
Não era a minha intenção falar sobre a partida entre as seleções da Argentina e da Inglaterra, que na tarde de quarta-feira (15) decidiram uma das vagas na final da Copa do Mundo Fifa 2026. Meu interesse no torneio esfriou no início do mês (domingo, dia 5), quando, pelas oitavas de final, a Seleção Brasileira perdeu para a Noruega por 2 a 1 e voltou para casa. Não comecei a olhar o jogo de argentinos e ingleses como repórter. Mas como “secador” da Argentina. Inclusive, pretendia publicar um texto sobre a disputa pela Presidência da República em outubro, que está polarizada entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que concorre à reeleição. Deixei de ser “secador” nos primeiros minutos da partida e comecei a olhar o jogo como repórter quando fui lembrado por um amigo de longa data, também repórter, que toda a mídia estava interessada em saber que influência teria entre as torcidas e atletas a Guerra das Malvinas, um conflito bélico que conflagrou o Atlântico Sul entre os meses de abril e junho de 1982 e envolveu as Forças Armadas da Argentina e do Reino Unido (formado pela Inglaterra e outros três países). Em disputa estava a soberania de um arquipélago cuja posse pertence aos britânicos desde 1833, mas que desde então é reclamado pela Argentina como parte do seu território. Os argentinos chamam o arquipélago de Ilhas Malvinas e os ingleses, de Falklands. Vamos conversar sobre o assunto.
A Guerra das Malvinas deixou 904 soldados mortos (649 argentinos e 255 britânicos ). O ponto alto do acirramento entre as duas torcidas aconteceu na Copa de 1986, no México, quando a Argentina foi bicampeã. Nas quartas de final, os argentinos ganharam de 2 a 1 dos ingleses. Os dois gols argentinos foram marcados pelo craque Diego Maradona (1960 – 2020 ). Um deles, Maradona marcou com a mão e depois chamou o lance de “A Mão de Deus”. O outro, em que ele driblou meio time da Inglaterra, ficou conhecido como o “Gol do Século”. Achei que a imprensa estava exagerando na valorização da lembrança das Malvinas, um episódio que aconteceu há 44 anos. O meu amigo me sugeriu ler os textos em que a vice-presidente da Argentina, Victoria Villarruel, 51 anos, falava sobre o assunto. Segundo os jornais, antes da partida ela publicou na sua rede social X: “Não vou ser politicamente correta nem peito frio, contra os ingleses sempre é algo mais. São as Malvinas, é o Diego, é a última de Leo e é botar freio nos invasores”. Ela é filha do tenente-coronel do Exército argentino Eduardo Marcelo Villarruel (1947 – 2021), veterano das Malvinas e prisioneiro de guerra dos ingleses. A vice é conservadora e simpática aos oficiais que deram o golpe militar na Argentina (1976 – 1983), deixando um rastro de 30 mil mortos e desaparecidos. Ao contrário de outros países que sofreram com ditaduras militares naquela época, como o Brasil, os golpistas argentinos foram julgados, condenados e presos. A Guerra das Malvinas foi uma distração que os generais criaram para permanecer no poder – há matérias sobre o assunto. Toda essa história voltou à tona em 2023, quando Victoria Villaruel se elegeu vice-presidente de Javier Milei, 55 anos, um político descrito de várias formas, que é aliado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 80 anos. Depois de tomar conhecimento das declarações da vice, eu entendi os motivos pelos quais os técnicos da Argentina, Lionel Scaloni, 48 anos, e da Inglaterra, o alemão Thomas Tuchel, 52 anos, quando perguntados pelos repórteres sobre a influência da Guerra das Malvinas entre atletas e torcedores, respondiam: “É só uma partida de futebol”.
Não foi só uma partida de futebol. No início, o jogo mais parecia uma “luta de vale-tudo”. O árbitro, o americano Ismail Elfath, 44 anos, teve trabalho para manter a disputa dentro das regras. No segundo tempo, a história mudou. Aos 10 minutos, Anthony Gordon, 25 anos, fez o gol da Inglaterra. Minutos depois, o técnico Tuchel cometeu o que foi descrito pelos comentaristas como um “erro fatal”. Ele recuou o seu time e fez uma “retranca”. Até então, ingleses e argentinos disputavam cada centímetro do campo. Com o recuo dos ingleses, os argentinos ficaram com espaço livre para atacar. E foi o que fizeram o tempo todo. Aos 41 minutos, Enzo Fernández, 25 anos, empatou para a Argentina. E logo nos primeiros dos acréscimos Lautaro Martinez, 25 anos, marcou o segundo: final, 2 a 1. A Inglaterra vai disputar o terceiro lugar com a França e a Argentina decidirá a Copa do Mundo contra a Espanha. Como sempre digo quando escrevo sobre futebol. Sou um velho repórter, com 50 anos de lida, especializado em conflitos agrários, migrações e crime organizado nas fronteiras. Não entendo patavinas de futebol. Mas entendo de jornalismo e estratégia. Lionel Messi, 39 anos, foi novamente o grande cara na vitória argentina. Não só pelos seus dribles e passes precisos. Mas, principalmente, porque teve sangue-frio e cabeça no lugar para organizar os seus colegas durante os 60 minutos que os ingleses atacaram de maneira muito contundente a defesa dos argentinos. Ele soube liderar a reação argentina, que conseguiu virar o jogo em apenas sete minutos. As novas tecnologias na medicina, treinamento físico e alimentação são responsáveis pela longevidade de Messi no futebol. Na próxima Copa da Fifa, em 2030, ele estará com 43 anos. Então, cabe a pergunta. A Copa de 2026 é o “último tango” de Messi ou ainda o veremos em 2030, superando o português Cristiano Ronaldo, que se despediu da Seleção de Portugal na Copa de 2026 aos 41 anos?
Para arrematar a nossa conversa. Uso a expressão “último tango” no sentido de fim de um ciclo. Seja lá qual for o destino de Messi, ele já escreveu a sua história. A marca da Argentina na Copa da Fifa 2026 foi o comprometimento dos seus atletas com a camisa da Seleção. Claro que não foram os únicos no torneio. Mas se fizeram notar.