História do bolsonarismo explica o confuso momento da candidatura de Flávio

Presidente será conhecido quando forem abertas as urnas Foto: Reprodução

Primeiro vamos aos fatos. Eu me incluía no imenso contingente de repórteres que duvidava que o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL-RJ), 71 anos, conseguisse transferir o seu prestígio político para o filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos. Cumprindo pena de 27 anos de prisão pelo seu envolvimento em uma tentativa de golpe de estado, Bolsonaro indicou Flávio para disputar em seu lugar a Presidência da República, enfrentando o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que tenta a reeleição. Flávio mostrou robustez nas pesquisas eleitorais e chegou a empatar com Lula nas intenções de votos. O ex-presidente conseguiu, portanto, passar prestígio político para o filho. Mas não conseguiu transmitir o seu “toque de Midas”, que descrevo como o poder de eleger outros candidatos. Atualmente, os candidatos têm evitado serem fotografados ao lado de Flávio. Vamos falar sobre o assunto.

Antes de começar o nosso papo julgo necessário dar umas explicações. Nessa conversa sobre a ascensão, consagração e queda do bolsonarismo no Brasil não vou citar nenhum trabalho cientifico e muito menos especular sobre pesquisas eleitorais. Vou citar fatos que publicamos na imprensa. Sou um velho repórter estradeiro, tenho 75 anos, meio século na lida do jornalismo investigativo, sendo que durante quatro décadas trabalhei em redação de jornal e atualmente ando pelas estradas em busca de histórias para contar. Tenho um monte de prêmios de jornalismo e escrevi vários livros. Não estou dando um carteiraço. Mas humildemente dizendo ao meu leitor que sei do que estou falando. Vamos a nossa conversa. A ascensão do bolsonarismo começou em abril de 2016, no plenário da Câmara dos Deputados, na votação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), 78 anos. Bolsonaro, então deputado federal pelo Rio de Janeiro, assim fechou o seu voto: “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é sim”. Durante a ditadura militar (1964 – 1985), o coronel Ustra (1932 – 2015) foi chefe do DOI-Codi, órgão de repressão ligado ao II Exército, sediado em São Paulo. Sob o seu comando, dezenas de pessoas foram torturadas e pelo menos 50, assassinadas – toda história é contada em reportagens e nos documentos da Comissão Nacional da Verdade. Dilma foi uma das torturadas. O discurso de Bolsonaro circulou o mundo, sendo execrado pelos defensores dos direitos humanos e exaltado pelos líderes da extrema direita. Até então, ele era um parlamentar discreto, que por três décadas pertenceu ao chamado “baixo clero”, como são classificados os deputados que não se destacam na atividade parlamentar. O discurso em homenagem ao coronel Ustra tornou Bolsonaro um personagem popular e pavimentou o seu caminho para disputar as eleições presidenciais em 2018. Faltando um mês para a realização do primeiro turno, em 6 de setembro, durante um comício em Juiz de Fora (MG), Bolsonaro foi vítima de um atentado. Esfaqueado no abdômen por Adélio Bispo de Oliveira, ele sobreviveu, embora sofra até hoje com as sequelas do ferimento. Bispo está preso em um presídio de segurança máxima. Eleito presidente, Bolsonaro assumiu o mandato no primeiro dia de 2019. Aqui chegamos ao estágio da consagração do movimento bolsonarista no Brasil. Na época, o comentário entre nós jornalistas era que “nada colava no presidente”. Ele colocou nos postos-chave da administração federal 6 mil militares (da ativa, da reserva e reformados) de várias patentes. Muitos deles sem o mínimo conhecimento dos assuntos do seu ministério. Todos os dias, manchetes destacavam os problemas gerados pela militarização da administração, que se exacerbaram durante a pandemia de Covid-19. Em 2021, uma Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado, a CPI da Covid, no seu relatório final de 1,3 mil páginas, colocou as digitais do governo federal nas mortes de 700 mil brasileiros devido o negacionismo do presidente quanto ao poder de contágio e letalidade do vírus. Mas nada aconteceu a Bolsonaro. Ele continuou firme e forte no cargo. Tanto que se candidatou à reeleição em 2022 com chances reais de ser eleito.

Por 2 milhões de votos, uma quantidade considerada irrisória em uma disputa presidencial, Bolsonaro perdeu a eleição para Lula. Mas o seu prestígio político elegeu mais de 100 parlamentares (deputados e senadores) e muitos governadores. O que será relatado a seguir é o início da queda do bolsonarismo no Brasil. Após a derrota nas urnas, o ex-presidente e 36 pessoas do seu círculo pessoal montaram uma organização que tinha como objetivo dar um golpe de estado e impedir a posse de Lula. Conseguiram mobilizar mais de 1,2 mil militantes que estavam acampados na frente de unidades do Exército. No dia 8 de janeiro de 2023, eles se reuniram na Praça dos Três Poderes, em Brasília, e quebraram tudo que encontraram pela frente no Palácio do Planalto, no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal (STF). Mais de mil pessoas foram julgadas, condenadas e cumprem penas, entre elas o ex-presidente. Em 2025, parlamentares bolsonaristas e seus aliados tentaram passar um projeto de anistia ampla e irrestrita no Congresso. O projeto não avançou por vários motivos, o principal é que 59% dos brasileiros são contra. Mas passou um projeto de dosimetria, que virou a Lei 15.402/2026, reduzindo as penas. A sua aplicação foi suspensa pelo STF. Em dezembro de 2025, quando Bolsonaro indicou o filho Flávio para substituí-lo na disputa presidencial, o objetivo era manter o seu legado político na família, se possível com a vitória nas eleições. Como disse no começo da nossa conversa, o senador começou bem a corrida rumo à Presidência da República. Chegou a empatar com Lula nas pesquisas de intenção de voto. Em maio, tudo mudou. O site The Intercept Brasil publicou uma reportagem com áudios e mensagens de textos nos quais Flávio cobra do banqueiro Daniel Vorcaro, 40 anos, do Banco Master, parcelas atrasadas de uma contribuição de R$ 134 milhões com a qual tinha se comprometido para a produção do filme Dark Horse, o Azarão, que conta os bastidores da campanha que elegeu Bolsonaro presidente em 2018. Vorcaro já tinha repassado R$ 61 milhões e parou de pagar as parcelas. Ele foi preso preventivamente e o Master, liquidado judicialmente pelo Banco Central por fraudes financeiras que causaram um prejuízo de R$ 50 bilhões aos clientes e ao sistema bancário. Por conta da reportagem, Flávio perdeu 10% nas pesquisas. Mais um fato. Nos dias 24 e 25 de junho, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, madrasta do senador, publicou um vídeo de 26 minutos, dividido em dois capítulos, em que o acusa de ter sido mal-educado com ela, entre outras coisas. O vídeo tirou votos de Flávio.

Arrematando a nossa conversa. No auge do prestígio do bolsonarismo esse tipo de acusação não colaria em Flávio. Agora, colou. Lembro que na convenção nacional que o lançou candidato, no sábado (25), as estrelas do encontro foram o presidente da Argentina, Javier Milei, 55 anos, gritando desaforos contra Lula e o ministro do STF Alexandre de Moraes, 57 anos, e o avatar do ex-presidente Bolsonaro. Atualmente, o maior adversário de Flávio não é Lula. São os seus antigos aliados no Congresso, que “estão pulando do barco”. Claro, o movimento bolsonarista ainda tem energia suficiente para virar o jogo. Só saberemos realmente quem será o próximo presidente na noite de 25 de outubro, horas depois de serem fechadas as urnas do segundo turno. Até lá é tudo especulação, como nos ensina a história.

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