A imprensa, a Espanha conquista o mundo e o fim da era Messi na Seleção Argentina

“Amor à camiseta” foi a marca registrada dos jogadores argentinos Foto: Fifa/Divulgação

Assim que ficou decidido que o jogo final da Copa do Mundo da Fifa 2026 seria disputado entre Argentina e Espanha apostei as minhas fichas que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 80 anos, não ia assistir à partida no MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey, região metropolitana de Nova York, para evitar ser vaiado e xingado. Justifiquei a aposta citando dois motivos: o primeiro é que região é um reduto eleitoral dos democratas. E, segundo, porque Espanha e Argentina são países de língua espanhola, justamente o idioma da grande maioria dos imigrantes ilegais que são caçados diariamente nas cidades americanas pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). Vários ilegais já foram feridos e mortos. O mais recente, um colombiano de 26 anos, morreu na segunda-feira (13) baleado por agentes do ICE. Na lista dos mortos há dois americanos – material disponível na internet. A prisão e expulsão do território americano dos imigrantes ilegais é um dos mais antipáticos pilares da administração Trump. Perdi a aposta. Trump não só foi ao jogo como convidou as principais autoridades dos outros dois países anfitriões da Copa: a presidente do México, Cláudia Sheinbaum, 64 anos, e o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, 61 anos. Destes, só Trump foi vaiado quando a sua imagem apareceu nos telões do estádio e quando entregou a taça para a Espanha, que ganhou de 1 a 0 da Argentina.

Como Trump irá reagir às vaias saberemos nos próximos dias. Mas é certo que vai reagir porque não é de levar desaforo para casa. Teoricamente, o presidente dos Estados Unidos foi vaiado por estrangeiros dentro do seu país. Havia mais de 80 mil pessoas no estádio, a maioria do “andar de cima”, considerando que os ingressos para a final custaram entre US$ 7,4 mil a US$ 57 mil. O governo Trump vive um momento de baixa na sua popularidade, por vários motivos, todos eles descritos em detalhes pela imprensa. Abri a nossa conversa falando da vaia a Trump porque vi toda a partida pela televisão, bem com a entrega do troféu aos espanhóis. E na entrega da taça o rosto do presidente americano era de constrangimento. Acabei assistindo à maioria dos jogos da Copa do Mundo. Vou repetir. Tenho 75 anos, meio século na lida de repórter, sendo que 40 foram vividos em redação de jornal, e atualmente ando pelas estradas buscando boas histórias para contar. Sou especializado em conflitos agrários, migrações e crime organizado na fronteira. Não entendo patavina de futebol. Mas entendo de jornalismo e estratégia. O técnico da Espanha, o experiente Luis de La Fuente, 65 anos, armou uma estratégia simples, eficiente, e neutralizou o ataque argentino que tem como figura central Lionel Messi, 39 anos, um craque que não só faz gols e dá passes precisos para seus companheiros, mas que tem a cabeça fria e focada para organizar a reação e a defesa do time na hora que é necessário. O técnico argentino, Lionel Scaloni, 48 anos, em cada partida vinha organizando o time ao redor de Messi. No domingo, não funcionou e a Argentina só não foi goleada porque o seu goleiro, Emiliano Martinez, 33 anos, conhecido como Dibu, fechou o gol e fez defesas fantásticas. Não tenho os números. Mas na maior parte do tempo a bola rolava de pé em pé dos jogadores da Espanha. Os argentinos não chutaram meia dúzia de bolas que levassem perigo ao gol dos espanhóis. Já a Espanha teve várias conclusões e criou dezenas de situações de gol.

O jogo foi para a prorrogação de 30 minutos. No final do primeiro tempo, o gol argentino continuava fechado. Até que nos minutos iniciais do segundo tempo aconteceu mais uma confusão na área argentina e a bola sobrou picando para Ferran Torres, 26 anos, que chutou com força e fez o gol tão esperado pela torcida espanhola. Na hora, pensei no erro cometido pelo técnico da Inglaterra, o alemão Thomas Tuchel, 52 anos, que na semifinal contra a Argentina recuou demais o time depois de abrir o placar e cedeu espaços generosos que Messi aproveitou para comandar a virada. No final da partida, os argentinos marcaram dois gols em sete minutos e ganharam por 2 a 1. Mas o técnico da Espanha não cometeu o mesmo erro. Seu time continuou atacando até o fim, sem permitir qualquer chance de reação. A Espanha, que havia ganho a Copa em 2010, saiu bicampeã. Depois de assistir à cerimônia de entrega da taça comecei a zapear a televisão em busca de canais argentinos para saber o que estava acontecendo por lá. Confesso que fui surpreendido. Muitos argentinos festejavam o vice-campeonato mundial. Na cultura futebolística brasileira não se comemora o segundo lugar. Mas os argentinos estavam comemorando, em reconhecimento à dedicação dos seus craques à camiseta da Seleção, em especial Messi. É improvável que, devido a idade (terá 43 anos), ele volte em 2030, quando a Argentina jogará a sua partida de estreia em Buenos Aires, como parte da celebração do centenário das Copas. Sou gaúcho, moro em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, que faz fronteira com a Argentina, e torço para o Colorado. Por conta da disputa da Taça Libertadores, tenho as minhas broncas com torcedores e juízes argentinos, e eles têm as deles contra nós.

Para arrematar a nossa conversa. As culturas do Rio Grande Sul e da Argentina são muito semelhantes, o que facilita o nosso entendimento. Digo que a marca registrada dos jogadores da Argentina na Copa do Mundo de 2026 foi a demonstração de “amor à camiseta”, a luta até o último segundo para virar um jogo. Nos dias atuais, os melhores atletas, seja qual for a sua nacionalidade, vão trabalhar no time que lhes der o melhor salário e prestígio profissional. A sua vinculação com o país onde nasceram é a camiseta da Seleção. A imprensa esportiva do Brasil precisa repensar alguns dos seus conteúdos. Como disse, não entendo patavina de futebol. Mas entendo de jornalismo e estratégia.

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