
Há uma longa e diversificada fila de problemas para serem resolvidos diante da porta do técnico da Seleção Brasileira, o italiano Carlo Ancelotti, 67 anos. Muitos deles foram mostrados no empate de 1 a 1 contra o Marrocos, no último sábado (13). O resultado não comprometeu a caminhada da Canarinho rumo ao Hexa. Mas se por um erro de escalação ou qualquer outro motivo o Brasil empatar com o Haiti, na noite desta sexta-feira (19), “cai a casa” da comissão técnica. Se perder, “a casa pega fogo”. Porque é dada como certa a vitória contra os haitianos, tanto que a imprensa virou as costas para a partida. E pelo volume e intensidade de matérias, os jornalistas que acompanham a Seleção elegeram como principal problema de Ancelotti a recuperação da lesão muscular de grau dois na panturrilha direita do atacante Neymar Jr., 34 anos. Podem anotar: a recuperação do craque é a menor das dores de cabeça do técnico. Vamos conversar sobre o assunto.
Inicio a nossa conversa lembrando que no dia 18 de maio, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, Ancelotti anunciou os 26 convocados para a Copa do Mundo da Fifa, que começou no dia 11 de junho e terminará em 19 de julho, reunindo pela primeira vez 48 seleções e que de forma inédita terá jogos em três países: Estados Unidos, Canadá e México. Na ocasião da convocação, muita gente não acreditava na presença de Neymar na lista de selecionados devido os seus constantes problemas com lesões. Esse foi o principal motivo que levou o craque a organizar uma campanha para sensibilizar o treinador a convocá-lo. Teve sucesso. Ancelotti o chamou, para a surpresa de muita gente, entre as quais me incluo. Ancelotti está chegando ao Brasil, e como já tem uma lista grande de problemas com a Seleção, não iria acrescentar mais um não convocando Neymar, que tem uma imensa legião de fãs. Perguntado pelos jornalistas se Neymar ficaria no banco de reserva ou seria titular, Ancelotti respondeu que quem escalaria ou não o jogador seria o seu desempenho nos treinos. Dias depois, foi anunciada a lesão que tirou Neymar dos primeiros treinos e do jogo contra o Marrocos. Desde então, a cobertura diária da imprensa vem acompanhando o passo a passo da sua recuperação. Com reportagens do tipo: colocou as chuteiras, tocou a bola e outros detalhes. Há um fato que se aprende na faculdade de jornalismo sobre a enorme influência que tem na opinião pública o trabalho do repórter que faz cobertura diária dos noticiários. Esse é o motivo pelo qual a cobertura da imprensa sobre a Seleção dá a ideia de que Neymar resolverá os problemas do time. Não vou entrar no bate-boca sobre a carreira do craque. Não sou especializado em assuntos esportivos. Sou especializado em conflitos agrários, crime organizado na fronteira e migrações internas. Mas entendo de cobertura jornalística diária e sei como as coisas acontecem.
Cabe aos colegas especializados em esportes saber por que motivo estamos presenciando tamanho alarido em torno de Neymar. A respeito desse assunto, lembro os jornalistas que eles estão deixando passar batido uma história que merece ser melhor esmiuçada para o leitor. As novas tecnologias da medicina, alimentos e condicionamento físico aumentaram a longevidade dos atletas. Tenho 75 anos e me lembro que na década de 90 um jogador com 30 anos era considerado em fim de carreira. Nos dias atuais, jogam até os 40 anos. A geração do argentino Lionel Messi, que completará 39 anos no dia 24 de junho, e do português Cristiano Ronaldo, 41 anos, está se despedindo dos gramados. Na outra ponta, temos a geração dos brasileiros Vinícius Jr., 25 anos, e Raphinha, 29 anos. No meio, entre os extremos dessas gerações, está a turma de Neymar. Ele nasceu em 1992 e estreou como profissional aos 17 anos, em 2009. Sua geração cresceu dentro da internet, que começou a se popularizar nos anos 90 e provocou uma revolução em todos os setores, incluindo os meios de comunicação. Neymar perfila-se entre os “boleiros” como um hábil usuário das mídias sociais. Ele sabe conversar com os jornalistas. Conduziu com maestria a campanha para a sua convocação e agora conseguiu se tornar a principal pauta da cobertura da Seleção. Em coberturas de grandes eventos, como é o caso da Copa do Mundo da Fifa, os jornais enviam o seu pessoal especializado, mas também repórteres de outras editorias para oferecer ao leitor um material bem sortido dos acontecimentos. Não tenho os números. Mas ouvi conversas entre colegas que o atual torneio se perfila entre os que têm o maior contingente de jornalistas trabalhando. Um dos motivos é que envolve um enorme volume de interesses políticos (incluindo a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã), econômicos (patrocínios de várias marcas) e disputa de mercado por parte das casas de aposta. Posso ter não visto. Mas andei dando uma procurada na internet por reportagens sobre o contexto em que se realizam os jogos da Copa de 2026 e fiquei decepcionado com a escassez de matérias. Nós jornalistas precisamos conversar sobre o assunto.
Para arrematar a nossa conversa. Se não der “zebra” no jogo contra o Haiti e Neymar se curar da lesão e se sair bem nos treinamentos, o que Ancelotti fará com o craque? A cada partida, o técnico troca vários jogadores. Portanto, teoricamente não teria problemas para encaixá-lo no time. O que vai acontecer dependerá do desempenho da Seleção no torneio. É simples assim, como dizem os repórteres nas mesas dos botecos.