Vinculo do leitor com a imprensa tradicional está sendo corroído pela burocracia

Nos momentos de necessidade, as pessoas ainda batem na porta dos jornais Foto: EBC

A sobrevivência da imprensa tradicional, como são chamados os jornais e os departamentos de jornalismo das emissoras de rádio e TV, depende da solução de um problema que é fácil e barato resolver. Ter alguém nas redações que atenda o telefone e converse com a pessoa do outro lado da linha. Não estou pregando uma volta ao passado. Muito pelo contrário. Estou pregando o resgate de uma maneira de fazer jornalismo que é insubstituível: o contato direto entre o repórter e o leitor, o telespectador e o ouvinte. Hoje, os contatos são frios, incompletos e servem apenas para demonstrar a audiência. Vamos conversar sobre o assunto.

Antes uma explicação. Usei a imagem da ligação telefônica como um símbolo da comunicação direta entre duas pessoas. Toca uma campainha, alguém atende e duas pessoas conversam. Lembro-me que no início na minha carreira de repórter tive um editor que, quando eu tentava “vender uma pauta”, ele parecia escutar com ares atentos o meu argumento. Mas quando eu terminava de falar ele dizia apenas: “Wagner, resume o blá-blá-blá em uma frase”. Dada a explicação, vamos ao assunto. O avanço das novas tecnologias é usado pelas empresas de prestação de serviços e órgãos governamentais para poupar dinheiro, substituindo funcionários por máquinas. Para resolver um problema comercial ou com um órgão governamental (seja municipal, estadual ou federal) precisamos falar com um atendente virtual, que transforma a nossa conversa em um protocolo. O problema não é resolvido, ele é agendado. A máquina é de hoje. Mas a situação é antiga. Antes, se podia ligar para a redação e falar com o pauteiro, o jornalista que selecionava os assuntos que receberiam cobertura do jornal. Se conseguisse convencê-lo da importância do seu problema, ele seria incluído na pauta e um repórter seria destacado para esclarecer o assunto. Aqui é o seguinte. Um simples telefonema do repórter para uma empresa ou órgão público que eventualmente estivesse envolvido com o problema do leitor já mudaria o tom da conversa, porque eles saberiam que o assunto iria parar no próximo noticiário. Essa é a força da imprensa desde os tempos em que escrevíamos as matérias molhando a ponta de uma pena num tinteiro, passou pela era das barulhentas máquinas de escrever e continua nos dias atuais, apesar de todos os entraves que dificultam o acesso do leitor à redação. Não estou “dourando a pílula” sobre a aproximação entre o leitor e o jornalista. Conheço o assunto. Trabalhei em redação de 1979 a 2014 e nos dias atuais ando pelas estradas procurando boas histórias para contar. Lembro-me da época que o leitor batia da porta do jornal e conversava cara a cara com o repórter. Muitas vezes a conversa virava bate-boca e era necessária a intervenção da turma do deixa-disso. Tratei disso no post Jornais perderam qualidade com burocratização do acesso do leitor ao repórter, publicado em novembro de 2023. De lá para cá, os problemas só aumentaram. Vou citar o mais conhecido deles: o “novo normal do clima”, que aumentou a ocorrência de eventos severos, como tempestades devastadoras, chuvas torrenciais e secas prolongadas, que afetam fortemente o dia a dia das comunidades. A quem os leitores procuram quando falta energia elétrica e eles não conseguem respostas dos operadores do sistema? À imprensa tradicional. Mandam um WhatApp e ficam “rezando” para que alguém leia a sua mensagem e responda.

Como disse, já estive do outro lado do balcão. Dos meus 50 anos na lida de repórter, 35 foram nas redações. Eram outros tempos. A imprensa tradicional tinha fartura de profissionais, assinantes e anunciantes. A realidade atual é outra: assinantes e anunciantes migraram em peso para as plataformas de comunicação que surgiram com as novas tecnologias. Em consequência, as redações murcharam e os salários minguaram. Muitas coisas mudaram. Mas uma não mudou. Na hora da necessidade, as pessoas ainda recorrem à imprensa tradicional. Por quê? Porque as grandes empresas de comunicação têm um volume de produção jornalística distribuído nos seus vários noticiários. O vínculo histórico com o leitor é a grande diferença entre elas e as novas plataformas de comunicação. É justamente esse vínculo que está sendo destruído pela dificuldade do contato direto entre repórter e leitor. Tenho debatido esse assunto com estudiosos do jornalismo. As novas tecnologias facilitaram a vida do repórter. Sou especializado em conflitos agrários, migrações internas e crime organizado nas fronteiras. Já participei de grandes coberturas jornalísticas, como a Guerra Civil de Angola (1975 – 2002), na África. Na década de 90, estive duas semanas escrevendo reportagens sobre o conflito e convivi com jornalistas de várias partes do mundo. Lembro-me que as equipes de TV eram enormes e carregavam equipamentos pesados que dificultavam o seu deslocamento. Na guerra entre Rússia e Ucrânia, que começou em 2022 e se arrasta até hoje, o repórter só precisa de um celular conectado a um satélite para fazer a cobertura diretamente do local da batalha e transmitir ao vivo para o mundo inteiro. Foi graças às novas tecnologias da comunicação que o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, 48 anos, conseguiu jogar a opinião pública mundial contra o presidente russo, Vladimir Putin, 73 anos. Tenho dito nas palestras que faço para estudantes: jornalismo é contar uma história real. Tanto pode ser na imprensa tradicional quanto nas plataformas nascidas com a internet. Há um debate sobre o assunto que não tenho interesse de entrar porque o foco da minha conversa é a questão do acesso do leitor ao repórter.

Para arrematar. Há uma enorme e variada quantidade de documentários sobre a incorporação pela imprensa tradicional das novas tecnologias da comunicação. Essa incorporação é fundamental para a sobrevivência econômica das empresas do setor. Mas, usando um linguajar dos operadores do mercado, ela não pode dificultar a vida dos dois principais atores dessa história: o repórter e o leitor. O que está acontecendo hoje é que o vínculo do leitor com a imprensa tradicional está sendo corroído pela burocracia.

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