Cafés gaúchos: papo é o “duelo dos ministros” e a queda da dupla Grenal

Delação premiada do Mineiro pode revelar os caminhos do dinheiro de Vorcaro Foto: Reprodução

Na tarde de quarta-feira (9), participei de uma história que considerei curiosa em uma cafeteria de Porto Alegre (RS). Estava conversando com um grupo de amigos sobre o episódio envolvendo os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Na terça-feira (8), o ministro André Mendonça, 53 anos, afastou dos seus cargos o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, 55 anos, e o diretor de inteligência da instituição, Leandro Almada da Costa, 55 anos, acusando-os de arapongagem, ou espionagem clandestina. Menos de 24 depois, na manhã de quarta, o ministro Flávio Dino, 58 anos, determinou a volta dos delegados aos seus postos. Horas depois, o ministro Edson Fachin, 68 anos, presidente do STF, suspendeu as duas decisões: a de Mendonça, pelo afastamento de Rodrigues e Costa, e a de Dino, para reintegrá-los. E marcou uma audiência presencial no plenário para o próximo dia 15, quando o processo será analisado pelo colegiado. Há meio século sou repórter e não me lembro de ter passado por uma situação semelhante.

Os episódios que aconteceram terça e quarta-feira são capítulos de uma crise no STF que se iniciou em fevereiro, quando Mendonça se tornou relator do “Caso Vorcaro, do Banco Master”, que pode ser assim resumido: em novembro do ano passado, o dono do Master, o banqueiro Daniel Vorcaro, 42 anos, foi preso, acusado de fraudes que deram um prejuízo R$ 52 bilhões aos clientes do banco e ao sistema financeiro nacional. Nessa história, entre outros, estão envolvidos o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, candidato a presidente da República, e o ministro do STF Alexandre de Moraes, 57 anos, que ficou famoso por ter sido o relator do julgamento dos envolvidos na tentativa de golpe de estado que aconteceu no final de 2022 e teve o seu apogeu em 8 de janeiro de 2023 – matérias disponíveis. Nos tempos das barulhentas máquinas de escrever nas redações o “Caso Vorcaro” seria descrito como “dinamite pura”. Há 13 candidatos a presidente da República, mas a disputa está polarizada entre o senador Flávio e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que concorre à reeleição. A nossa conversa girava ao redor dos rumos que essa história irá tomar e o seu poder de influenciar na escolha do próximo presidente. Depois de uma hora e pouco de papo, alguém da mesa lembrou da situação de Grêmio e Inter no Campeonato Brasileiro. No início, ninguém foi atraído pela conversa sobre futebol. Mas aos poucos começamos a avaliar a “situação vergonhosa” da dupla Grenal. O Inter está em 18ª lugar, com 25 pontos, na zona do rebaixamento. O Grêmio em 15ª lugar, com 28 pontos, próximo à zona de rebaixamento. Em síntese. O destino da dupla é cair para a segunda divisão. A não ser que aconteça algum milagre. A conversa sobre futebol foi ganhando corpo e acabou substituindo o papo sobre política. Como sempre lembro nessas horas. Sou repórter especializado em conflitos agrários, migrações e crime organizado nas fronteiras. Portanto, não entendo patavina de futebol. Mas entendo de jornalismo. E a cobertura esportiva tem deixado muito a desejar. Há um exagero na quantidade de matérias sobre as estratégias dos treinadores e escassez de reportagens sobre os bastidores dos dois times. O que está rolando entre as quatro paredes dos vestiários do Estádio Beira-Rio e da Arena do Grêmio?

Terminamos a nossa conversa “atirando pedra” na imprensa esportiva. E aguardando os próximos capítulos do “rolo no STF”. No caminho de casa lembrei-me que, no final do mês passado, estive no interior do Rio Grande do Sul visitando parentes e colegas repórteres que conheci nos anos 80, a época dos grandes conflitos agrários no país. Falamos sobre política e futebol. A respeito da política, a conversa girou em torno da disputa para o governo do estado, que segundo as pesquisas mais recentes vem sendo liderada pelo deputado federal Luciano Zucco (PL), 52 anos, e pela ex-deputada Juliana Brizola (PDT), 51 anos, com uma boa folga sobre os demais candidatos. Zucco é tenente-coronel da reserva do Exército e defensor das ideias políticas do ex-presidente Jair Bolsanaro (PL), 71 anos. Bolsonaro defende uma aliança entre o Brasil e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 80 anos. Sua vice é a experiente ex-deputada Luciana Covatti (PP), 62 anos. Juliana é neta do ex-governador gaúcho Leonel de Moura Brizola (1922 – 2004), do antigo PTB, um nome lendário da política gaúcha, conhecido pelas ideias nacionalistas e por ter sido o inimigo número um dos militares que deram o golpe de estado em 1964. Três anos antes, em 1961, Brizola havia liderado a Campanha da Legalidade, um movimento civil-militar que garantiu, contra a vontade dos quartéis, a posse do gaúcho João Goulart (1919 – 1976), do PTB, na Presidência da República, após a renúncia de Jânio Quadros. O vice de Juliana é o ex-deputado Edgar Pretto (PT), 55 anos. Nas pequenas cidades agrícolas do interior gaúcho ainda se discute política tomando chimarrão. A disputa entre Zucco e Juliana deverá se decidir no segundo turno. Os dois estão se preservando e evitando se envolver em debates com os outros sete candidatos ao governo do Estado. Essa preservação tem um grande objetivo: evitar atritos com quem poderão formam alianças para o segundo turno. Como é do jogo, e costuma acontecer até com certa frequência em eleições para o governo do Rio Grande do Sul, existe a possibilidade do crescimento, na reta final, de um terceiro candidato. O mais cotado é Gabriel Souza (MDB), 42 anos, veterinário e atual vice-governador, dono de um discurso muito enxuto e articulado. Uma das pessoas com quem conversei foi um antigo líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que se descreve como “gremista raiz”. Perguntei-lhe como estava o Grêmio. Assim me respondeu: “Terra improdutiva”.

Para arrematar a nossa conversa. Na quarta-feira (9), o ministro Mendonça homologou a delação premiada do empresário Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro, com a Procuradoria-Geral da República (PGR). Ele era dono da Entre Investimentos e Participações, que atuava como um “braço” da organização de Vorcaro encarregado de pagar propinas a autoridades. Poderá esclarecer os caminhos percorridos pelos R$ 65 milhões dados pelo banqueiro para financiar o filme Dark Horse, o Azarão, que conta os bastidores da campanha eleitoral que levou o ex-presidente Bolsonaro, pai do senador Flávio, à Presidência da República em 2018. O senador foi personagem em uma reportagem publicada pelo site The Intercept Brasil cobrando prestações atrasadas de Vorcaro.

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