A imprensa e as semelhanças e diferenças entre os vices de Flávio e de Jair Bolsonaro em 2018

Gaspar busca a digital do PT no escândalo do INSS Foto: Reprodução

Quais são as semelhanças e as diferenças na escolha dos vices de Jair Bolsonaro (PL), 71 anos, na campanha presidencial de 2018, e do seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, que concorrerá à Presidência da República nas eleições do próximo mês de outubro. São várias, tanto as semelhanças quanto as diferenças. Vamos conversar sobre as que eu considero mais importantes. A primeira semelhança é que as duas escolhas foram feitas nos últimos instantes do prazo determinado pela lei, “aos 45 minutos do segundo tempo”, para usar a popular expressão do jargão do futebol. Em 2018, em uma lista de cinco candidatos, na qual constavam dois oficiais de alta patente do Exército, o escolhido foi o general reformado Hamilton Mourão (Republicanos). Em 2026, de uma relação de seis candidatos, em que a maioria eram mulheres, saiu o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), 55 anos. Promotor de Justiça por 24 anos, procurador de Justiça do Ministério Público de Alagoas, Gaspar ficou nacionalmente conhecido quando se tornou relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS. A CPMI do INSS, como ficou conhecida, começou seus trabalhos em agosto de 2025 e foi concluída em março de 2026.

Os motivos da demora das indicações são diferentes. Jair Bolsonaro sonhava fazer um governo com forte presença militar. Tanto que, ao anunciar o seu vice, assim falou e a imprensa registrou: “Neste momento, eu deixo de ser capitão (é reformado do Exército) e o general Mourão deixa de ser general, nós passamos a ser a partir de agora soldados do nosso Brasil”. Depois de três décadas sendo considerado um deputado sem expressão política, do “baixo clero”, como o grupo é apelidado pela imprensa, em 2016, durante a votação, na Câmara dos Deputados, da abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), 78 anos, Bolsonaro fez um discurso de elogio aos torturadores e matadores de presos políticos da ditadura militar que foi instalada no país pelo golpe de Estado de 1964. O discurso o tornou famoso até fora do Brasil graças à ascensão da extrema direita em vários países, incluindo os Estados Unidos – há matérias sobre o assunto disponíveis na internet. Na época, circulavam conversas de que, se eleito, Bolsonaro levaria de volta ao poder, desta vez pelo voto popular, os seguidores dos golpistas de 1964. Esse era o principal motivo de haver filas de candidatos disputando o cargo de vice. Durante o governo, ele nomeou mais de 6 mil militares (ativa, reserva e reformados) para postos importantes na administração federal, como ministros. O então presidente da República e o seu círculo pessoal vendiam a ideia de que eram apoiados pelas Forças Armadas. Por conta dessa história houve várias brigas entre Mourão e os filhos de Bolsonaro. Mourão acabou sendo isolado politicamente pela família Bolsonaro e virou uma figura decorativa. Na época, pelo menos 10 grupos políticos disputavam espaços dentro do governo. Em 2022, Bolsonaro concorreu à reeleição, mas perdeu no segundo turno para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos. Inconformados com a derrota, integrantes dos grupos mais próximos ao presidente formaram uma organização criminosa para dar um golpe de Estado – tudo o que aconteceu está documentado nas 884 páginas do inquérito da Polícia Federal (PF) que apurou o caso. A história de que as Forças Armadas apoiavam Bolsonaro era conversa fiada. No entanto, alguns oficiais aderiram à tentativa de golpe. No final, o ex-presidente foi julgado e condenado a 27 anos de cadeia por seu envolvimento com a trama golpista. Os generais que o apoiaram receberam penas entre 19 e 26 anos. Mourão, que não participou do plano do golpe, foi eleito senador pelo Rio Grande do Sul.

Preso e impedido de concorrer, Bolsonaro indicou Flávio para enfrentar o presidente Lula, que busca a reeleição. O senador mostrou-se um candidato competitivo. Chegou a empatar com Lula nas pesquisas de intenção de votos, polarizando a disputa pela Presidência. As coisas começaram a dar errado quando foram revelados áudios em que ele pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, 42 anos, do Banco Master, supostamente para a produção de um filme sobre o seu pai. Vorcaro está preso preventivamente por fraudes financeiras que causaram um prejuízo de R$ 52 bilhões aos clientes do Master e ao sistema bancário nacional. Flávio também se viu envolvido em um bate-boca público com a sua madrasta, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, 44 anos. Desgastado, o senador viu Lula abriu 10 pontos percentuais de vantagem nas pesquisas e a lista dos seus possíveis vices murchar, com vários candidatos e candidatas desistindo. Aqui tem um detalhe que merece atenção da imprensa. A grande maioria dos candidatos que desistiram de concorrer como vice de Flávio é ligada ao Centrão, o bloco informal de partidos que, conforme descreve a imprensa, independentemente de quem for o presidente, sempre está alinhado ao governo, trocando apoio no Congresso por cargos e verbas. Eles não se afastaram de Flávio por causa do caso Master e muito menos pelo bate-boca com Michelle. Afastaram-se porque o ex-presidente não está mais “com a caneta na mão”. Está preso. Mais ainda: no segundo turno não tem essa conversa de que “a direita vai se unir”. O Centrão vai apoiar quem tiver chances reais de ganhar as eleições. A diferença entre Mourão e Gaspar é que o general era um dos candidatos que o ex-presidente Bolsonaro tinha ao seu dispor. O deputado é o único candidato que o senador tem. O sonho de consumo dos bolsonaristas é que Gaspar, com as informações que reuniu como relator da CPMI do INSS, encontre as digitais do PT na fraude bilionária causada por descontos indevidos nos proventos dos aposentados. A PF e a Controladoria-Geral da União fizeram um bom trabalho de investigação da fraude – matérias na internet. O trabalho da CPMI foi confuso. Qual será a contribuição de Gaspar para a campanha de Flávio? Temos que esperar para ver.

Para arrematar a nossa conversa. O escândalo do INSS começou no mandato de Bolsonaro e entrou no governo Lula. Tenho escrito que o ex-presidente não é um gênio nas estratégias da disputa política. Mas tem uma intuição de sobrevivência incrível. E Lula é um bom estrategista político. Dias interessantes vêm por aí.

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