Qual é o interesse do CV e do PCC nos garimpos ilegais da Floresta Amazônica?

Valorização do ouro atraiu a atenção das organizações criminosas Foto: EBC

É justamente em momentos como o atual, em que atenção da imprensa, do público e das autoridades está voltada para outro lado, no caso as eleições de outubro, que agem os devastadores da Floresta Amazônica. Os madeireiros ilegais aproveitam para retirar as toras dos esconderijos, os grileiros de terra avançam sobre as glebas públicas e os garimpeiros invadem as reservas indígenas em busca de ouro. Há muitos anos essa tem sito a rotina na região. Neste ano, nós repórteres teremos a oportunidade de dimensionar o tamanho da capilaridade da infiltração nos garimpos das duas maiores organizações criminosas do Brasil: o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Há mais de duas décadas, o CV e o PCC operam na região amazônica, estabelecendo rotas de transporte da cocaína que abastece os mercados brasileiro, europeu e norte-americano. O atual ciclo da disparada do preço do ouro, que se iniciou após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, e vem sendo sustentado por compras maciças por parte dos bancos centrais de inúmeros países, especialmente a China, além de outros riscos geopolíticos e econômicos, despertaram o interesse das duas organizações criminosas pelo metal extraído dos garimpos da Amazônia. Na quarta-feira (26), um grama de ouro puro (24 quilates) estava cotado no Brasil em torno de R$ 760. Vamos conversar sobre o assunto.

Para entendermos a gravidade da situação é necessário recuar no tempo e contar uma história da qual fui testemunha e documentei em reportagens. Entre o final da década de 90 e início dos anos 2000, o carioca Luiz Fernando da Costa, 59 anos, foragido da Justiça brasileira, se estabeleceu na cidade paraguaia de Capitán Bado, que é separada por uma avenida de Coronel Sapucaia, município no oeste do Mato Grosso do Sul (MS). Um dos principais chefões do Comando Vermelho (atualmente cumprindo pena em um presídio de segurança máxima), Fernandinho Beira-Mar, como é conhecido, refugiou-se na fazenda do traficante João Morel (1939 – 2001), que com os filhos Ramon e Mauro forneciam boa parte da maconha consumida no Brasil. Beira-Mar era um dos seus maiores clientes. Na época, todo o mercado de drogas no Brasil era abastecido por intermediários como Morel, que compravam a maconha dos produtores locais e a cocaína dos cartéis colombianos e as revendia para os traficantes brasileiros. Vivendo entre os intermediários da distribuição de drogas, Beira-Mar viu uma oportunidade. E foi justamente isso que atraiu a atenção da imprensa para a região. Estive lá várias vezes tentando conversar com ele. Não consegui. Mas falei com vários líderes do seu bando, incluindo um pastor que era seu amigo pessoal. Beira-Mar iniciou uma guerra contra os intermediários, mandando matar muitos deles, incluindo Morel e seus filhos. Fez contato com Negro Acácio, um líder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), uma organização que nasceu como grupo guerrilheiro político, mas com o tempo passou a proteger os cartéis de cocaína. E viajou para a Amazônia colombiana, onde negociou diretamente com os produtores da droga. Logo depois, o PCC também se estabeleceu na fronteira e liquidou com o último grande comerciante local de drogas, Jorge Rafaat Toumeni (1960 – 2016). Conhecido como Rei da Fronteira, ele vivia em Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia separada por uma rua de Ponta Porã, no oeste do Mato Grosso do Sul. Foi morto em uma emboscada nas ruas de Caballero, por pistoleiros do PCC que usaram uma camionete equipada com uma metralhadora .50, arma de guerra capaz de derrubar aeronaves. A execução virou notícia mundial. Estive lá fazendo reportagens.

Resumindo. O CV e o PCC eliminaram os grupos de traficantes locais e tomaram conta dos negócios na fronteira do Paraguai com o Brasil. De lá, expandiram-se para a Floresta Amazônica. Onde atualmente operam, associados a organizações criminosas locais, as rotas de transporte de drogas pelos rios. Além de armas, munições, cigarros e outras mercadorias que abastecem consumidores do Brasil e de vários países da América do Sul, Europa e Estados Unidos. Em junho, escrevi o post Na lista de terroristas, PCC e CV operam nos garimpos ilegais da Amazônia. Para dar uma ideia da dimensão do problema. O Brasil produz 90 toneladas de ouro anuais. Metade vem dos garimpos, sendo que 90% deles se concentram na Floresta Amazônica, a maioria dentro de áreas indígenas. O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 80 anos, incluiu o CV e o PCC na lista das organizações terroristas, ao lado de grupos como a Al-Qaeda, de Osama Bin Laden (1957 – 2011) – matérias na internet. O governo brasileiro é contra a inclusão, alegando que dificultará a troca de informações entre as autoridades policiais internacionais. Atualmente, esses garimpos são organizados, financiados e mantidos por comerciantes e políticos locais. O que sabemos com certeza é que o CV e o PCC têm interesse em usar o ouro dos garimpos para lavar os bilhões de reais que ganham com o comércio de drogas e outras mercadorias. Enquanto isso, as grandes vítimas dos garimpos são as populações indígenas. Como escrevi no post, o episódio mais conhecido foi a invasão do território dos ianomâmis, uma gleba de 9,6 milhões de hectares na fronteira do estado de Roraima com a Venezuela. O uso de mercúrio e outros produtos tóxicos nos garimpos resultou na destruição de uma vasta área de rio e levou doenças e fome para os indígenas.

O PCC e o CV podem tomar dois caminhos no caso dos garimpos ilegais na Amazônia, segundo os especialistas. O primeiro é investir nos grupos que controlam e financiam essas atividades. Ou simplesmente tomarem conta do negócio, como fizeram na fronteira do Paraguai com o Brasil. Temos que acompanhar os acontecimentos para conhecer o rumo que essa história vai tomar. Daí a importância de sabermos o que está rolando entre os grupos que financiam os garimpeiros e as organizações criminosas.

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