
Nos anos 70 existia uma frase que circulava nas redações: “A montanha pariu um rato”, um dito popular que se usava quando uma pauta que começava cercada de grande expectativa no final da apuração rendia apenas uma pequena nota publicada em um canto esquecido do jornal. Pensei nessa história na quinta-feira (21), quando a Policia Federal (PF) recusou a delação premiada de Daniel Vorcaro, 42 anos, o ex-dono do Banco Master, que teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central. Vorcaro cumpre prisão preventiva, acusado de ter operado um sistema de fraudes que deu um prejuízo de R$ 50 bilhões aos clientes do banco e ao sistema financeiro nacional. No final do ano passado, quando estourou o escândalo do Master, os agentes da PF descobriram que Vorcaro tinha montado, ao seu redor, uma “rede de proteção” composta de parlamentares, funcionários federais, milicianos digitais e muita gente do “andar de cima”, que participavam das suas festas milionárias e voavam nos seus jatinhos particulares. Um dos objetivos da rede era passar, a quem tivesse a intenção de acabar com as suas atividades ilegais, um recado do tipo: “Olha quem são os meus amigos”. Tratei do assunto em março, no post A imprensa, a delação de Vorcaro e quem era quem na rede proteção do Master.
A história do Banco Master conhecida pela PF é aquela contada pelas provas descobertas na investigação policial. Daí ter alegado três motivos para não ter aceito a delação do ex-banqueiro. O primeiro é a omissão de informações importantes com o objetivo de blindar nomes dos seus aliados em Brasília. O segundo é que a delação não trouxe novidades. E, por último, não houve avanço na devolução dos bilhões desaparecidos. Vou citar dois casos em que Vorcaro não deu os devidos esclarecimentos na sua delação. O pagamento de uma mesada de R$ 500 mil para o senador Ciro Nogueira (PP-PI), 57 anos. E a matéria publicada no site The Intercept Brasil, revelando que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, ligou para Vorcaro cobrando parcelas atrasadas de uma doação de R$ 134 milhões que tinha prometido para a produção do filme Dark Horse, o Azarão, que conta a trajetória do seu pai, o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos. Em 2025, Vorcaro repassou R$ 61 milhões para o filme e parou de pagar as parcelas. Bolsonaro cumpre pena de 27 anos de prisão por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado e indicou o filho Flávio para substituí-lo na disputa presidencial. Ele é, até agora, o nome mais forte para competir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que concorre à reeleição. Flávio e Lula estavam tecnicamente empatados nas pesquisas de intenção de votos. Depois divulgação das suas conversas com o ex-dono do Master sobre as parcelas atrasadas, o senador perdeu, em média, cinco pontos nas pesquisas – matérias na internet. Vou lembrar o seguinte. Logo que o escândalo do Master começou a ser destrinchado pela imprensa, o comentário que mais ouvi era de que, caso Vorcaro resolvesse fazer uma delação premiada, não ficaria pedra sobre pedra em Brasília. Nada disso aconteceu. O que houve? Para responder a essa pergunta é necessário tirar a limpo como realmente funcionava a “rede de proteção” em torno do ex-banqueiro. E encontrar a fronteira entre a fantasia e a realidade dos fatos. Aprendi que o fato de alguém participar de uma “boca livre” não significa que esteja na lista de protetores do dono da festa. Lembro que, nos anos 90, fiz uma matéria investigativa sobre o jogo do bicho. Na época, precisei sair batendo de porta em porta porque não existiam informações confiáveis sobre quem era quem na contravenção. É opinião entre os investigadores que Vorcaro acredita que ainda detém o controle da situação. O fato dele não ter dado as informações que a PF queria na delação premiada é um recado para alguém? Essa é uma das muitas pontas soltas nessa história.
Andei conversando com colegas repórteres sobre o destino do caso Master. É crença geral entre eles que a PF não encerrou o caso da delação premiada de Vorcaro. Está pressionando para que conte a verdadeira história do Master, que só ele sabe. Os agentes não têm mais tempo para ficar ouvindo “histórias da carochinha”. Eles sabem que há muitas coisas no caso que só Vorcaro pode esclarecer. Por exemplo, o Master começou a operar em 2019 com uma proposta de negócio audaciosa, prometendo aos aplicadores ganhos acima do mercado. A pergunta aqui é a seguinte. Eles perderam o controle da situação e começaram a maquiar as aplicações ou já começaram a operar em 2019 com um esquema ilegal? É fundamental esclarecer esse ponto. Uma coisa é uma operação financeira de alto risco, que faz parte do jogo. Outra coisa é uma operação ilegal. As operações feitas pelo Master, como maquiagem de “papéis podres”, exigem um conhecimento profundo de como as coisas funcionam no mercado de capitais. Vorcaro tem esse conhecimento ou foi assessorado para descobrir as falhas do sistema e usá-las a seu favor? Até hoje, os policiais federais não sabem onde foram parar os bilhões que desapareceram no Master. Conversei com um especialista no assunto, ele me disse que nos dias atuais é possível manter o dinheiro circulando ao redor do mundo sem deixar rastros. Para nós repórteres é importante saber como operava o Banco Master. É nossa tarefa alertar os leitores sobre o assunto para evitar que caiam em armadilhas. Grosso modo, sabemos que quando a casa começou a cair o Master iniciou uma corrida aos fundos de pensão – matérias na internet. Há coisas que aconteceram dentro do banco que não ficaram registradas em lugar nenhum e que só Vorcaro pode esclarecer. E para evitar que tal prática se repita é necessário saber como ela funciona.
Vorcaro agora vai tentar negociar uma delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR). Se ele não contou a história toda para a PF, por que contaria para a PGR? É preciso esperar para responder à pergunta. Existe a hipótese de que esteja tentando ganhar tempo, à espera de um milagre, como me disse um colega que escreve sobre economia. O fato é que as pessoas ao seu redor estão ficando escassas. Ele está só nessa parada. Qual é a versão de Vorcaro da história do Banco Master?