Por que o agronegócio não investiu na candidatura de Caiado a presidente?

Sucessão familiar rural muda o perfil político e econômico da região Foto: EBC

Faço parte de uma rede de repórteres que no auge dos conflitos agrários do Brasil, na década de 80 e início dos anos 90, se encontravam nas coberturas das invasões de fazendas realizadas nos sertões do país pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e outras organizações sociais. Os programas de reforma agrária do governo federal diminuíram sensivelmente os conflitos no campo e as ocupações de terra se tornaram raras. Entre nós repórteres ficou a amizade e os números de telefones para conversar e “trocar ideias”. Na época que só existia o telefone fixo era difícil bater um papo. Era preciso ligar e marcar a hora da conversa. Hoje, com as atuais tecnologias, é uma barbada. Nunca falamos tanto. Lembrei-me da turma na quarta-feira (2), quando saíram os resultados da pesquisa da Quaest sobre as intenções de voto dos seis principais candidatos a presidente da República no primeiro turno: Lula teve 37%, Flávio Bolsonaro, 29%, Augusto Cury, 10%, Renan Santos, 3%, Ronaldo Caiado, 1%, e Romeu Zema, 1%. A grande novidade da pesquisa foi a consolidação em terceiro lugar de Cury (Avante), um psiquiatra e escritor que já vendeu mais de 40 mil livros de “autoajuda”.

Liguei para colegas dos tempos das coberturas dos conflitos agrários para conversar sobre um desses candidatos: o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), 76 anos. Nós conhecemos Caiado na década de 80. Foi o primeiro que teve coragem de assumir, perante os jornalistas, que era de direita. O Brasil acabara de sair do trauma de ter sido governado durante 21 anos por uma ditadura militar que deixou um rastro de presos políticos torturados, desaparecidos e mortos. A ferida aberta pelo golpe de estado de 1964 ainda estava muito viva. Caiado montou a União Democrática Ruralista (UDR) para defender os interesses políticos e econômicos dos fazendeiros. Ele é médico e foi deputado federal várias vezes e senador. Inclusive, concorreu a presidente da República na primeira eleição direta depois da ditadura, em 1989, que foi vencida por Fernando Collor de Mello. Resumindo: é veterano na política. E na atual disputa, dependendo da empresa que fez o levantamento, vinha oscilando em 4% e 7% das intenções de voto. Agora chegou ao fundo do poço. Perguntei para um colega que mora em Brasília (DF): “Tchê, o que houve com o Caiado, ele simplesmente desapareceu nas pesquisas?”. Ele respondeu: “Perdeu muito tempo apostando no Bolsonaro”. Caiado pertencia a um grupo de candidatos que pleiteava a indicação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 71 anos, para substituí-lo na disputa contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que concorre à reeleição. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tornou Bolsonaro inelegível até 2030 e atualmente ele cumpre uma pena de 27 anos de prisão por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado – matérias na internet. No final de 2025, Bolsonaro decidiu que seu substituto seria o filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, com o objetivo de manter o patrimônio político com a família. Flávio e Lula estão polarizando a disputa e as pesquisas indicam um empate técnico entre ambos no segundo turno.

Respondi ao meu colega repórter que não concordava que Caiado tivesse perdido tempo apostando na possibilidade de ser indicado por Bolsonaro. Citei dois motivos. O primeiro é que ele tem uma história política própria. Não é um desconhecido da opinião pública nacional. Fizemos dezenas de matérias sobre ele nas décadas de 80 e 90. Lembro-me que quando Bolsonaro assumiu o seu mandato, em 2019, nomeou o presidente licenciado da UDR, Luiz Antônio Nabhan Garcia, 68 anos, para titular da Secretaria Especial de Assuntos Fundiários. A UDR ainda existe e atua no Congresso fazendo pressão na defesa dos proprietários de terras. Mas o segundo motivo é o que julgo ter sido a principal causa da candidatura de Caiado não ter decolado. Durante a campanha, ele gritou aos quatro ventos que, caso fosse eleito, anistiaria o ex-presidente e seus seguidores que se envolveram na tentativa de golpe de estado. Pesquisas mostram que mais de 60% dos brasileiros não querem ouvir falar em anistia. E desejam ficar longe de golpistas. Tratei desse assunto em duas ocasiões. Em abril, no post A luta de Caiado para não ser um “puxadinho” de Flávio nas eleições presidenciais. E, em julho, no post Por que as candidaturas de Zema e Caiado não decolaram nas pesquisas?. Caiado justificou o fato de estar com 1% das intenções de voto dizendo que os eleitores ainda estão escolhendo os candidatos. Ele está há mais de um ano fazendo campanha. Conversei sobre Caiado com outro colega repórter que mora em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Na consolidação do chamamos de grandes produtores de grãos do agronegócio, a UDR de Caiado foi fundamental na articulação política. Disse para o meu colega que acreditava que esses grupos de grandes produtores iriam segurar a “barra do Caiado” e dar sustentação para que ele tivesse um bom desempenho nas eleições. Perguntei ao colega de Campo Grande por que o agronegócio não apostou em Caiado. Ele respondeu: “Simples, toda aquela geração que implantou as lavouras nas décadas 80 e 90 se aposentou e passou os negócios para os filhos, que desconhecem a história dos conflitos agrários”. Ele tem razão. Vi e documentei na minha trilogia Brasil de Bombachas, três livros (lançados em 1996, 2011 e 2019) que contam a história dos gaúchos e seus descendentes que povoaram o Centro-Oeste e Norte do país. A última vez que rodei pela região, em 2018, tratei da sucessão familiar. A eleição deste ano e a de 2030 fecharão um ciclo na história da disputa política no Brasil.

Encerro a nossa conversa lembrando aos meus colegas repórteres um assunto que merece a atenção da imprensa. A sucessão familiar no agronegócio, que muda o perfil econômico, político e tecnológico de uma região. Ao contrário do que é alardeado, o agronegócio não se resume aos grandes proprietários de terra e aos donos de vastos rebanhos. É um negócio que envolve grandes, médios e pequenos proprietários e grupos econômicos que investem na produção de grãos e carne. Bancos e cooperativas têm feito campanhas para motivar os filhos a assumir os negócios da família.

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