
Na segunda-feira (30), assisti atentamente ao discurso do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), 76 anos, depois de ter sido escolhido pelo presidente do seu partido, Gilberto Kassab, 65 anos, para ser o candidato à Presidência da República nas eleições de outubro. Se a cúpula do bolsonarismo esperava um discurso bajulando o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que cumpre pena de 27 anos de prisão por ter se envolvido na tentativa de um golpe de estado, se decepcionou. Ele deixou claro que não vai entrar na disputa para cumprir o papel desempenhado nas eleições de 2022 pelo padre Kelmon. Na ocasião, Kelmon Luis Souza (PTB), 49 anos, um dos 11 candidatos que disputavam o primeiro turno, fez o “serviço sujo” para Bolsonaro, que buscava a reeleição. Nos debates na TV, tentava fazer o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, 80 anos, perder o controle emocional. Provocou tanto que em um dos debates a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), 52 anos, perdeu a paciência e o chamou de “padre de festa junina” – a história toda está disponível na internet. Padre Kelmon teve os seus 15 minutos de fama. Lula não perdeu a calma e ganhou a eleição no segundo turno. Inconformados com o resultado das urnas, Bolsonaro e seus seguidores planejaram um golpe de estado para impedir que Lula assumisse o governo. Foram todos presos.
Não é intenção de Caiado ser o “puxadinho” de Flávio Bolsonaro (PL), 44 anos, o filho mais velho do ex-presidente, por ele escolhido para substituí-lo na corrida presidencial de 2026. Foi o que disse com todas as letras em seu discurso, que foi muito bem organizado. Caiado vai tentar derrubar Flávio e depois vencer Lula porque acredita que o seu currículo político o credencia para tal tarefa. Não veio para ser a terceira via tão esperada pela imprensa e alguns outros segmentos da sociedade. Veio para assumir o controle das forças políticas que apoiaram Bolsonaro em 2018. No seu discurso, prometeu à extrema direita bolsonarista que vai anistiar os presos que tentaram dar o golpe, incluindo o ex-presidente. Sobre as grandes questões nacionais, como a segurança pública, ofereceu o modelo que implantou em Goiás e que baixou as taxas da criminalidade. Ao PT, avisou que fará um governo tão competente que varrerá os petistas das futuras disputas presidenciais. Ao senador Flávio, avisou que se aprende a governar vencendo uma série de barreiras. E não sentando na cadeira de presidente sem nunca antes ter sido um administrador. Recado mais claro, impossível. Aqui é o seguinte. Caiado lembrou a sua história de comprometimento com os valores da direita democrática sem fechar os olhos para a realidade atual, em que o extremismo bolsonarista vem dando as cartas. Quais as suas chances nesta disputa? Mínimas. A última pesquisa do Instituto Paraná para o primeiro turno das eleições presidenciais, feita no final de março, mostrou Lula com 41,3% das intenções de voto, Flávio com 37,8% e Caiado com 3,6%. Faltam seis meses para o primeiro turno, em 5 de outubro. Na opinião de muitos analistas, só por um milagre Caiado conseguirá encostar em Flávio. A equipe de Caiado acredita que o milagre esteja na trajetória dos dois candidatos. O ex-presidente Bolsonaro é um capitão reformado do Exército que tem um histórico complicado na caserna – matérias na internet. A grande fonte de renda da família Bolsonaro é o serviço público, incluindo o senador. Flávio se elegeu para o Senado na carona do nome do pai.
Caiado vem de uma família tradicional na política do interior de Goiás. Formou-se médico e, na década de 80, aproveitou a efervescência provocada pela redemocratização do país e reorganizou a direita no meio rural, num momento em que os grandes proprietários de terra eram acuados pelos agricultores pobres que lutavam pela reforma agrária e formaram o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Caiado criou a União Democrática Ruralista (UDR), organizando os fazendeiros para enfrentar o MST. Na década de 90, a questão agrária foi equacionada pelo governo federal e saiu das manchetes. Ele aproveitou a visibilidade que a UDR lhe deu e construiu uma bem-sucedida carreira política como parlamentar e no governo de Goiás. Inclusive, em 1989, foi um dos 22 candidatos que concorreram à Presidência da República. Ficou em 10º lugar, fazendo 488.872 votos, representando 0,68% dos votos válidos. Agora, 37 anos depois, tenta novamente ser presidente do Brasil. Lembram que citei que Caiado tinha organizado os grandes proprietários de terra? Pois bem. Nos dias atuais muitos deles fazem parte do “andar de cima” do agronegócio. Aqui o seguinte: muito embora a imprensa descreva o agronegócio como se fosse uma coisa só, ele não é. Divide-se entre grandes, médios e pequenos proprietários envolvidos na produção de grãos, carnes, frutas, verduras e outros produtos. Caiado acredita que o “andar de cima” do agronegócio pode ajudá-lo, porque tem votos e dinheiro para investir numa campanha eleitoral. Tenho as minhas dúvidas. Em 2019, um ano depois da eleição de Bolsonaro, andei pelo Centro-Oeste e pude ver a grandiosidade da influência do bolsonarismo na região. Mas a situação mudou. Bolsonaro agora é ex-presidente. Caiado tem identificação cultural e econômica com os produtores rurais. Fato é o seguinte: até saírem os resultados das próximas pesquisas eleitorais, o adversário de Flávio não é Lula. É Caiado.
Para finalizar a nossa conversa. O ex-governador de Goiás ainda tem mais um fato a seu favor na busca pelos votos de Flávio. Ele lutou contra a Covid. Durante a pandemia, o então presidente Bolsonaro negou o poder de letalidade e contágio do vírus e fez de tudo para boicotar as medidas sanitárias que tentavam evitar o alastramento da doença. Muita gente, incluindo eleitores bolsonaristas, perdeu parentes, amigos e vizinhos para a Covid. Hoje ainda há um contingente significativo desses eleitores descontentes com a atuação do ex-presidente. Toda a história é contada nas 1,3 mil páginas do relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado sobre a Covid-19, a CPI da Covid. O relatório está com o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). Como disse, saberemos o fim dessa história a partir das próximas pesquisas eleitorais.