Repórteres precisam detalhar a história do “risco eleitoral brasileiro”

Oficialmente começou a campanha política Foto: Reprodução

Não me lembro quem foi que disse a frase. Mas me lembro onde foi dita e o contexto político da época. Foi falada em um boteco, numa mesa de jornalistas cheia de garrafas vazias, nas primeiras semanas após a publicação da atual Constituição, em 5 de outubro de 1988, numa agradável noite de primavera em Porto Alegre, a capital dos gaúchos. E o contexto político era complicado. A Constituição oficializou a retirada do poder dos militares que haviam dado o golpe de estado em 1964 e durante 21 anos investiram de maneira violenta contra os políticos gaúchos porque o Rio Grande do Sul era terra do inimigo número um dos golpistas: Leonel de Moura Brizola (1922 – 2004), do antigo PTB, ex-governador do estado e articulador da Legalidade – matérias na internet. Os militares e seus aliados deixaram o poder. Mas por não terem sido julgados e presos pelos crimes que cometeram eles continuaram articulando nas sombras a retomada do poder. Como explicar o emaranhado desse contexto para o leitor? A frase que ouvi mostrou o caminho para dar a explicação: “Temos que explicar a situação para o leitor como se ele fosse um ET que desceu na Terra e foi na banca comprar um jornal para saber dos acontecimentos”.

Lembrei-me da história do ET no amanhecer de sábado (15), dia que começou a campanha eleitoral. Vamos conversar sobre o assunto. A imprensa resumiu o atual contexto político e econômico das eleições de 2026 numa expressão: “O risco eleitoral brasileiro”. A história precisa ser melhor explicada. Assim como está sendo contada faz parecer que o Brasil é uma república de bananas, expressão que se usa para descrever um país fraco e instável. Os resquícios de instabilidade política que existiam no Brasil foram liquidados com a Constituição de 1988, que deu instrumentos para a Justiça lidar com alguém que tente repetir o golpe de 1964. Em 6 de janeiro de 2021 aconteceu um episódio nos Estados Unidos que jamais se pensou que pudesse acontecer em uma democracia de mais de 200 anos. No fim do seu primeiro mandato, o presidente Donald Trump (republicano), 80 anos, que havia concorrido à reeleição e sido derrotado por Joe Biden (democrata), 83 anos, incentivou seus seguidores a invadir o Capitólio (o prédio do Congresso), em Washington, D.C., com o objetivo de impedir a oficialização da vitória de Biden. Houve muitos feridos e cinco mortes. Mais de mil pessoas foram presas. Todas foram anistiadas por Trump dias depois dele assumir o seu segundo mandato, em 20 de janeiro de 2025. No Brasil, em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro (PL), 71 anos, concorreu à reeleição e foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos. Bolsonaro e seus seguidores organizaram um golpe de estado que consistia em vários atos públicos que tinham como objetivo impedir a posse de Lula. O maior e mais visível aconteceu em 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas que estavam acampados na frente de quartéis invadiram e quebraram tudo que encontram no Palácio do Planalto, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Congresso, em Brasília (DF). Bolsonaro e mais de mil dos seus seguidores foram julgados e presos. O ex-presidente está cumprindo pena de 27 anos de cadeia. Na ocasião, especialistas comentaram que a Justiça brasileira estava mais capacitada para lidar com o episódio de 8 de janeiro do que a americana com o 6 de janeiro. O motivo é que a Constituição brasileira foi elaborada de maneira a impedir que se repetisse um golpe de estado como o de 1964. Há reportagens e muitos documentários sobre o 6 de janeiro americano e o 8 de janeiro brasileiro. Lula assumiu o governo. E qualquer pessoa que for eleita em outubro assumirá a Presidência da República em 1° de janeiro de 2027.

O “risco eleitoral brasileiro” não inclui a possibilidade de quem for eleito não assumir. Há 13 candidatos disputando a eleição para presidente da República, que segundo as pesquisas está polarizada entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o filho mais velho do ex-presidente Bolsonaro. Aqui é o seguinte. Os planos econômicos e políticos dos 13 candidatos são diferentes. O risco, ou benefício, que o plano do candidato vencedor trará para o país é um risco que se repete a cada eleição. Faz parte do jogo no Brasil e em qualquer país democrático do mundo. Bem como os agentes econômicos e políticos reclamarem ou aprovarem o plano. Não estou sugerindo que em cada matéria sobre os candidatos à Presidência se anexe um tratado político. Mas que se explique melhor a situação. Lembro que para o Brasil se perfilar entre os países democráticos do mundo muitos foram mortos, torturados e humilhados durante a ditadura militar. A liberdade de imprensa que temos hoje é reafirmada a cada linha que escrevemos em nossas reportagens. A imprensa brasileira está fazendo a cobertura online da disputa eleitoral. São publicadas variadas e bem consolidadas reportagens. Comparada com as democracias europeias, incluindo a americana, a nossa é uma jovem de 38 anos, contados desde a data da publicação da Constituição. Mas tem mostrado musculatura suficiente para resistir aos ataques. Não é segredo para ninguém que o governo Trump vai tentar influenciar na disputa presidencial brasileira. Como fará? Até agora, tem se limitado à divulgação de ameaças. Será preciso esperar para saber o que vai acontecer.

Finalizando a nossa conversa. A arte do jornalismo é contar uma história. E a maneira como é contada vai sofrendo mudanças diariamente com a chegada de novas tecnologias. A disputa eleitoral no Brasil é uma grande história.

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