
Na longa história da disputa política entre a esquerda e a direita pelas cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado, no atual momento a temperatura atingiu o seu nível mais elevado. Por conta do resultado do primeiro turno das eleições, que aconteceram no último domingo (4). A direita ganhou de lavada e a partir do próximo ano terá ampla maioria nas duas casas legislativas, o que significa que poderá aprovar emendas mudando a Constituição. Escrevi sobre o assunto no post publicado terça-feira (6) A imprensa e os bastidores da disputa final entre Lula e Flávio, que assim resumo: “Na próxima legislatura, a maior bancada da Câmara, com 121 dos 513 deputados, será do PL, partido do ex-presidente da República Jair Bolsonaro, 71 anos. No Senado, entre os 81 senadores, 28 serão do PL. Somando os aliados em outros partidos, o bloco bolsonarista poderá ter perto de 280 deputados e 49 senadores”. A eleição presidencial será decidida no segundo turno, no próximo dia 25. O primeiro turno foi vencido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, filho mais velho do ex-presidente. Ele fez 47,10% dos votos válidos contra 45,08% do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que concorre à reeleição. Uma diferença de 2 milhões de votos.
Para o segundo turno, a diferença entre ambos segue apertada, mostram as primeiras pesquisas de intenção de votos divulgadas na quinta-feira (8). Segundo o DataFolha, Flávio tem 52% dos votos válidos contra 48% de Lula, enquanto o PoderData mostra o senador com 53% contra 47% do presidente. Independentemente de quem vencer, deputados e senadores têm as suas próprias pautas. E a prioridade, neste momento, é a eleição dos presidentes das duas casas. Na Câmara, o atual presidente, Hugo Motta (Republicanos-PB), 37 anos, pode se candidatar à reeleição, mas é pouco provável que ganhe. Também é improvável que o presidente do Senado, David Alcolumbre (União-AP), 47 anos, seja reconduzido ao posto. Aliás, segundo previsões dos seus adversários, Alcolumbre corre risco de não se reeleger em 2030. As duas eleições ocorrerão na abertura das novas legislaturas, em 1º de fevereiro de 2027. Na quarta-feira (7), a principal manchete dos noticiários era uma declaração do vencedor do primeiro turno da corrida presidencial, que pode ser assim resumida: “Flávio Bolsonaro falou em mudar a Constituição para redemocratizar o país”. O senador tocou em uma ferida aberta pelo golpe de estado de 1964, quando militares de alta patente, apoiados pela extrema direita e protegidos pelos Estados Unidos, derrubaram o então presidente João Goulart e instalaram uma ditadura que durou 21 anos. Em 1988, o país foi redemocratizado com a publicação de uma nova Constituição. Para que isso acontecesse, muita gente morreu, foi torturada e perdeu seus empregos confrontando a regime militar. Esse foi o principal motivo que levou a turma do “deixa disso” vir a público explicar que Flávio estava se referindo apenas a pautas específicas, como mudanças no sistema judiciário, redução da maioridade penal e o fim da reeleição para presidente. Um ponto que parece inegociável para os bolsonaristas é o impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, 57 anos. Ele foi o relator na Primeira Turma do STF que julgou o ex-presidente Bolsonaro e seus seguidores pela tentativa de golpe de estado ocorrida entre o final de 2022 e 8 de janeiro de 2023. Naquele dia, centenas de pessoas que estavam acampadas na frente de unidades militares em Brasília (DF), pedindo que os generais impedissem a posse de Lula, marcharam até a Praça dos Três Poderes e quebraram tudo que encontraram pela frente no Palácio do Planalto, no STF e no Congresso.
Os eleitos só tomam posse no próximo ano. Mas, pelo volume das conversas, parece que já foram empossados. Pelas avaliações, se Lula ganhar a eleição terá sérias dificuldades para lidar com a Câmara e o Senado. Se Flávio ganhar também terá problemas. Vou citar um deles por considerá-lo muito importante. É o seguinte. Durante o governo Bolsonaro (2019 – 2022), a fiscalização ambiental foi desarticulada, o que, entre outras consequências, resultou na invasão de garimpeiros clandestinos a áreas indígenas da Floresta Amazônica – há muito material a respeito na internet. Os responsáveis pelos garimpos têm influência entre os seguidores do ex-presidente. E esperam que, caso Flávio ganhe a eleição, a fiscalização ambiental seja desmantelada novamente. Por outro lado, se Flávio ceder à pressão dos garimpeiros causará enormes prejuízos econômicos a outro grupo de seus apoiadores, os agropecuaristas. Por quê? O Brasil faz parte do Mercosul, o bloco econômico de países sul-americanos. No início deste ano, após mais de duas décadas de negociações, o Mercosul e a União Europeia (UE), que é formada por 27 países, fecharam um acordo comercial que tem regras muito rígidas quanto à proteção do meio ambiente. Se o Brasil relaxar a fiscalização ambiental para beneficiar o garimpo, o bloco europeu pode suspender a compra de carnes, aves e outros itens agrícolas dos produtores nacionais. É simples assim a situação. Aqui quero fazer um comentário que julgo importante sobre o perfil das bancadas da Câmara e do Senado que foram eleitas pelo prestígio político de Jair Bolsonaro em 2018 e 2022 e os eleitos em 2026. Os parlamentares de 2018 e 2022 são mais radicais, tanto que fazem parte de um grupo que foi apelidado pela imprensa de “bolsonaristas raiz”. Os atuais são mais jovens e a maioria tem a sua origem nas redes sociais. Todos, porém, sabem que para ser bolsonarista é preciso seguir as normas do ex-presidente, que assim podem ser resumidas: “Ele manda, os outros obedecem!”. Quem desobedecer está fora.
Arrematando a nossa conversa. Há muita especulação entre nós repórteres sobre qual será o destino dessa nova geração de políticos gerada pela internet. Lembro que até pouco tempo atrás os parlamentares nasciam da sua atuação em movimentos sociais. Hoje, nasce nas postagens que fazem nas redes sociais. Digo que precisamos de mais tempo para especular para que lado vai a disputa política.