A imprensa e o esclarecimento do “Caso Vorcaro, do Banco Master”

Democracia não se implanta por decreto, é um processo que exige a atenção da imprensa Foto: EBC

Na primeira semana de setembro, por conta do retorno às manchetes do “Caso Vorcaro, do Banco Master”, parecia que não ficaria tijolo sobre tijolo no Supremo Tribunal Federal (STF), na Procuradoria-Geral da República (PGR) e na Polícia Federal (PF). No fim de semana, os analistas políticos admitiam que o menor dano que a confusão e a bagunça em Brasília causaria à política nacional seria influenciar na eleição presidencial que está marcada para outubro, no dia 4 em primeiro turno e no dia 25, no segundo. A eleição presidencial será disputada por 13 candidatos e está polarizada entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que tenta a reeleição. Sempre que acontecem essas confusões, a adrenalina entre os repórteres atinge o nível máximo. Sei disso por ter trabalhado em redação 40 dos meus 50 anos de lida de repórter, dedicados principalmente à cobertura de conflitos agrários, migrações e crime organizado na fronteira, o que me levou a percorrer os sertões do Brasil e países vizinhos. Nessas coberturas, montei uma boa e qualificada rede de contatos com colegas repórteres para trocar ideias e informações. Estamos conversando muito sobre o “Caso Vorcaro do Banco Master”.

Tivemos uma longa troca de ideias no sábado (5). Na ocasião, lembrei de um encontro que tive na década de 1970 em um boteco de Porto Alegre. O Brasil vivia os Anos de Chumbo, como ficou conhecido o período que se seguiu à decretação, em 13 de dezembro de 1968, pelo presidente da República, marechal Artur da Costa e Silva (1899 – 1969), do Ato Institucional n° 5. O AI-5 deu início ao período mais repressivo da ditadura militar instalada no país pelo golpe de estado de 1964. Na noite daquele mesmo dia, o Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas estaduais foram fechadas, parlamentares tiveram seus mandatos cassados, outros tiveram seus direitos políticos revogados, o habeas corpus foi suspenso para crimes políticos e foi instalada a censura prévia à imprensa. Para escapar da onda de prisões políticas que se seguiu ao AI-5, e não poupou nem mesmo figuras que faziam oposição moderada ao regime, centenas de pessoas, incluindo parlamentares, cientistas, professores, estudantes e jornalistas, fugiram às presas e clandestinamente do Brasil para países vizinhos, em especial o Chile. Uma das principais rotas de fuga passava por Porto Alegre. Tive a sorte e o privilégio de ser convidado para uma conversa com um desses “fugitivos”. O encontro foi em boteco no Bom Fim, então um bairro boêmio da Capital gaúcha. Ele era um homem já idoso e de grande sabedoria política. Eu, um jovem de 20 e poucos anos. Falamos de tudo um pouco. No meio do papo, surgiu a conversa sobre o que aconteceria quando os militares e seus aliados fossem retirados do poder. O que o homem disse sobre a herança que os militares deixariam na vida política brasileira? Até hoje me lembro do essencial. Ele disse que o golpe congelou as disputas políticas ao prender líderes sindicais, estudantes e parlamentares e censurar a imprensa. E que as tensões sociais voltariam à tona com a redemocratização, porque a ditadura militar não resolveu problemas como a saúde pública, o ensino e a reforma agrária. A volta das lutas sociais seria um longo processo. Não me esqueci daquela conversa porque fui testemunha desse processo. Em 1979, comecei a trabalhar como repórter em redação. E um dos focos da minha carreira foram os conflitos agrários. Os militares de 1964 prenderam, torturaram e deram fim a várias lideranças que lutavam pela reforma agrária. O que resultou no desaparecimento de muitos movimentos sociais, entre eles as Ligas Camponesas, no Nordeste, e o Movimento dos Agricultores Sem Terra (Master), no Rio Grande do Sul. Em 1989, escrevi o livro A Saga do João Sem Terra, sobre um dos líderes do Master que viveu na clandestinidade durante 30 anos. A luta pela terra voltou antes mesmo que os militares deixassem o poder. Nesse processo, surgiu o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Por tudo isso que escrevi, não acredito que a crise que está acontecendo no STF, na PGR e na PF causada pelo “Caso Vorcaro” colocará a democracia brasileira em risco. Porque existe a liberdade de imprensa. Lembro que no final de 2022 e em 8 de janeiro de 2023 houve uma tentativa de golpe de estado no país – matérias nos jornais. A democracia saiu fortalecida daquele episódio. Vamos ao resumo dessa história. Em novembro do ano passado, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master devido a uma grave crise de liquidez e a violações de normas de sistema financeiro nacional, no que foi considerada a maior fraude bancária da história do Brasil. O dono do Master, Daniel Vocaro, 42 anos, foi preso, acusado de fraudar em mais de R$ 50 bilhões os clientes do banco, a Previdência Social e o sistema bancário nacional. Solto poucos dias depois, Vorcaro voltou a ser preso em março deste ano, desta vez por tentativa de obstrução da justiça e ameaças a jornalistas, empresários e ex-funcionários. Está preso preventivamente desde então. As investigações da PF revelaram que ele montou uma rede de proteção e influência para livrá-lo caso fosse descoberta a sua fraude. A estratégia consistia em se aproximar de altas autoridades, patrocinando grandes festas em locais caríssimos ao redor do mundo, para onde transportava os convidados em seus jatinhos. Além desse esquema, também existia uma rede de funcionários públicos que ocupavam pontos estratégicos na administração federal e lhe forneciam informações sigilosas. O relator do “Caso Master” no STF é o ministro André Mendonça, 53 anos. O inquérito tem 400 páginas. No início de setembro, Mendonça retirou o sigilo de 216 páginas. Nessas folhas consta a investigação feita por policiais federais de uma denúncia publicada pela imprensa em março. Vocaro contratou, por R$ 129 milhões, o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, 56 anos. Ela é esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, 57 anos, que ganhou fama por ter sido o relator da Primeira Turma do Supremo que julgou e condenou o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 71 anos, a 27 anos de prisão por comandar uma organização criminosa que tentou dar um golpe de estado. Nas páginas do inquérito que foram liberadas há citações de mensagens que teriam sido trocadas entre Vorcaro e o ministro Moraes. Também são citados Paulo Gonet, 65 anos, procurador-geral da República, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, 55 anos. Na quinta-feira (3), o ministro Moraes usou um relatório da PF para acusar Mendonça de ter cometido improbidade administrativa, abuso de autoridade e outras irregularidades. O presidente do STF, ministro Edson Fachin, 68 anos, deu cinco dias para as partes envolvidas explicarem o que aconteceu. Essa história vai longe. A imprensa diária está fazendo cobertura online diversificada e bem consolidada.

Para concluir a nossa conversa. Uma democracia não se implanta assinando um decreto. A história nos ensina que é um processo longo, minucioso e que exige a atenção permanente da imprensa. Oficialmente, a redemocratização do Brasil se iniciou em 1989, com a publicação da atual Constituição. Muitos brasileiros morreram, ficaram com sequelas das torturas e perderam seus empregos. A liberdade de imprensa é uma garantia de que o “Caso Vorcaro do Banco Master” será esclarecido. Se irá ou não influenciar nas eleições é outra história.

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