
São conhecidos como “reta final” os 10 dias que antecedem o segundo turno das eleições para a Presidência da República. A disputa final, no dia 25 de outubro, coloca frente a frente o senador Flávio Bolsonaro (PL), 45 anos, e o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos (fará 81 dois dias depois da votação), que concorre à reeleição. Na noite de quarta-feira (21), o Senado aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, que altera a jornada de trabalho e na prática acaba com o que ficou conhecido como escala 6 por 1 – seis dias de trabalho por um dia de descanso. A PEC foi aprovada em dois turnos por 75 votos a 1. O voto contrário foi do senador gaúcho Hamilton Mourão (Republicanos). A Câmara dos Deputados havia aprovado a alteração em 27 de maio, por 461 votos a 19, e no dia seguinte a proposta foi enviada ao Senado. A aprovação está relacionada a uma aliança política feita por Lula com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), 37 anos, e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), 49 anos. Por ser uma matéria de grande apelo popular, o senador Flávio, que tinha se posicionado contrário à aprovação, foi convencido pelos aliados a votar a favor. A PEC do fim da escala 6 por 1 entrará em vigor assim que for promulgada pela Mesa do Congresso Nacional e publicada no Diário Oficial da União. Seus efeitos serão aplicados em duas etapas. Na primeira, após dois meses da sua promulgação, a jornada semanal de trabalho será reduzida de 44 horas para 42, mantendo a remuneração. Na segunda etapa, após um ano e dois meses da publicação, a jornada máxima semanal passará para 40 horas.
A história do nascimento da PEC do fim da escala 6 por 1 é muito legal e está ao alcance de “um Google”. Tenho 76 anos, 50 como repórter, sendo 40 em redação de jornal, e hoje ando pelos rincões em busca de histórias para contar. Sou especializado em conflitos agrários, migrações e crime organizado nas fronteiras. Não estou dando um “carteiraço”. Só tranquilizando o leitor, dizendo que sei do que estou falando. Vamos lá. A redução da jornada de trabalho beneficia as famílias de 39,4 milhões de trabalhadores com carteira assinada. É daí que nasce a sua popularidade. E a torna uma poderosa e valorosa conquista para Lula na disputa de votos com Flávio. Aqui cabe uma explicação. Lula esperava ganhar o primeiro turno das eleições presidenciais. Tinha dois grandes motivos para essa crença: primeiro, já concorreu em seis eleições presidenciais e ganhou três. Segundo, tinha uma pequena vantagem nas pesquisas de intenção de votos. Na noite de domingo (4), ao final da apuração, essa vantagem indicada nas pesquisas não se confirmou. Flávio fez 47,10% dos votos válidos e Lula, 45,08%. Uma diferença de 2 milhões de votos a favor do senador. Nos dias seguintes, as equipes responsáveis pela campanha de Lula e do seu vice, Geraldo Alckmin (PSD), 73 anos, iniciaram uma série de reuniões para tentar identificar os problemas e encontrar soluções que deveriam ser adotadas para vencer o segundo turno. Claro, o que conversaram ficou entre quatro paredes. Mas o diagnóstico feito pela imprensa, especialmente pelos colegas especializados em política, pode ser encontrado nas páginas dos jornais. Vou citar alguns: a história que Lula estava contando para atrair os eleitores tinha mais a ver com o passado do que o futuro. E o que considero o problema mais sério: o uso das redes sociais, fundamentais nos dias de hoje na disputa política, deixavam muito a desejar. Os jornais falaram durante uma semana inteira sobre os problemas da campanha. Lula apertou o “botão de reiniciar” e mexeu na estrutura da campanha. Conseguiu reativar a militância do partido, que reuniu milhares de pessoas em manifestações públicas em várias cidades do Brasil, especialmente em São Paulo e no Rio de janeiro. O conteúdo da campanha está sendo enfileirado de maneira mais simples e direta. A aprovação da PEC do fim da escala 6 por 1 não é a única vitória da campanha do PT. Vem mais por aí – matérias nas redes.
O senador Flávio iniciou a campanha para presidente da República no final de 2025 desacreditado pelos aliados do seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 71 anos. A história é a seguinte. Bolsonaro precisou indicar um substituto para concorrer à Presidência por dois motivos: primeiro, porque o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o tornou inelegível até 2030. E, segundo, porque foi condenado a 27 anos de prisão por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado. Durante meses, vários candidatos postularam a indicação do ex-presidente. O preferido dos aliados era o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), 51 anos. Tarcísio foi ministro no governo Bolsonaro (2029 – 2022) e tem uma relação pessoal muito forte com o ex-presidente. No final, pesou a decisão de manter o legado de Bolsonaro com a família. O escolhido para enfrentar Lula nas urnas foi o filho mais velho, Flávio. Surpreendidos, os aliados apostaram que poderiam reverter a situação caso o senador não se mostrasse competitivo nas pesquisas eleitorais. Não foi o aconteceu. Enquanto Tarcísio anunciava que iria concorrer à reeleição ao governo paulista (foi eleito no primeiro turno), o senador crescia e empatava com Lula nas pesquisas, consolidando a sua candidatura. A missão que Flávio recebeu da família foi ajudar a formar uma grande bancada no Senado e na Câmara dos Deputados e se tornar referência na oposição. Seria ótimo se ganhasse a eleição para presidente. Mas não obrigatório. A vitória do senador sobre Lula no primeiro turno fez com que vários aliados do ex-presidente começassem a espalhar boatos de que seriam escolhidos para ocupar ministérios ou outros cargos importantes no governo. Flávio optou por apostar em alianças com os principais candidatos a presidente derrotados no primeiro turno, entre eles o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), 77 anos. A família alertou o senador que ele estava de “salto alto” – soberba. Há dois motivos principais para a vitória de Flávio no primeiro turno. O primeiro é que o discurso foi muito direto e ligado aos problemas diários da população: dinheiro e segurança pública. O segundo motivo foi a eficiente articulação com as redes sociais.
Flávio ganhou o primeiro turno com uma pequena diferença de votos sobre Lula, em torno de 2 milhões. No final da tarde de quarta-feira foi publicada uma nova pesquisa da Quaest sobre as intenções de votos para o segundo turno: Flávio teve 46% e Lula, 44%. Tecnicamente estão empatados. Esse perfil é de uma disputa que geralmente é vencida por um detalhe que passou despercebido por um dos concorrentes.