A imprensa e o missionário americano investigado por surrar e matar o filho de três anos

Conselhos Tutelares deveriam ser incluídos na ronda das redações Foto: Reprodução

Em meados do mês de junho, em viagem pelo interior do Rio Grande do Sul, encontrei um amigo de longa data e durante a conversa descobri que a sua atual companheira é conselheira tutelar. E o que era para ser um breve “como vão as coisas” se alongou para um papo tomando chimarrão. A mulher contou muitas histórias sobre as dificuldades que enfrenta no exercício da sua função, como a precariedade na infraestrutura, a falta de cursos especializados e as pressões políticas. Falei sobre as inúmeras reportagens que fiz envolvendo os Conselhos Tutelares ao longo de quase meio século da minha lida de repórter, sendo 30 e poucos anos vividos nas redações de jornais. Entre elas, alguns casos marcantes e de grande repercussão, como o assassinato do menino Bernardo, em 2014, em Três Passos, cidade gaúcha na fronteira com a Argentina. Atualmente, ando pelas estradas em busca de boas histórias para contar.

Mais adiante vou detalhar o caso Bernardo. Lembrei-me da conversa com a conselheira tutelar assim que ouvi nos noticiários a história do missionário americano Dandre Jermaine Grayson, 33 anos, que espancou o filho de três anos, no último dia 5 de julho, em Viamão, cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre. O menino foi surrado porque não deu “bom-dia” da maneira julgada adequada pelo pai. Ele não resistiu aos ferimentos e morreu na quarta-feira (8) na UTI Pediátrica do Hospital de Pronto Socorro (HPS), em Porto Alegre. Grayson e a mãe do garoto, Mayana Angelina Rodgers, 29 anos, que tem dupla cidadania (americana e japonesa), estão presos preventivamente por maus-tratos. A família está no Brasil há nove anos e a investigação policial encontrou suspeitas de maus-tratos com os filhos em mais dois estados por onde passou, Santa Catarina e Paraná. O casal tem outros quatro filhos que estão em abrigos institucionais do Conselho Tutelar de Viamão. Os problemas da família do missionário são conhecidos das autoridades de Viamão desde novembro do ano passado e nesse tempo foram realizados sete encontros no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS). Assim resumiu a situação o prefeito de Viamão, Rafael Bortoletti (PSDB), 37 anos, em entrevista à Rádio Gaúcha: “O Estado falhou. Para mim, a maior falha nossa foi não ter entendido a gravidade e a velocidade com que era preciso uma resposta do Estado”. A imprensa gaúcha e a nacional estão fazendo uma cobertura online ampla, variada e muito rica de detalhes da morte do menino. Na maioria das vezes em que acontece esse tipo de tragédia envolvendo crianças a imprensa faz uma cobertura eficiente. Aqui vou lembrar o caso do menino Bernardo, de Três Passos. Seis meses antes do seu desaparecimento, em 14 de novembro de 2013, durante uma reunião rotineira da Rede de Proteção à Infância, surgiu o nome de Bernardo Uglione Boldrini, 11 anos, filho do médico Leandro Boldrini, 51 anos. Os informes davam conta que o menino estava sendo maltratado pela madrasta, Graciele Ugulini, 48 anos. A história circulou nos serviços de assistência social até 4 de abril de 2014, quando Bernardo desapareceu. Eu e um grupo de jornalistas chegamos a Três Passos horas depois do desaparecimento. O que nos surpreendeu foi o fato de que as autoridades já sabiam da situação do garoto e nada de concreto tinha sido feito. No dia 14 de abril, o corpo de Bernardo foi encontrado enterrado em uma cova rasa em Frederico Westphalen, importante cidade comercial do norte gaúcho, a 80 quilômetros de Três Passos. Fiz a reportagem.

O inquérito policial provou que a madrasta e dois cúmplices mataram o menino aplicando-lhe uma overdose de um sedativo usado em cirurgias e com o conhecimento do pai montaram uma história para explicar o desaparecimento. Leandro Boldrini foi condenado a 31 anos de prisão e seu registro profissional de médico foi cassado pelo Conselho Federal de Medicina. A madrasta foi condenada a 34 anos de prisão – toda a história das condenações dos autores do crime e de seus cúmplices está disponível na internet. Aqui é o seguinte. Se o Estado tivesse agido nos casos do filho do missionário americano e de Bernardo, eles estariam vivos? Não tem como saber o que teria acontecido se o Estado tivesse feito a sua parte. Mas podemos afirmar que se as duas histórias tivessem chegado às redações dos jornais antes de acontecerem as tragédias eles teriam uma chance de sobreviver, porque os casos teriam virado manchete. Por que os episódios de violência contra crianças e adolescentes terminam em tragédia? O principal motivo é que os Conselhos Tutelares não fazem parte da “ronda das redações”, que assim descrevo para quem não é jornalista: é um protocolo cumprido antes de colocar no ar o noticiário, que é executado por um repórter: ele liga para as principais delegacias, as emergências hospitalares, os bombeiros e outros serviços para saber o que está rolando. Os Conselhos Tutelares não fazem parte dessa lista de checagem. A sua inclusão poderia render boas matérias e ao mesmo tempo servir de pressão para as autoridades fazerem a sua parte. Não é da cultura das redações trabalhar na prevenção. Mas os casos da violência contra crianças se tornaram um grande problema no Brasil e exigem atenção da imprensa.

Para fechar a nossa conversa. Pelas apurações da polícia, o missionário americano não é ligado a nenhuma igreja gaúcha. É um pregador independente. A sua companheira diz que é inocente e que também é vítima da brutalidade do marido. Como a investigação policial está no início, a história do missionário e da sua família ainda tem muitos elos desconhecidos. Pode ser encontrada uma surpresa?

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