como terroristas pelos Estados Unidos? É preciso esperar para saber. O governo brasileiro vinha negociando desde o início do ano para evitar o enquadramento de PCC e CV como terroristas por entender que a medida cortará o fluxo de troca de informações sobre essas organizações entre as forças policiais dos dois países, prejudicando o combate à lavagem de dinheiro. A estratégia brasileira para lidar com as facções criminosas é justamente desmontar o sistema de lavagem de dinheiro responsável pela sua sustentação. Nesta questão, existe uma história que merece ser lembrada pelos jornais: a presença do PCC e do CV nos garimpos ilegais de ouro e outros minerais na Floresta Amazônica. Vou lembrar o caso. Durante o governo (2019 – 2022) do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, houve propositadamente o sucateamento dos órgãos de fiscalização ambiental, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O resultado desse sucateamento foi um surto de invasões das reservas indígenas por garimpeiros. O episódio mais conhecido foi a invasão do território dos ianomâmis, uma gleba 9,6 milhões de hectares na fronteira entre o estado de Roraima e a Venezuela. O uso de mercúrio e outros produtos tóxicos nos garimpos resultou na destruição de vastas áreas de rios, doenças e fome entre os indígenas. As imagens do desastre circularam o mundo.
O PCC e o CV, aliados com facções criminosas da região, já usavam os rios da Amazônia para transportar a cocaína comprada dos cartéis da Colômbia e do Peru para os portos brasileiros, onde é embarcada para a Europa. Viram uma oportunidade de ampliar os seus negócios na região com a proliferação dos garimpos nas reservas indígenas e se associaram aos financiadores dos garimpeiros, fornecendo-lhes dinheiro e armas. Há muitos anos os financiadores tradicionais dos garimpos montaram um sistema de legalização do ouro extraído ilegalmente que se tornou uma grande descoberta para os operadores da lavagem de dinheiro das organizações criminosas. Funciona assim: sempre que assume um governo que pega pesado com garimpeiros, madeireiros clandestinos e grileiros (que falsificam documentos para se apossar ilegalmente de terras públicas), eles recuam e esperam o próximo governante. Recuaram em 2023, quando assumiu como ministra do Meio Ambiente Marina Silva, 68 anos, uma profunda conhecedora dos problemas da Floresta Amazônica e temida pelos garimpeiros. Nos dias atuais há uma movimentação significativa entre os legalizadores de ouro dos garimpos devido à valorização do metal (US$ 4.400 por onça no mercado internacional). Avanços tecnológicos têm facilitado o trabalho da Polícia Federal (PF) em identificar a origem do ouro. Mas para desarticular o sistema de legalização das barras de ouro a PF depende de informações de vários países, especialmente dos Estados Unidos. Com a classificação do PCC e do CV como terroristas, os policiais brasileiros e americanos não poderão trocar informações sobre essas organizações. As informações começaram a circular pelos canais militares. O tamanho do prejuízo para as operações policiais será significativo.
Antes de arrematar a nossa conversa vou lembrar que nos últimos 60 dias a PF, o Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal vêm realizando a Operação Carbono Oculto, que já desmontou um esquema de lavagem de dinheiro usando uma rede de postos de combustível e fintechs que operam na Faria Lima, o coração do mercado financeiro brasileiro (na Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo). Essa operação é muito importante para sufocar o crime organizado no país. E será prejudicada com a história da lista de terroristas. Após o 11 de setembro, fiz uma série de matérias investigativas nas fronteiras do Brasil, quando conversei com terroristas que estavam de passagem pela região. E faz parte do meu cotidiano escrever reportagens com os chamados “bandidos patrimoniais”, especializados em praticar crimes de alto valor contra o patrimônio. São perfis completamente diferentes. Qualquer investigador em início de carreira sabe disso. Também sabe que militarizar o combate aos cartéis nunca funcionou. Claro que o secretário Rubio conhece essa realidade. Por que ele insiste no assunto?