
Pertenço ao grupo de repórteres que considera que a melhor entrevista é aquela feita pessoalmente, também conhecida como “olho no olho”. Nesse tipo de entrevista podemos encontrar com mais facilidade as contradições e incertezas nos gestos do entrevistado. Tenho 50 anos na lida de repórter, sendo que em 40 deles trabalhei em redação de jornal. Atualmente viajo pelas estradas em busca de boas histórias para contar. E nessa jornada de repórter por várias vezes cruzei o imenso território brasileiro em busca da entrevista “olho no olho”. Especialmente em anos eleitorais, como o atual, quando surgia a oportunidade de mostrar para os moradores das grandes cidades como viviam as pessoas do “Brasil profundo”. Sou especializado na cobertura de conflitos agrários, migrações e crime organizado na fronteira. Por conta disso, sempre viajei muito para os quatro cantos do país. E nas épocas de eleição recebia do editor aquele telefonema que tanto esperava: “Wagner, larga tudo, faz uma matéria sobre a votação”.
Na década de 80, o problema não era fazer este tipo de matéria, porque todas a informações estavam disponíveis na própria localidade. Por serem pequenos lugarejos perdidos nos sertões do Brasil, o problema era enviar o texto e as fotos para a redação devido a precariedade das linhas telefônicas. Só para dar uma ideia. As fotos eram transmitidas por uma máquina barulhenta chamada telefoto, que frequentemente demorava uns bons 20 minutos para enviar uma foto em preto e branco. No caso de fotos coloridas, esse tempo podia passar de uma hora. Isso se a ligação telefônica não caísse no meio da transmissão. O barulho da máquina nos tornava a atração da cidade. E por sermos de Porto Alegre éramos perguntados toda hora sobre o motivo do jornal ter nos enviados para aquela cidade para saber como aconteciam as eleições por lá. Na década de 80 estava se consolidando o povoamento das fronteiras agrícolas, como foram chamadas as regiões de baixa densidade populacional nos estados do Centro-Oeste e do Norte que foram colonizadas por agricultores gaúchos e seus descendentes e hoje constituem a base do agronegócio brasileiro. Contei toda essa história em três livros chamados O Brasil de Bombachas (publicados em 1995, 2011 e 2019). Também fiz cobertura de eleições nos sertões de sete estados do Nordeste e nos arredores da Floresta Amazônica. Vivi nas redações dos anos 80 até 2014, anos que foram o apogeu econômico do que hoje é conhecido como “imprensa tradicional”. Naqueles tempos, as redações tinham muitos profissionais, assinantes, anunciantes e dinheiro para enviar equipes para onde as coisas estavam acontecendo. Tudo isso acabou com a chegada e a consolidação das novas tecnologias da comunicação, particularmente a internet, para onde migrou a maioria dos assinantes e dos anunciantes. Nas redações, surgiu então a figura do repórter multimídia, que faz texto, vídeo e áudio para serem publicados no site do jornal e nos noticiários de rádio e TV.
Não é a primeira vez que conto essa história por ocasião de eleições. Acrescentei muitos detalhes novos sobre uma das versões contada no post Sem repórter na estrada a cobertura das eleições virou um desfile de números (11/10/22). A atual realidade econômica das redações exige uma nova abordagem do repórter em uma cobertura. Não há mais dinheiro para viajar até os confins dos sertões para conversar “olho no olho” com o entrevistado. Mas as novas tecnologias de comunicação se instalaram em todos os cantos do país, por menor que seja o lugar. Por ter fontes nesses rincões, em época de campanha eleitoral costumo ligar para elas para puxar uma conversa. Mas não é a mesma coisa. É um contato frio, quase burocrático. O que isso significa? Falando um português simples e direto. Por não termos mais estrutura e dinheiro para viajar aos locais dos acontecimentos nós repórteres ficamos à mercê de pesquisadores que interpretam dados obtidos em levantamentos. Olha, as eleições presidenciais de 2026 têm muitas pontas soltas, jargão das redações para dizer “coisas mal explicadas”. Está polarizada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que concorre à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que substitui o seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 71 anos, condenado a 27 anos de prisão por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado. Ao contrário de muitos colegas que julgam que a polarização é um problema, eu digo que a história nos mostra que as eleições presidenciais brasileiras são polarizadas há muito tempo. O nosso problema é que as informações que circulam sobre as eleições são escassas e cheias de cascas de banana à espera da sola do sapato de um repórter. Muitos personagens ainda não falaram tudo que sabem sobre os bastidores da disputa política. Cito dois deles: o banqueiro Daniel Vorcaro, 42 anos, ex-dono do Banco Master, que está preso preventivamente por ter se envolvido em uma fraude que deu um prejuízo de R$ 52 bilhões para os seus clientes e o sistema bancário nacional. E o lobista e empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, 62 anos, conhecido como Careca do INSS, que também está preso preventivamente, acusado de envolvimento com um esquema de desvio de R$ 6,3 bilhões de aposentados do INSS. Só saberemos quem será o próximo presidente do Brasil quando foram apuradas as urnas eletrônicas no segundo turno da eleição. Mas seja lá quem for o eleito é certo que Vorcaro e o Careca do INSS continuarão povoando as páginas dos jornais. Por vários motivos. Sendo que o principal é a carência da investigação jornalística nos dois casos. Em geral, são longas, complicadas e custam muito caro. Mas são necessárias.
Arrematando a nossa conversa. No último domingo (16), quando começou oficialmente a campanha eleitoral de 2026, eu estava no interior do Rio Grande do Sul conversando com um antigo e respeitado político que sobreviveu à ditadura militar (1964 – 1985) depois de ser preso e humilhado pelos golpistas. Ele lembrou que nos tempos antigos os candidatos seguiam a cavalo pelo interior, batendo na porta das casas para pedir votos. Cada tempo tem as suas dificuldades, ou cascas de banana à espera do pé de um repórter. Naquele tempo eram os conspiradores do golpe de 64.