
Sempre que um jogo está empatado, costumamos dizer que ele pode terminar com qualquer resultado. Por que seria diferente na disputa pela Presidência da República? Temos que esperar o final do “jogo” entre o senador Flávio Bolsonaro (PL), 45 anos, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, para saber quem será o próximo ocupante do Palácio do Planalto. Estou me referindo ao que aconteceu no primeiro turno das eleições presidenciais, realizado no último domingo (4). No sábado (3), segundo pesquisas de intenção de votos de cinco institutos, Lula tinha uma pequena vantagem sobre Flávio no primeiro turno. No segundo turno, eles estavam tecnicamente empatados. Na noite de domingo, ao final da contagem dos votos, a vantagem de Lula indicada nas pesquisas não se confirmou. Flávio fez 47,10% dos votos válidos e Lula, 45,08%. Uma diferença 2,02 milhões de votos a favor do senador. Essa situação ainda não está resolvida. Vai se resolver dentro de três semanas, no dia 25, quando acontecerá o segundo turno. O assunto é acompanhado online pela imprensa.
Não vou cansar a leitor desfilando teses sobre a possibilidade de Lula virar a eleição ou de Flávio aumentar a sua vantagem. A cobertura diária da imprensa está fazendo isso de maneira muito eficiente. Prefiro falar sobre assuntos que foram colocados pelas eleições. Um deles é enorme peso político que terão os 20 governadores eleitos no primeiro turno. Sendo que 11 deles apoiaram Flávio. Vou citar uma dessas disputas para governador que acompanhei de perto: a do Rio Grande do Sul, vencida já no primeiro turno pelo deputado federal Luciano Zucco (PL), com 58,02% dos votos válidos. Figura de peso do bolsonarismo gaúcho, Zucco polarizou a campanha com Juliana Brizola (PDT), 51 anos, neta do ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro Leonel de Moura Brizola (1922 – 2004), nome histórico do antigo PTB, líder da Legalidade, um movimento político que em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros, garantiu a pose do vice João Goulart na Presidência da República contra a vontade das Forças Armadas. Sete candidatos disputaram o governo gaúcho. Assisti à maioria das entrevistas de Zucco sobre as suas intenções na condução da administração do Estado. Por tudo que ouvi, li e vi, temos que esperar para saber como as coisas realmente vão funcionar. Essa é uma lição que os repórteres brasileiros aprenderam durante o governo (2019 – 2022) do presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ), 71 anos. que ficou registrado em vídeos, fotos e documentos como o relatório final de 1,2 mil páginas elaborado pela Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado da Covid-19, a CPI da Covid. Em síntese, os senadores encontraram as digitais do governo Bolsonaro nas 700 mil mortes de brasileiros pelo vírus da Covid. Há também os relatórios das investigações da Polícia Federal (PF) sobre a tentativa de golpe de estado que envolveu o ex-presidente e mais de 1,3 mil dos seus seguidores no final de 2022 e em 8 de janeiro de 2023. Naquele dia, centenas de bolsonaristas que estavam acampados na frente de unidades militares reivindicando um golpe de estado marcharam em direção à Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF), e quebraram tudo que encontraram pela frente no Palácio do Planalto, no Congresso e no Supremo Tribunal Federal (STF).
Antes de ser julgado e condenado pela Primeira Turma do STF a 27 anos de prisão pelo envolvimento na tentativa de golpe, Bolsonaro disse aos seus seguidores que o objetivo maior das eleições de 2026 era conseguir maioria no Senado e na Câmara dos Deputados. Conseguiu. Na próxima legislatura, a maior bancada da Câmara, com 121 dos 513 deputados, será do PL, o partido do ex-presidente. No Senado, entre os 81 senadores, 28 serão do PL. Somando os aliados em outros partidos, o bloco bolsonarista poderá ter perto de 280 deputados e 49 senadores. Esses números facilitam o andamento de pautas defendidas pelos seguidores do ex-presidente, como a cassação de ministros do STF. Aqui quero fazer uma reflexão com os meus colegas repórteres. Seja qual for o arranjo político que será feito na Câmara e no Senado com a posse dos parlamentares eleitos em 2026, a imprensa estará atenta aos acontecimentos. A liberdade de imprensa garantida pela Constituição de 1988 ressuscitou no Brasil um importante instrumento de fiscalização. Quando comecei a trabalhar como repórter, em 1979, não existia liberdade de imprensa. Importantes oficiais das Forças Armadas, aliados com a extrema direita brasileira e protegidos pelo governo dos Estados Unidos, haviam dado um golpe de estado em 1964 e instalado uma ditadura que durante 21 anos deixou um rastro de perseguições políticas, torturas, mortes e desaparecimentos, além de uma bagunça na economia que causou a hiperinflação. Particularmente, não acredito que os bolsonaristas vão enfiar as suas pautas garganta abaixo dos colegas na Câmara e no Senado. Creio que vão negociar. Por quê? Simples, o Brasil não é uma “República de Bananas”, termo pejorativo que a imprensa usava para descrever países instáveis, subdesenvolvidos e com governos corruptos ou submissos a interesses de potências e empresas estrangeiras. O Brasil é um país industrializado, está entre as 10 maiores economias do planeta e tem acordos comerciais com o mundo inteiro, especialmente na área do agronegócio, que é regido por severas regras sanitárias, ambientais e políticas. Portanto, um ambiente de confusão pode trazer sérios problemas econômicos.
Para arrematar a nossa conversa. O blefe faz parte do jogo político. Portanto, a conversa que circula nas redes sociais sobre o que vai acontecer agora precisa ser analisada com muito cuidado. O ex-presidente Bolsonaro simplificou muito a situação dizendo que ter maioria parlamentar abriria portas para mudanças estruturais nos poderes da República. A coisa não é tão simples assim. Vai precisar de muita conversa para encaminhar as negociações. É assim que funcionam as coisas em Brasília. A imprensa precisa ficar atenta aos bastidores do capítulo final na disputa entre Lula e Flávio.