Uma viagem pela BR-386 no meio de chuva e ventos turbinados pelo El Niño

As chuvas intensas do início da primavera tornam as estradas mais perigosas para os motoristas Foto: Reprodução

Havia dias que os aparelhos celulares dos gaúchos vinham recebendo alertas da Defesa Civil informando que o Rio Grande do Sul seria alvo de vendavais e chuvas torrenciais no último fim de semana de setembro. Mesmo assim, nem passou pela minha cabeça a possibilidade de cancelar a viagem que havia programado para o final da madrugada de domingo (27). Partido de Porto Alegre, percorreria de carro 360 quilômetros até Constantina, no norte do território gaúcho, 94% do trajeto rodando pela icônica BR-386. Construída nos anos 1960, a rodovia se estende por 600 quilômetros entre a Região Metropolitana da capital gaúcha e a divisa com Santa Catarina atravessando o coração da região produtora de grãos do estado. Nas épocas de colheita e transporte das safras, a 386 se enche de caminhões transportando soja, milho, trigo e outros produtos agrícolas, o que lhe conferiu o nome de Estrada da Produção e a tornou um símbolo do início da bem-sucedida era das lavouras de soja no Brasil, embrião do que hoje chamamos de agronegócio e que representa uma parcela significativa do PIB nacional.

Comecei a viajar pela BR-386 em 1979, ano em que iniciei a carreira de repórter nas redações de jornais. Por ter me especializado em conflitos agrários, crime organizado nas fronteiras e migrações internas, sempre viajei muito pelos sertões do Brasil. A maioria dessas viagens começava pela 386, a rota natural para quem sai do sul rumo ao oeste e ao centro do país. Quando deixei a redação, em 2014, havia feito um monte de amigos à beira das estradas por onde passei. A minha viagem programada para domingo era mais uma oportunidade de conversar com o “pessoal da 386” sobre as eleições do próximo fim de semana. Mesmo longe das redações, continuo viajando em busca de boas histórias para contar. Foi o caso do livro A História Perdida das Benzedeiras Gaúchas, que publiquei em maio de 2025, mas que me levou para a estrada um ano antes. Eu e o repórter fotográfico Emílio Pedroso fizemos a maioria das entrevistas para o livro em 2024, o ano em que o Rio Grande do Sul foi atingido por uma enchente catastrófica que devastou inúmeras cidades e inutilizou boa parte da infraestrutura rodoviária. A BR-386 foi duramente castigada, registrando mais de uma centena de deslizamentos de encostas, queda de barreiras e pontes danificadas – há um vasto material disponível na internet. A prática da Defesa Civil de avisar a chegada de tempestades severas é recente. Até pouco tempo atrás, só descobríamos a intensidade do temporal na hora que ele acontecia. Sai de Porto Alegre ao amanhecer de domingo. Viajava sozinho. O ar estava abafado, sinal que vinha chuva. Mas é primavera, uma estação normalmente chuvosa no Rio Grande do Sul. Antes de pegar a estrada parei em um posto de combustíveis, completei o tanque, calibrei os pneus e tomei três cuias de mate enquanto ouvia os colegas jornalistas alertarem no noticiário do rádio que as chuvas e ventos que estavam chegando eram “turbinados” pelo El Niño, um fenômeno climático natural que acontece devido ao aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Embora os primeiros registros do El Niño datem do século 16, meteorologistas afirmam que seus efeitos, entre eles a ocorrência de chuvas acima da média no sul do Brasil, vêm sendo intensificados pelas mudanças climáticas. Ao ouvir a explicação dos colegas sobre o El Niño lembrei-me daqueles plantões de finais de semana na redação em que não acontecia nada importante e para preencher as páginas vazias se recorria a assuntos menos relevantes, e ainda acrescentando explicações desnecessárias para “espichar” a matéria. Como se diz no interior gaúcho: “a notícia entrou por um ouvido e saiu pelo outro”. Saí do posto de combustíveis e 45 minutos depois estava rodando pela BR-386.

Foram tranquilos os primeiros 136 quilômetros entre Porto Alegre e Marques de Souza, pequena cidade agrícola nas proximidades de Lajeado. Nesse trecho, a estrada é duplicada e caía uma chuva mansa. As coisas começaram a se complicar quando iniciei a subida de sete quilômetros da íngreme Serra de Soledade. Nessa época do ano são frequentes os nevoeiros naquele ponto. No cume da serra fica Pouso Novo, outra pequena cidade agrícola, que estava encoberta pela neblina. Mas já enfrentei situações piores na estrada. Liguei o pisca-alerta e segui atrás de um caminhão. O caminhão entrou no estacionamento de um restaurante e fui em frente. Meu objetivo era parar e comer alguma coisa em Soledade, que fica a 60 quilômetros de Pouso Novo. O que aconteceu na meia hora seguinte eu nunca vou esquecer. Dissipado o nevoeiro, começou a cair uma chuva de pingos grandes que faziam um som semelhante a granizo quando batiam na lataria do carro. A intensidade da chuva logo criou uma camada de água no asfalto. Reduzi ainda mais a velocidade para o carro não aquaplanar. Naquele trecho da rodovia a pista é simples e os caminhões jogavam muita água sobre os veículos que se deslocavam em sentido contrário. Apesar das dificuldades causadas pelo volume da chuva, vinha mantendo sem problemas o controle do carro, um veículo pequeno. Só não estava preparado (e ainda estou processado na minha cabeça) para o que aconteceu a seguir. De uma hora para outra, começou um vento muito forte vindo da direita para esquerda que fez todo o carro balançar. A minha preocupação era com a real possibilidade do vento me empurrar para a pista contrária e eu ficar de frente com uma carreta. Lembrei-me da notícia que ouvira dias atrás, de que um vento muito forte havia tombado duas carretas que estavam paradas à espera de carga em Nova Santa Rita, cidade na Região Metropolitana de Porto Alegre. Pensei: eu, em um carro pequeno, sozinho e com pouca bagagem, seria levado pelo vento com uma pena. Lembrei-me então de uma reportagem que fiz explicando que o vento forte que corre dentro de uma tempestade passa por um corredor destruindo tudo que encontra pela frente. Eu estava no meio do tal corredor. Só restava torcer para que fosse estreito e eu conseguisse chegar do outro lado antes de ser arremessado na pista contrária. Consegui atravessar e o vento parou de balançar o carro. Não sei com exatidão o tempo que fiquei no meio do vento. Pareceu ser uma eternidade. Consegui sair vivo para contar a história. Vou conversar com meteorologistas para saber exatamente do que escapei.

Para terminar a história. O resto da viagem foi tranquilo. As chuvas que se iniciaram no domingo (27) no Rio Grande do Sul entraram semana adentro, provocando inundações que atingiram 17 cidades e 9 mil pessoas nas regiões norte e nordeste. As viagens que fiz em 2024 para o livro das benzedeiras foram uma barra devido as enchentes. Mas foram apavorantes os inéditos momentos que passei quando foi pego no corredor de vento de uma tempestade turbinada pelo El Niño.

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