
Na noite de quinta-feira (11) estava cochilando na frente do fogão a lenha, aquecido pelo fogo que queimava as toras. A TV estava ligada, mas foi o toque do celular que me despertou. Nem olhei para ver de quem era a chamada. Coloquei o telefone no ouvido e escutei uma voz aflita: “Wagner, o Brito morreu?”, perguntou o colega repórter. Respondi com outra pergunta: “Qual deles? Temos seis amigos em comum chamados Brito, sendo que quatro são Brittos com dois T”, acrescentei. “Não sei”, disse ele, “só ouvi que morreu. Tu sabes qual deles?” Respondi que não sabia, mas que faria umas ligações e retornaria. Não fiz nem uma coisa nem outra. Voltei a dormir, vencido pelas taças de vinho tinto que tinha bebido acompanhadas de batata frita e pastel de carne no Bar do Alexandre, o boteco onde no início de todas as noites de quinta-feira, seja qual for o clima, nos reunimos na Confraria do Alemão, formada por um grupo de jornalistas. Contamos a história da confraria no livro Entre um gole e outro – Conversas de boteco.
Na sexta-feira (12) pela manhã ouvi no noticiário de rádio que a família tinha anunciado na noite anterior a morte de Hércules Brito Ruas (1939 – 2026), o zagueiro Brito, xerifão da área da Seleção Brasileira que ganhou o Tri no México, em 1970. Não liguei para o meu colega para esclarecer a morte porque foi ela manchete em todos os jornais. Brito morreu aos 86 anos, justamente quando a bola começava a rolar para a Copa do Mundo da Fifa 2026, quando o Brasil tentará conquistar o Hexa. Não será uma caminhada fácil. A competição começou no último dia 11 e terminará em 19 de julho reunindo, pela primeira vez, 48 seleções. E também de forma inédita terá jogos em três países: Estados Unidos, Canadá e México. Na noite de quinta, na mesa do boteco, falei sobre a minissérie da Netflix Brasil 70: a Saga do Tri, uma história que mistura os bastidores da Seleção com o ambiente vivido pelo Brasil, na época governado por uma ditadura militar que se instalou no poder por um golpe de estado em 1964 e permaneceu até 1985. Gostei da história. Em 1970, eu tinha 20 anos e me lembro das crenças do técnico da Seleção, o místico Jorge Lobo Zagallo (1931 – 2024), que acreditava na força do número 13 e era devoto de Santo Antônio, homenageado no dia 13 de junho, justamente o dia que o time brasileiro iniciou a sua caminhada em busca do Hexa. O atual técnico do Brasil é o italiano Carlo Ancelotti, 67 anos. Pela terceira vez consecutiva, a Itália não se classificou para a Copa. Publicações italianas desejaram sorte para Ancelotti e lembraram que ele é o representante da Itália no Mundial. Agora são 16h32min, uma fria tarde de sábado (13) em Porto Alegre. Vou parar de escrever, ajeitar as toras de lenha no fogão, acender o fogo e esperar a bola rolar entre Brasil e Marrocos para terminar o texto.
Às 19h04min começou o jogo. No início, os brasileiros foram encurralados pelos marroquinos e levaram um gol marcado pelo meio-atacante Ismael Saibari, 25 anos. Na hora, achei que levaríamos um “saco de gols”. A cabeça fria do experiente Ancelotti fez a diferença. Reorganizou o time e Vini Jr., 25 anos, fez o gol de empate. Como se diria nos tempos das barulhentas máquinas de escrever nas redações: “colocamos a bola no meio do campo e recomeçamos o jogo”. Não ganhamos por detalhe. O empate significa que ainda estamos no páreo. Claro que pensei na Seleção do Tri. Mas abandonei logo a ideia porque não tem como comparar o atual futebol jogado pelos brasileiros com o das grandes seleções, como é o caso do Brasil de 1970, sem escrever um livro de muitas páginas. Portanto, não vou encher a paciência do leitor, a quem aprendi a respeitar nos anos que passei na redação. Trabalhei em jornal de 1979 a 2014 e atualmente ando pelas estradas em busca de boas histórias para escrever. Vou comentar um feito que considero relevante que foi alcançado pela atual Seleção. A torcida pelo time ressuscitou e conseguiu unir os brasileiros na defesa das cores nacionais, o verde-amarelo, que tinham sido sequestradas por um dos lados envolvidos na disputa eleitoral de 2018. Não vou “chover no molhado” lembrando a história, há muitas matérias disponíveis sobre o assunto na internet. Antes, durante e depois do jogo do Brasil houve festas de Norte a Sul e de Leste a Oeste deste imenso e diversificado país. Portanto, começamos bem o caminho rumo ao Hexa. Se não der, em 2030 tem Copa novamente. O importante é que a “Canarinho” é de todos nós.
Para arrematar a nossa conversa, vou lembrar uma história sobre o Marrocos. Nas redações dos jornais, quando o time perde ou ganha jogando mal a ordem dos editores para os repórteres é: “busquem os culpados de sempre”. É uma adaptação de uma frase icônica, “prendam os suspeitos de sempre”, do clássico do cinema Casablanca. O filme conta a história do amargurado Rick Blane (Humphrey Bogart), um americano que durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) se exila na cidade portuária marroquina de Casablanca, então sob controle político e administrativo da França de Vichy, como foi chamado o governo colaboracionista francês instalado no poder pelos nazistas após a invasão do país. Em Casablanca, Rick abre uma casa noturna, onde reencontra sua antiga paixão, Ilda Lund (Ingrid Bergman), que está casada com um militante da Resistência francesa caçado pelos nazistas. Rick mata um oficial alemão para proteger o casal. Para encobrir a morte, o chefe da polícia, o capitão Louis Renault (Claude Rains), ordena a seus comandados: “prendam os suspeitos de sempre”. O capitão era aliado do dono da casa noturna, que sempre o deixava ganhar na roleta. Várias cenas e falas dos personagens atravessaram os tempos. Uma frase inesquecível é “toque outra vez, Sam”, o pedido de Ilda ao pianista Sam (Dooley Wilson) para que toque As Time Goes By, a música que marcou o romance que ela e Rick tiveram em Paris, e que por isso mesmo Rick o havia proibido de tocar novamente. O filme estreou em 1942, ganhou três Oscar (filme, diretor e roteiro adaptado) e tornou Casablanca uma cidade famosa no mundo inteiro.