
Não vou falar em números de pesquisas de intenção de votos para a Presidência da República, cuja eleição acontece em primeiro turno no dia 4 de outubro e, no segundo, em 25 de outubro. A imprensa diária está fazendo a cobertura online das pesquisas eleitorais, publicando diversas e bem elaboradas reportagens. Sou um velho repórter estradeiro, 75 anos, especializado em conflitos agrários, migrações e crime organizado nas fronteiras. Não tenho conhecimentos profundos dos personagens envolvidos na política. Mas sou repórter e sei contar uma história. Andei vasculhando as reportagens que publicamos durante a campanha presidencial de 2022 e na atual. Encontrei alguns fatos interessantes que merecem a nossa atenção. Vamos falar sobre o assunto.
Mas antes vamos contextualizar a conversa como manda o manual do bom jornalismo. Em 2022, havia 11 candidatos a presidente, mas desde o início a disputa se polarizou entre o então presidente, Jair Bolsonaro (PL), 71 anos, que concorria à reeleição, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que foi eleito. Após a derrota no segundo turno, Bolsonaro se envolveu em uma tentativa de golpe de estado. Julgado e condenado a 27 de prisão pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-presidente indicou o seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, para enfrentar Lula, que tenta um novo mandato, na corrida presidencial deste ano. Na atual eleição, 13 candidatos concorrem à Presidência da República, mas, a exemplo de 2022, a disputa está novamente polarizada, desta vez entre Lula e Flávio. Termino aqui a contextualização. O que há de semelhante e de diferente entre os dois episódios de polarização? De semelhante existe o grande volume de reportagens publicadas pela imprensa sobre a necessidade de se consolidar uma terceira via. Em maio de 2022, publiquei o post Lula e Bolsonaro têm carta na manga para evitar a “zebra na eleição?”. O acirramento da disputa entre Lula e o ex-presidente não deu brecha para o surgimento da “zebra”. No segundo turno, Lula fez 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Bolsonaro. A situação se repete em 2026. A disputa entre os dois principais candidatos continua muito acirrada. Mas ainda existe espaço para o surgimento de uma terceira via. Quem fez essa afirmação na quinta-feira (13) foi o experiente político Gilberto Kassab, 66 anos, candidato a vice-presidente na chapa do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), 76 anos. Argumentou que os partidos do Centrão não estão neutros nas eleições presidenciais como foi alardeado. Estão ao lado de Lula. E que as chances de Flávio Bolsonaro ganhar as eleições é “zero”. Acrescentando: “Não tem a menor chance”. Observou que o senador ainda é preservado e deve sofrer desgastes após o início da campanha: “Na hora em que o jogo começar, em que o PT mostrar quem é o Flávio, as pessoas em torno dele, ele vai desabar”.
As declarações de Kassab foram feitas em encontro com Caiado e empresários em Higienópolis, na região central de São Paulo. A campanha política começou no dia 15 de agosto. No domingo (23), aconteceu o primeiro debate na TV, transmitido pela Rede Bandeirantes (Band) e outros órgãos de comunicação. Foram convidados os principais candidatos: Lula, Flávio, Caiado, Renan Santos (Missão), 42 anos, Romeu Zema (Novo), 61 anos, e Augusto Cury (Avante), 67 anos. Lula e Flávio não foram. Nem Zema, que ocupa o quinto lugar nas pesquisas, com menos de 3% das intenções de votos. Participaram Caiado, Renan e Cury. Há disponível na imprensa um farto material sobre o debate e também a respeito das andanças dos outros candidatos no fim de semana. Fiz uma pesquisa sobre o que falaram sobre o senador Flávio e não encontrei novidades. Kassab não chama de “terceira via” o aparecimento de um candidato que acabe com a polarização entre Lula e Flávio. Prefere chamar de “melhor via”. Ele vem trabalhando nessa ideia há um bom tempo. Primeiro, trouxe para o seu partido dois governadores: além de Caiado, Eduardo Leite, 41 anos, do Rio Grande do Sul, que se somaram a Ratinho Júnior, 45 anos, do Paraná. Fez um acordo com os três: quem tivesse o melhor desempenho nas pesquisas eleitorais seria indicado como candidato do partido para concorrer à Presidência da República e receberia o apoio dos outros dois. Ratinho desistiu da indicação e o escolhido foi Caiado. Atualmente, ele tem 5% nas pesquisas. Aqui é o seguinte. Qual é a jogada de Kassab em continuar apostando na “melhor via”? Ele sabe de alguma coisa a respeito de Flávio que tem o potencial de abrir uma brecha na polarização a ponto de permitir o crescimento de um terceiro candidato com chance de disputar a Presidência? Só podemos esperar para ver. Lembro que, entre os comentaristas políticos, Kassab é tratado como um dos maiores conhecedores dos bastidores da política.
Para arrematar a nossa conversa. Todas as informações que temos disponíveis apontam que a disputa de 2026 vai repetir a polarização de 2022. Caso seja confirmada a eleição de Flávio ou Lula, Kassab assumirá o personagem que lutou pelo fim da polarização. Isso o credenciará a ser candidato a presidente da República em 2030?