
Em 1979, quando comecei a trabalhar como repórter de jornal, circulava pela redação uma antiga história sobre um personagem chamado “guarda da esquina”. Costumava ser citado nas reportagens para sintetizar o perigo que representam as ditaduras militares e os demais regimes de exceção, em que os agentes dos órgãos de repressão têm a sua própria interpretação das leis. Lembrei-me desse personagem quando o presidente da Argentina, Javier Milei, 55 anos, começou a disparar desaforos contra o seu colega Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos. Lula concorre à reeleição em uma disputa até aqui polarizada com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 71 anos, que cumpre uma pena de 27 anos de prisão por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado. Durante a campanha em que seu elegeu presidente, Milei já despejava desaforos contra Lula. Aumentou o volume e a quantidade de insultos nos minutos seguintes ao assumir o mandato, em dezembro de 2023.
No atual momento, o presidente argentino está outra vez exagerando nos desaforos. E por conta dos exageros eu comentei com um velho colega repórter que conheci nos tempos das barulhentas máquinas de escrever nas redações: “Milei é o guarda da esquina do Trump”. Não é segredo para ninguém que o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 80 anos, tenta influenciar as eleições presidenciais brasileiras apostando na candidatura de Flávio Bolsonaro. A tarefa está a cargo do secretário de Estado, Marcos Rubio, 55 anos, que por ser filho de cubanos é um grande conhecedor da política dos países da América do Sul. Milei se diz seguidor da filosofia anarcocapitalista, uma teoria política e econômica que defende a abolição total do Estado, e tem profundas ligações políticas com o governo Trump, em especial com Rubio. Ele foi convidado e participou da convenção nacional do PL que oficializou a candidatura de Flávio à Presidência da República no final do mês passado. Virou estrela da convenção e ofuscou a participação do senador. O ponto alto da sua participação foi a “saraivada” de desaforos contra Lula. Não repetirei as ofensas por considerá-las absurdas – estão disponíveis na internet. Na primeira semana de agosto, Milei voltou à carga e gritou aos quatro cantos do mundo uma nova enxurrada de insultos contra o presidente brasileiro. Desta vez, o governo Lula reagiu. Rebaixou a relação diplomática com a Argentina e retirou de Buenos Aires o embaixador brasileiro, Julio Glinternick Bitelli, 65 anos, deixando como encarregado da Embaixada o segundo em comando, o ministro-conselheiro Eduardo Uziel. O rebaixamento é um dos protestos mais fortes de um país contra outro e na prática representa o fechamento dos canais diplomáticos de alto nível entre ambos. O Brasil é o principal endereço das exportações argentinas no mundo. Não é por outro motivo que os principais jornais e empresários de todos os setores econômicos da Argentina estão criticando o comportamento de Milei.
Li muito sobre o currículo político e profissional de Milei por ter feito muitos posts sobre as últimas eleições presidenciais argentinas. Um deles, publicado em 7 de novembro de 2023, tinha o título Perca ou ganhe as eleições argentinas, Milei vai complicar a vida do governo brasileiro. Ele tem a seu favor o fato de ter pego um país com hiperinflação e muitos outros problemas. Conseguiu resolver a hiperinflação. Mas restaram os outros problemas. Daí a sua popularidade estar oscilando entre 36% e 41%. Uma das características de Milei é ser uma pessoa extremamente atenta às oportunidades de ganhar visibilidade. Assim que Trump assumiu o seu segundo mandato, em 20 de janeiro de 2025, ele inundou as redes sociais com elogios ao presidente americano. Claro, é direito dele surfar nas oportunidades para estar vitrine. Como escrevi em um post publicado em 2023: “Nas minhas andanças de repórter trabalhei nos casos dos atentados terroristas à Embaixada de Israel (1992) e à Associação Mutual Israelita Argentina (1994), ambas em Buenos Aires, que somaram 114 mortos e centenas de feridos. E, desde 1983, perambulo pela fronteira do Brasil com a Argentina fazendo reportagens sobre crime organizado e sobre os agricultores gaúchos e seus descendentes que vivem no interior daquele país”. Chamo a atenção para o seguinte. Brasil e Argentina têm uma longa e diversificada fronteira de 1,2 mil quilômetros, a maioria de rios como o Uruguai, que separa o Rio Grande do Sul do território argentino. As origens e a cultura dos gaúchos e dos argentinos são muito semelhantes, a começar pelo chimarrão, que eles chamam de mate. Milei não está brigando com um país distante qualquer. Está brigando com seu maior vizinho, que por sinal também é o maior comprador dos seus produtos. No início desta semana, ele confirmou que concorrerá à reeleição em 2027. Na opinião de muitos jornalistas argentinos, escolheu o pior caminho para iniciar a jornada, que é o “esculacho” para afrontar os adversários. Nas conversas que tive na lida de repórter aprendi que na política não existe nem amigos, muitos menos inimigos. Mas aliados e adversários. E que os aliados de hoje podem ser os adversários de amanhã. E vice-versa.
Para arrematar a nossa conversa. Eu moro em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, e como vizinho dos argentinos digo que uma das acusações mais absurdas que Milei fez ao governo brasileiro foi de ter financiado parcialmente (25% do valor), durante a Copa do Mundo, uma campanha “anti-Argentina” e contra a seleção de futebol do país nas redes sociais. As seleções de Brasil e Argentina são rivais de longa data. Mas as coisas sempre se resolveram dentro do campo. O presidente da Argentina sabe dançar tango?