A imprensa e o comportamento de Trump nas eleições presidenciais do Brasil

A soma do “tarifaço” com a guerra do Irã bagunçou a economia mundial Foto: Reprodução

A rigor, a disputa eleitoral de 2026, especialmente para a Presidência da República, se iniciou no segundo seguinte ao que os eleitos no pleito de 2022 tomaram posse em seus mandatos, em janeiro de 2023. Oficialmente, ela começou no último sábado (25), com a indicação dos candidatos nas convenções nacionais dos partidos. Serão eleitos 513 deputados federais, 1.035 estaduais (sendo 24 distritais, no Distrito Federal), 54 senadores (dois terços do total de 81), 27 governadores e seus vices (26 estados e o Distrito Federal) e presidente e vice-presidente da República. O primeiro turno acontecerá no dia 4 de outubro e o segundo, no dia 25. Há 150 milhões de brasileiros aptos a votar. O cargo mais concorrido é o de presidente da República, disputado por 13 candidatos. Essa será a nona eleição presidencial depois da redemocratização do país, que aconteceu com a publicação da atual Constituição, em 5 de outubro de 1988. Vamos conversar sobre as diferenças entre a atual corrida presidencial e as oito anteriores.

Começo o nosso papo citando que políticos experientes têm ocupado espaços nobres na imprensa para afirmar que a polarização entre os dois principais candidatos é a marca registrada da atual campanha presidencial e se transformou em uma barreira para o surgimento e o crescimento de uma terceira via. Considero tal afirmação um exagero. Não estou dando uma opinião. Mas citando fatos. Os dois principais candidatos são o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos. Sou repórter há uns 50 anos, sendo que 40 passei em redação de jornal. Não sou especializado em política. Entendo de conflitos agrários, crime organizado na fronteira e migrações. E de jornalismo e estratégia. Lembro que desde a publicação da Constituição até 2018 o PT e o PSDB, do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, 95 anos, polarizaram a disputa política no Brasil. Em 2018, a situação mudou com o surgimento da candidatura de Jair Bolsonaro (PL), 71 anos, pai do senador Flávio. Ele se elegeu e assumiu o governo em 2019. No cargo, Bolsonaro poliu as suas ideias e articulações políticas aliando-se aos movimentos de extrema direita no mundo, que na época eram influenciados por Steve Bannon, 72 anos, um estrategista político americano que estava no auge depois de ter comandado, em 2016, a bem-sucedida campanha que elegeu Donald Trump (republicano), 80 anos, para o seu primeiro mandato presidencial (2017 – 2021). Dentro do ambiente democrático brasileiro, os excessos na disputa política são resolvidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Daí concluo que a polarização é do jogo. A grande incógnita nas eleições presidenciais de 2026 será o comportamento de Trump, que exerce o seu segundo mandato, iniciado em 20 de janeiro de 2025 – há farto material sobre o assunto disponível na internet. Se interferir, irá causar um grande problema. Faço a afirmação com base nos fatos que aconteceram durante a Guerra Fria (1947 – 1991), a disputa ideológica pelos corações e mentes da humanidade entre o capitalismo, liderado pelos Estados Unidos, e o socialismo, comandado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que teoricamente era uma federação de 15 países, mas na prática funcionava como um estado centralizado, controlado pela Rússia, a maior e mais poderosa dessas repúblicas. A URSS começou a se desintegrar no final dos anos 80, terminando por colapsar em 1989, com a queda do Muro de Berlim. Seu espólio político e de armas nucleares ficou com a Rússia.

Durante a Guerra Fria, para garantir a fidelidade política e econômica dos seus vizinhos, os Estados Unidos organizaram, financiaram e espalharam golpes militares que derrubaram governos eleitos na América do Sul. No Brasil, em 1964, os americanos se uniram aos militares e à extrema direita e depuseram o então presidente da República João Goulart (1919 – 1976), o Jango, do antigo PTB, gaúcho de São Borja, cidade na fronteira com a Argentina. De 1964 a 1985, os militares governaram o Brasil deixando um rastro de violência contra presos políticos, censura à imprensa e caos econômico que gerou a hiperinflação dos anos 80. Nas eleições de 2026, como vai ser a interferência de Trump? Ela já começou. Semanas depois de assumir o seu segundo mandato, ele decretou um “tarifaço” aos produtos exportados pelos demais países para o mercado consumidor americano. O Brasil recebeu a maior taxação, de 50%, mesmo sendo um dos únicos países com quem os Estados Unidos têm superávit na balança comercial. A questão ganhou contornos políticos quando Trump impôs como condição para negociar uma redução das tarifas aplicadas ao Brasil a anistia do ex-presidente Bolsonaro, que na época era réu num processo judicial que o acusava de estar envolvido em uma tentativa de golpe de estado. A anistia não rolou. Bolsonaro acabou sendo condenado a 27 anos de prisão. Mesmo assim, Trump e o presidente Lula acabaram se entendendo sobre as tarifas. Mas, em meados de julho, Trump voltou ao ataque e aplicou novas tarifas comerciais a diversos países. E mais uma vez o Brasil foi um dos mais penalizados, sofrendo um “duplo tarifaço” de 37,5% sobre os produtos que exporta para os americanos. Essa história ainda está rolando. O fato aqui é o seguinte. O governo Trump está usando o “tarifaço” como instrumento para reindustrializar os Estados Unidos, tentando levar de volta as fábricas que deixaram o país para se estabelecer em outros cantos do mundo, em busca de mão de obra barata. Respeitados economistas questionam a estratégia da reindustrialização. Aqui tem mais um fato. Em 28 de fevereiro, os Estados Unidos e seu aliado Israel começaram uma guerra contra o Irã. Era para ser uma “guerra relâmpago”, mas está se transformando em um atoleiro que resultou em um “abre e fecha” do Estreito de Ormuz, um estrangulamento de mar que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e é uma rota marítima estratégica para a economia mundial porque por ali passa diariamente 20% do petróleo consumido no mundo.

Arrematando a nossa conversa. O “tarifaço” e o sobe e desce no preço do petróleo provocado pela guerra do Irã está bagunçando a economia mundial. Essa confusão pode tornar a intervenção de Trump na disputa eleitoral brasileira “um tiro que sairá pela culatra”. No fim de semana, o presidente da Argentina, Javier Milei, 55 anos, aliado político do presidente americano, esteve na convenção do PL que indicou o senador Flávio candidato a presidente da República. Aos gritos, disparou palavrões e ofensas contra o presidente Lula e o ministro do STF Alexandre de Moraes, 57 anos. A cada dia Trump e os seus aliados aumentam a confusão ao redor do mundo. Como vai acabar essa história?

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