
Estava dando uma olhada nos posts que publiquei em 2022, durante a campanha para a Presidência da República. O então presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, concorria à reeleição contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que buscava o seu terceiro mandato. A disputa foi acirrada e por conta disso a frase que mais escrevi nos textos foi: “as eleições serão decididas nos detalhes”. No segundo turno, Lula fez 50,9% dos votos válidos contra 49,1% de Bolsonaro. Venceu por uma diferença de 2,13 milhões de votos. “Um punhadinho de votos”, como se dizia nos tempos das máquinas de escrever nas redações, considerando que mais de 156 milhões de eleitores estavam aptos a votar naquela eleição. Na disputa atual, não tem como não repetir que “as eleições serão decididas nos detalhes”. Lula tentará a reeleição enfrentando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44 anos, indicado pelo pai, o ex-presidente Bolsonaro, que está preso, cumprindo uma pena de 27 anos por ter se envolvido na organização de um golpe de estado.
Segundo as pesquisas de intenção de votos, Flávio e Lula estão empatados. Caso os números atuais persistam no restante da campanha, o trabalho da militância política será essencial para convencer o “punhado de eleitores” a votar no seu candidato. Conhecei e convivi com esse personagem importante das campanhas eleitorais, que teve o seu auge nos anos 80 e entrou em decadência com a consolidação da internet e a popularização dos aplicativos e dos aparelhos celulares. Fui apresentado ao militante político nos primeiros anos da minha carreira de repórter, iniciada em 1979. Eram pessoas muito populares na comunidade que batiam de porta em porta para fazer um trabalho personalizado de convencimento do eleitor para votar no seu candidato. O ambiente da disputa eleitoral era completamente diferente do atual. Vou explicar o motivo. Em 1964, parte das Forças Armadas, aliada com a extrema direita brasileira e apoiada econômica e politicamente pelos Estados Unidos, deu um golpe de estado que colocou fim ao governo do presidente João Goulart (1919 – 1976), o Jango, gaúcho de São Borja, do antigo PTB. O regime militar acabou com o voto direto para os cargos executivos federais, estaduais e municipais nas chamadas áreas de segurança nacional, que eram as capitais, cidades de fronteira, grandes polos industriais e estâncias hidrominerais. O presidente da República, os governadores e os prefeitos dessas zonas de segurança eram escolhidos em eleições indiretas ou nomeados – matérias na internet. O regime começou a entrar em decadência no início da década de 80 e foi substituído pelos civis em 1985, deixando um rastro de prisões, torturas, mortes e desaparecimentos de adversários políticos, além de uma situação caótica na econômica que resultou numa hiperinflação. A redemocratização do país se consolidou em 1989, com a publicação da atual Constituição e a eleição direta do presidente da República.
O trabalho da militância política ajudou a consolidar a democracia brasileira. Foi fundamental para ajudar a minha geração de repórteres a entender os acontecimentos de uma fase de transformação na vida política brasileira como foi a década de 1980. O Brasil é um país de dimensões continentais. Como sempre viajei muito pelos rincões, acompanhando os conflitos agrários, o povoamento de fronteiras agrícolas e a atuação do crime organizado nas cidades fronteiriças, especialmente com o Paraguai, seguidamente “caía no meu colo” a cobertura das eleições nos mais distantes lugares do país. Antes de bater na porta dos candidatos, eu procurava os militantes para conversar e saber o tamanho da encrenca em que estava metido. Eram tempos difíceis para o repórter e o fotógrafo. O tempo de apuração era pequeno e enviar a matéria (texto e fotos) para a redação dava muito trabalho. Frequentemente precisávamos rodar dezenas de quilômetros por estradas de chão batido, esburacadas ou cheias de lama em busca de um telefone para enviar o material para a redação. Atualmente, as novas tecnologias de comunicação, aliadas à interiorização da infraestrutura, facilitaram muito o trabalho do repórter, mesmo lá nos “rincões esquecidos por Deus”. Mas a tecnologia não substituiu o trabalho do militante. Muito pelo contrário, colocou à sua disposição ferramentas como a internet que auxiliam a sua tarefa. Vou contar uma história. O presidente Lula e a direção nacional do PT apostaram na eleição para o governo do Rio Grande do Sul indicando o ex-deputado Edegar Pretto (PT-RS), 54 anos, como candidato a vice-governador na chapa que terá a ex-deputada Juliana Brizola (PDT-RS) como candidata a governadora. Qual a aposta de Lula? Uma das suas bandeiras é a defesa da soberania nacional. Juliana é neta do ex-governador gaúcho Leonel Brizola (1922 – 2004). Na década de 50, Brizola foi um dos ícones da defesa dos interesses nacionais e da democracia. Em 1961, então governador, entrincheirou-se no Palácio Piratini, a sede do governo gaúcho, e ali organizou e liderou a Campanha da Legalidade, que garantiu a posse de Jango na Presidência da República. Contei essa história no post As razões por que Lula apostou na eleição para o governo gaúcho, publicado sexta-feira passada (17). Lula apostou que a militância irá refrescar a memória dos eleitores sobre a importância da soberania nacional.
Uma das bandeiras políticas fortes do senador Flávio Bolsonaro é investir na aproximação da sua candidatura com a administração do presidente Donald Trump (republicano), 79 anos, que é amigo e simpatizante do seu pai. A outra bandeira é demonstrar que foi uma farsa o julgamento da Primeira Turma do Superior Tribunal Federal (STF) que condenou o ex-presidente e seus seguidores. Ele acredita que os militantes bolsonaristas conseguirão contar a sua versão da história aos eleitores. Como disse no início da nossa conversa. Há um empate técnico entre Lula e Flávio. Se persistir o atual quadro será um “punhadinho de eleitores” que decidirá quem será o próximo presidente. Seja qual for o quadro de chegada das campanhas, o trabalho do militante é fundamental.