A imprensa será surpreendida na reta final das eleições presidenciais de 2026?

Vai ser uma disputa de desgaste entre Lula e Flávio Foto : EBC

A respeito das eleições presidenciais. As cartas estão na mesa. O horário político gratuito no rádio e na TV começou na última sexta-feira (28). Segundo os analistas, mesmo com a popularização das redes sociais, o horário eleitoral ainda tem um peso significativo na definição do voto. Citam vários motivos para a persistência dessa relevância, um deles é que existem 15 milhões de brasileiros sem acesso à internet. E no meio deles podem estar os votos dos indecisos que irão decidir a parada. A exemplo de outros anos, as eleições presidenciais estão polarizadas, desta vez entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que concorre à reeleição. Eles contam com os votos dos seus seguidores para chegar ao segundo turno. Mas serão os indecisos que decidirão quem será eleito. Claro, lembro que na política nada é definitivo. Há uma pequena chance de emergir um terceiro candidato, um “azarão”. Tratei do assunto na terça-feira (25) no post A imprensa, a polarização Lula x Flávio e a brecha para um terceiro candidato. Há vários disputando essa vaga, como o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, (PSD), 76 anos, e até o escritor Augusto Cury, 70 anos, que em pesquisa divulgada na segunda-feira (31) surpreendeu aparecendo em terceiro lugar. Renan Santos (Missão), 42 anos, que vinha se consolidando na terceira colocação, sofreu um revés nesta segunda-feira. Sua campanha foi parcialmente suspensa pelo ministro Dias Toffoli, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por omissão de algumas de suas contas nas redes sociais. A decisão pode ser revertida.

Como será essa primeira semana da reta final das eleições? Vamos conversar sobre o assunto. Iniciamos contextualizando o nosso papo, como manda o manual do bom jornalismo. Há 13 candidatos a presidente disputando a preferência dos 150 milhões de brasileiros aptos a votar. O senador Flávio foi escolhido pelo seu pai, o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 71 anos, para substituí-lo na disputa presidencial por dois motivos. O primeiro é que, ainda em 2023, foi julgado inelegível até 2030 pelo TSE. E o segundo é que, no ano passado, ele foi condenado a 27 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado – matérias disponíveis na internet. Se Flávio ganhar as eleições, ótimo. Se perder, preservará o patrimônio político do pai na família Bolsonaro. Aos 80 anos, Lula concorre ao seu último mandato. Se vencer, influenciará diretamente na escolha do seu sucessor. Se perder, volta para casa para trabalhar pelo partido, ajudando a preparar o candidato do PT à Presidência em 2030. Terminada a contextualização, vamos falar sobre o que poderá ocorrer na reta final da disputa entre o senador e o presidente Lula. Nas pesquisas para o segundo turno, os dois estão empatados tecnicamente. O voto do indeciso decidirá esse empate. É possível o surgimento de um fato novo que possa “virar a mesa” e um dos candidatos disparar na frente na intenção de votos? É. Porque tudo é possível na política, nos ensina a história. O mais provável é que os candidatos sigam apostando na tática de desgaste político do adversário, como aconteceu nas eleições de 2022, quando Bolsonaro concorreu à reeleição e perdeu para Lula. Esse tipo de disputa exige atenção máxima das equipes envolvidas nas estratégias da campanha. Por quê? Uso o linguajar das mesas dos botecos de jornalistas para responder: “Deixou uma bola picando na área, já era”.

Como já disse, o leitor que Lula e Flávio estão disputando é aquele que só decide em quem vai votar na manhã do dia da eleição. Antigamente, esse eleitor era um desconhecido para os estrategistas das campanhas. Hoje não é mais, porque o aperfeiçoamento das pesquisas eleitorais facilitou a sua localização e a descoberta dos seus hábitos de viver. O que permite aos estrategistas organizarem abordagens específicas para o perfil do indeciso. Lembro que em 1989, na primeira eleição direta para presidente da República depois de 21 anos de ditadura militar, a minha geração de repórteres precisou “aprender na marra” como funcionavam as pesquisas eleitorais, as campanhas, a votação e a apuração dos votos. Comecei a trabalhar em redação em 1979, em plena ditadura, e só uma década depois aconteceu a primeira eleição livre. Foi uma loucura. Levaram uma semana para apurar os votos. Em 2014, quando saí da redação para continuar pelas estradas em busca de boas histórias para escrever, a urna eletrônica garantiu a apuração do resultado ainda no dia da votação. E o mais importante: colocou um ponto final no chamado “voto de cabresto”, assim definido como um tipo de fraude eleitoral em que o eleitor era obrigado a votar no chefe político de uma região. Não estou contando essa história por saudosismo. Estou aproveitando uma oportunidade para lembrar que muita gente foi presa, torturada e morta pelo regime militar lutando pela nossa democracia. Ela é jovem se comparada com as democracias centenárias de países como os Estados Unidos, mas tem musculatura suficiente para resistir aos ataques autoritários como os que aconteceram no final de 2022 e em 8 de janeiro de 2023, quando seguidores do ex-presidente Bolsonaro que estavam acampados na frente de unidades militares invadiram e quebraram tudo que encontraram pela frente no Palácio do Planalto, no STF e no Congresso, em Brasília (DF). Aquele episódio foi fartamente documentado em vídeos e fotos e nas 880 páginas do relatório final da investigação feita pela Polícia Federal (PF). Todo esse material serviu de prova para a Primeira Turma do STF condenar e decretar a prisão de mais de mil pessoas envolvidas na tentativa de golpe. Estou muito curioso para ler o livro do tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior, 65 anos, ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), chamado Eu disse NÃO! – Uma trincheira antigolpista. Conta a história da pressão que o ex-presidente fez na cúpula das Forças Armadas para aderir à tentativa de golpe de estado.

Para terminar a nossa conversa. O fato da Constituição ter musculatura suficiente para resistir às tentativas de golpe não significa que devemos ficar desatentos aos fatos. Lembro que ninguém imaginava que aconteceria o 6 de janeiro de 2021 nos Estados Unidos. O então presidente Donald Trump (republicano), 80 anos, incentivou seus seguidores a invadirem o prédio do Congresso (Capitólio), em Washington (DC), para impedir a certificação da eleição de Joe Biden (democrata), 83 anos, que o havia derrotado na sua tentativa de se reeleger. A democracia americana tem 250 anos. Como disse, a brasileira é jovem, tem 38 anos. Mas é forte o suficiente para garantir a realização de uma eleição limpa e garantir que o ganhador assumirá.

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