Consertos dos estragos das cheias de 2024 resistirão às novas enchentes do El Niño?

As mudanças climáticas chegaram Foto: Prefeitura de Feliz

No final da tarde de terça-feira (21) eu estava cruzando pelo caixa de um supermercado na Zona Sul de Porto Alegre quando corri os olhos na direção de uma janela próxima e vi uma correnteza de água da chuva sobre o asfalto da avenida. Imediatamente, pensei: “Tudo de novo, não!” A razão do meu comentário: na quarta-feira (15), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) distribuiu um alerta. Avisava que próxima semana os gaúchos começariam a sentir os efeitos da atual manifestação do El Niño, o fenômeno climático que se repete em ciclos de dois a sete anos e se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial, provocando enchentes e secas em todo o planeta. O alerta do INMET previa fortes chuvas e ventos no Rio Grande do Sul, que causariam inundações em bacias hidrográficas importantes, como as dos rios Taquari e Jacuí, que deságuam no Guaíba, o lago (ou rio) que banha Porto Alegre, a capital gaúcha. Depois de cinco dias de chuvas intensas, as inundações haviam expulsado de suas casas 1.099 pessoas (728 foram para a casa de parentes e 371 para abrigos públicos). Pelos menos 169 cidades foram atingidas e o transbordamento de rios e lagos fechou várias estradas. A imprensa diária está fazendo uma cobertura online bem completa e diversificada dos acontecimentos. Citei alguns apenas para contextualizar a nossa conversa. Vai ser um “papo reto”, como dizem os jovens repórteres.

Esses eventos climáticos são o primeiro grande teste dos consertos dos estragos causados à infraestrutura de prevenção às cheias por três enchentes catastróficas que atingiram o Rio Grande do Sul em setembro e novembro de 2023 e em maio de 2024. Em maior ou menor proporção, foram atingidos 459 dos 497 municípios gaúchos. Pelo menos 2,4 milhões de pessoas (quase um quarto da população do estado) foram afetadas, 189 morreram e 25 continuam desaparecidas. Alerto que os números de desaparecidos e mortos ainda estão mudando, porque a Polícia Civil segue vasculhando os locais mais atingidos. Em vários municípios, bairros inteiros desapareceram, levados pelas águas. Em Porto Alegre, o sistema contra as cheias, composto de 68 quilômetros de diques (como a Avenida Castelo Branco), o Muro da Mauá (uma parede de três metros de altura e 2,6 quilômetros de extensão que protege a área central), 14 comportas e 23 casas de bombas, simplesmente colapsou na enchente de maio de 2024. As águas do Guaíba subiram 5,61 metros e invadiram o Centro Histórico, a Estação Rodoviária e o Aeroporto Internacional Salgado Filho, que ficou fechado durante meses e só voltou a operar plenamente no final daquele ano. O sistema foi construído na década de 70, com o objetivo de evitar que se repetissem as cheias de 1941, quando as águas do Guaíba subiram 4,76 metros, e de 1967. Ambas alagaram o Centro da cidade. A dimensão das enchentes de 2023 e 2024 tornaram o Rio Grande do Sul um “case” na 30ª Conferência da ONU Sobre Mudanças do Clima (COP30), que aconteceu de 10 a 21 de novembro de 2025, em Belém (PA). Tenho acompanhado os consertos dos estragos causados por essas três enchentes. Fiz vários posts sobre o assunto. Em um deles, publicado em 26 de julho de 2024 com o título Consertos no sistema contra as cheias da Capital resistem às “enchentes de São Miguel”?, questionei se os reparos feitos no sistema de Porto Alegre seriam suficientes contra as chuvas que estavam caindo no território gaúcho.

As recentes chuvas que atingem o Rio Grande do Sul vão gerar uma quantidade significativa de informações preciosas sobre a eficiência dos consertos feitos em pontes, estradas e toda a infraestrutura danificada pelas enchentes de 2023 e 2024. Lembro que bilhões já foram gastos e ainda estão sendo investidos nessas obras. Porém, os governos federal, estadual e municipais se movem lentamente devido os processos legais que precisam ser cumpridos. Soma-se a isso o longo caminho que percorrem as informações desde os canteiros de obras até os gabinetes dos responsáveis. A velocidade com que as coisas acontecem depende da imprensa. Tenho uns 50 anos de lida de repórter, sendo 40 e poucos em redação de jornal, e atualmente ando pelas estradas em busca de boas histórias para contar. Posso afirmar que nenhuma redação trabalha de maneira preventiva. O fato é o acontecimento. Mas a questão climática está a exigir das redações uma mudança. Por muito tempo, os jornais tiveram repórteres especializados em meio ambiente, na época apelidados de “verdes”. O seu auge nas redações foi no tempo das barulhentas máquinas de escrever. Na década de 90, eles começaram a desaparecer. E a cobertura ambiental caiu na “vala comum” do noticiário. O que era manchete virou notícia de pé de página. Mas o “novo normal do clima” exige a volta dos “verdes” às redações. Caso contrário, os jornais perderão mais um pouco da sua relevância. Por quê? Na maior parte das vezes, a cobertura sobre as mudanças climáticas se resume a matérias sobre prejuízos causados por enchentes e secas. Sei que hoje há escassez de dinheiro e pessoal nos jornais. Contra essa realidade, eu argumento que as novas tecnologias de comunicação diminuíram sensivelmente o custo da apuração jornalística. Há pouco tempo era preciso que o repórter viajasse para levantar informações. Hoje, ele pode obter essas mesmas informações “apertando” um botão de um teclado virtual na tela do seu celular. Portanto, ter um “verde” na redação depende apenas de uma decisão política do CEO do jornal.

Para arrematar a nossa conversa. Quando comecei a trabalhar como repórter, em 1979, a principal questão ambiental no território gaúcho era sobre os danos causados pelo uso exagerado de agrotóxicos nas lavouras de soja. A questão climática raramente era mencionada nas matérias. Entre setembro de 2023 e maio de 2024, as mudanças climáticas mostraram a sua face para os gaúchos. Cada enchente foi pior que a outra. É a nova rotina. As cheias dos últimos dias são o cartão de apresentação de mais um El Niño. A previsão dos meteorologistas é que o fenômeno deve evoluir para um “super El Niño” entre os meses de outubro e dezembro.

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