
Assisti no domingo (18) ao debate na Band entre o senador Flávio Bolsonaro (PL), 45 anos, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que concorrem no segundo turno das eleições presidenciais, no próximo fim de semana. O debate teve a maior audiência da televisão brasileira na noite de domingo. No auge (entre 20h16min e 22h10min), registrou 5,39 milhões de aparelhos conectados simultaneamente à transmissão. A imprensa está fazendo uma cobertura muito completa sobre o que aconteceu no debate. Adiantou que nenhum dos candidatos falou novidades, apenas citaram manchetes publicadas nos jornais. Vamos conversar sobre um detalhe que acredito irá se repetir no debate que os dois candidatos terão na Rede Globo, na próxima sexta-feira (23), com início às 21h20min, logo após o Jornal Nacional.
Vamos a nossa conversa. Vou falar sobre um detalhe que observei durante o debate na Band que merece ser esmiuçado para os leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Antes vou dar uma explicação que julgo necessária. Durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019 – 2022) nunca dei muita atenção para o seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro. Sabia do seu envolvimento com um esquema de “rachadinha” (um parlamentar fica com parte do salário dos funcionários do seu gabinete) quando era deputado estadual no Rio de Janeiro e algumas outras histórias que foram fartamente noticiadas pelos jornais. Candidato natural à Presidência da República, Bolsonaro, o pai, está duplamente impedido de concorrer: o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já havia o tornando inelegível até 2030 e posteriormente a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal o condenou a 27 anos de prisão por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado – para saber toda a história basta “dar um Google”. No final de 2025, quando o ex-presidente indicou Flávio para substituí-lo na disputa com Lula, logicamente aumentou o meu interesse sobre o senador. Mas foi mais por curiosidade, para saber no iria dar a indicação. Poucos apostavam na sobrevivência da candidatura de Flávio. Ele não era o preferido nem da maioria dos caciques bolsonaristas nem de outros setores da sociedade que fazem oposição a Lula. Apesar de toda a torcida e pressão contrária, o senador conseguiu consolidar a candidatura ao chegar a um empate técnico com Lula nas pesquisas de intenção de votos. Em maio, no entanto, sofreu um revés. O site The Intercept Brasil publicou uma reportagem revelando conversas suas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, 43 anos, do Banco Master, que está preso por golpes no mercado financeiro e tráfico de influência. Áudios revelados pela reportagem mostravam Flávio cobrando de Vorcaro o pagamento de parcelas atrasadas de um valor total de US$ 24 milhões (na época, cerca de R$ 134 milhões) com os quais o ex-banqueiro teria se comprometido para o financiamento do filme Dark Horse, o Azarão, que conta os bastidores da campanha que elegeu Bolsonaro presidente em 2018. As parcelas que Vorcaro tinha pago somavam US$ 12,3 milhões (R$ 65 milhões). No final de 2025, o Master foi liquidado extrajudicial pelo Banco Central (BC) e Vorcaro foi preso preventivamente por uma fraude financeira de R$ 50 bilhões. O envolvimento do senador com “Caso Vorcaro, do Banco Master” surpreendeu até os aliados mais próximos do seu pai. E resultou em uma queda de 10% nas pesquisas de intenção de votos. Nas semanas seguintes, ganhou corpo a conversa de que seria substituído como candidato do bolsonarismo. Aqui aconteceu um episódio que chamou a minha atenção sobre Flávio e que ele usou no debate com Lula.
Ele montou uma versão da sua relação com Vorcaro que pode ser assim descrita: foi uma simples operação financeira com um estabelecimento comercial. Durante dois meses, sempre que era indagado pelos jornalistas sobre o assunto Master, Flávio dava a mesma resposta e em seguida introduzia na entrevista um tema completamente diferente. Usando essa técnica, conseguiu reverter a situação e aos poucos voltou a empatar com Lula nas pesquisas. Na época, me chamou a atenção a veemência usada pelo senador para defender a sua versão sobre qualquer assunto. Trata-se de uma técnica muito antiga. E que foi ressuscitada e recauchutada pelo americano Steve Bannon, 72 anos, um estrategista político que comandou a campanha eleitoral que elegeu o presidente Donald Trump (republicano), 80 anos, para o seu primeiro mandato, em 2016. Lembro que, durante aquela campanha, Trump respondia às perguntas dos jornalistas fazendo outra, sobre um assunto que não tinha nada a ver com o que fora perguntado. No Brasil, em 2018, Bolsonaro usou a mesma técnica de Trump. E Flávio a repetiu no debate da Band. Mas com uma diferença: sua veemência o torna mais convincente que o pai e Trump. Por ter trabalhado em redação de jornal durante 40 dos meus 50 anos na lida de repórter, tenho espalhados pelos sertões do Brasil colegas com quem, de tempos em tempos, troco umas ideias. Algumas semanas antes do primeiro turno das eleições falei com dois deles. Argumentei que a maneira como Flávio defendia a sua versão dos fatos podia fazer a diferença. As pesquisas eleitorais na época davam uma pequena vantagem a Lula no primeiro turno e ele acabou perdendo por 2 milhões de votos. No primeiro bloco do debate da Band, o senador conseguiu encurralar Lula usando a técnica de responder uma pergunta com outra sobre um assunto diferente somada a uma boa dose de deboche. O presidente é um debatedor experiente e quando percebeu o que estava acontecendo reagiu e equilibrou o jogo. Flávio fez uma pergunta: “Você pode explicar por que 73% dos presidiários votaram em você?” Lula respondeu: “Eu quero que vote 100%, até o teu pai”. E acrescentou: “Ele (o ex-presidente Bolsonaro) conhece e sabe que sou melhor que você. Bolsonaro, vote em mim. Você conhece o teu filho, você sabe que sou melhor…”. Disse que entregaria ao TSE uma autorização para a quebra dos seus sigilos (dele e da família) bancário e telefônico. E desafiou o senador a fazer a mesma coisa.
Para terminar a nossa conversa. Nos dias atuais, Bannon é um importante articulador da extrema direita ao redor do mundo. A rigor, Flávio e Lula estão empatados na disputa do segundo turno. Portanto, cada voto importa. Os debates da Band e da Globo certamente terão peso nessa escolha. Como tenho dito: ganhará quem contar a melhor história.